Publicidade

Correio Braziliense

Projeto da Defensoria oferece atendimento jurídico gratuito na Rodoviária

Com o objetivo de ajudar pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade social, projeto oferece auxílio jurídico e social na Rodoviária do Plano e em outras cidades do Distrito Federal


postado em 02/04/2018 06:00 / atualizado em 01/04/2018 22:02

"Hoje, se eles procurarem atendimento em qualquer órgão sem a documentação necessária, serão barrados ainda na porta de entrada" (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)


Quem vive em situação de vulnerabilidade no Distrito Federal enfrenta desafios diários, invisíveis aos olhos da população e muitas vezes abandonados pelos próprios familiares. Projeto criado pela Defensoria Pública do Distrito Federal (DPDF) tem como objetivo dar apoio a essas pessoas. Desde 2012, um dos trabalhos consiste em oferecer atendimento jurídico-social gratuito à população de moradores de rua. Com a participação de defensores, psicólogos e assistentes sociais, a cada mês, a defensoria realiza duas sessões de atendimentos, uma delas itinerante, específicas para esse público.

“O que nós buscamos, enquanto Defensoria Pública, é ir até a população que mais precisa de ajuda e, hoje, são os moradores de rua que mais vivem em condições de vulnerabilidade”, diz o defensor público do Núcleo de Direitos Humanos da DPDF, Daniel Costa. A equipe da defensoria atende a diversas demandas. Na maioria das vezes, os moradores de rua buscam auxílio para conseguir uma nova via de documentos pessoais, como carteira de identidade e certidão de nascimento.

Eles também têm a oportunidade de solicitar abrigo em uma das sete unidades de acolhimento vinculadas à Secretaria de Estado de Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh). “O que queremos trazer para essa população é a dignidade. Hoje, se eles procurarem atendimento em qualquer órgão sem a documentação necessária, serão barrados ainda na porta de entrada. O nosso objetivo é melhorar a sensação de cidadania dessas pessoas. Às vezes, por serem tão vulneráveis, eles nem procuram saber quais são os seus direitos”, explica Costa.


Outro aspecto trabalhado pela defensoria é a educação. Quem comparece às sessões de atendimento é instruído a participar de um curso promovido pela DPDF, intitulado Renovação, que dura um mês. “Trabalhamos questões de psicologia positiva, de ética e de motivação. É um empoderamento de direitos. Tentamos trazer informações para que essa população possa disseminar a outras pessoas. Dessa forma, mesmo sem o nosso atendimento, elas vão saber sobre o que podem ou não fazer”, comentou a psicóloga e gerente de Atividades Psicossociais da DPDF, Camila Santos.


Auxílio


As ações da defensoria ocorrem na Rodoviária do Plano Piloto e em outras cidades do DF. Nos atendimentos itinerantes, a equipe tem o auxílio do Instituto Sociocultural, Ambiental e Tecnológico de Projetos de Economia Solidária (Ipês), voltado para a inclusão social de pessoas em situação de vulnerabilidade. Por meio de um serviço especializado em abordagem social, 58 funcionários da instituição saem às ruas para convencer as pessoas a participarem do projeto promovido.

Alguns dos funcionários, inclusive, já foram moradores de rua no passado. “Quem veio da rua fala a mesma língua da população que está na rua. O contato é mais fácil. Sempre respeitamos as pessoas que abordamos. Se alguém não quiser conversar, nós não insistimos. Mas, quando saímos às ruas, tentamos fortalecer o vínculo com essa pessoa, até que ela se sinta à vontade para nos ouvir”, diz a supervisora regional do Ipês, Beatriz Stella.


Segundo Stella, é preciso bastante paciência e compreensão para mudar a realidade de uma pessoa que vive em condições vulneráveis. “A nossa perspectiva é de acompanhamento, e não imediatista. Não é só tirar a pessoa da rua e colocar em uma unidade de acolhimento. Temos que conhecer a pessoa, ver como estão os seus vínculos familiares, e tentar fortalecê-los”, ressalta.


Ela explica ainda que o processo de saída da rua é inverso, ou seja, é necessário se adaptar às regras e cumprir horários, uma realidade à qual não estão acostumados. “Alguns tiveram que voltar para a escola, ou fazer tratamento contra drogas. Proporcionamos oportunidades em todos os âmbitos, abrimos a porta para as pessoas que, de fato, querem mudar a sua vida”, destaca.

Superação


Um dos exemplos de volta por cima é o de Marcos Moreira, 28 anos. Há três anos, após começar a ser acompanhado pelo Ipês, ele conseguiu largar o vício do crack e ganhou uma vaga para trabalhar no instituto, ofício que funciona também como uma espécie de terapia. “Morei na rua por 17 anos. Por falta de apoio da minha família, eu me entreguei às drogas e saí de casa”, conta. Durante esse tempo, Marcos lavava carros no estacionamento de um supermercado.

“Troquei o meu estacionamento e o ‘lava a jato’, onde eu conseguia quase R$ 5 mil por mês, para ganhar R$ 954. Estou me adaptando, mas eu sei que é para o meu bem. Não adiantava nada eu ganhar aquilo, mas continuar morando na rua e viver me drogando”, completa Marcos, que, hoje, se levanta sempre com um sorriso no rosto. “Agora, eu ganho menos, mas tenho prazer em ir embora para a minha casa todos os dias. Tenho onde deitar e dormir. Ter uma cama e um chuveiro são as melhores coisas do mundo. Para adquirir dignidade, no meu pensamento, a pessoa tem que ter um local para morar e dormir.”

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade