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Correio Braziliense

Jornalista lança autobiografia que se mistura com a história de Brasília

Em autobiografia pontuada por fotografias, a jornalista Mercedes Urquiza conta como trocou os palacetes da família em Buenos Aires por um barraco de madeira no Núcleo Bandeirante durante a construção de Brasília


postado em 07/04/2018 06:45 / atualizado em 07/04/2018 06:54

"O nosso fascínio não era apenas com o projeto de Brasília, era com forjar uma vida nova com nossas próprias mãos. Porque ambos pertencíamos a famílias tradicionais, e eu não queria depender de sobrenome, queria fazer minha própria trilha, e fiz," Mercedes Urquiza, jornalista (foto: Frederico Viotti Ribeiro/Divulgação )
 
 
A argentina Mercedes Urquiza tinha 17 anos quando pulou dentro de um jipe para tomar o rumo de uma cidade que começava a ser construída no interior do Brasil. Era 1957 e a moça acabava de se casar com o estudante de economia Hugo Maschwitz. Ambos de família tradicional portenha, eles tomaram o rumo do Planalto Central com a intenção de criar, do nada, uma vida inteiramente nova e diferente.
 
Herdeira de uma família de aristocratas, tataraneta do general Justo José de Urquiza, o primeiro presidente constitucional da Argentina, Mercedes queria um futuro sem o peso do sobrenome e da tradição. Queria se reinventar e Brasília, que começava a ser inventada, pareceu o lugar ideal para o casal.

A chegada do jipe à Cidade Livre, em 1957(foto: Arquivo Pessoal )
A chegada do jipe à Cidade Livre, em 1957 (foto: Arquivo Pessoal )

Dos palácios portenhos para o barraco no Núcleo Bandeirantes, onde chegou, em novembro de 1957, após 48 dias de viagem, foi um salto e tanto. Esta saga guia a narrativa do livro A trilha do Jaguar — Na alvorada de Brasília, que a jornalista lança na quarta-feira pela editora Senac. No dia do lançamento, 20% das vendas serão doados para o programa Correio Solidário, que arrecada recursos para instituições assistenciais do DF.

Narrado em primeira pessoa, ilustrado com fotos históricas colecionadas ao longo do tempo, a edição em capa dura é um convite para uma aventura protagonizada por dois jovens idealistas cujo encanto pelo sonho moderno de Juscelino Kubitschek era o mesmo alimentado pela vontade de inventar uma vida inteira do nada. “O nosso fascínio não era apenas com o projeto de Brasília, era com forjar uma vida nova com nossas próprias mãos. Porque ambos pertencíamos a famílias tradicionais, e eu não queria depender de sobrenome, queria fazer minha própria trilha, e fiz”, conta Mercedes.


Dificuldades


A vida no Planalto Central não era fácil naqueles primeiros anos da construção. Brasília sequer existia quando Mercedes e Hugo desembarcaram do jipe. Montaram então uma loja de materiais de construção e Mercedes passou a trabalhar como corretora da Novacap. Mais tarde, o casal migraria para o ramo do turismo e abriria uma agência de viagens na galeria do Hotel Nacional, negócio tocado até hoje pelas filhas Mercedes e Gabriela.

A paixão por Brasília perpassa o livro, que começou a ser escrito em 2015, a partir de lembranças e anotações guardadas pela jornalista ao longo do tempo. “Quanto mais eu anotava e pesquisava, mais ia crescendo a vontade de escrever o livro”, conta. “Fui organizando tudo em capítulos com o que achava mais importante e dividi contando as coisas mais marcantes. Foi meio improvisado, foi um processo espontâneo e tudo que está ali é biográfico, por isso decidi contar em primeira pessoa.”

Desde o início dos anos 2000, Mercedes se tornou uma espécie de embaixadora de Brasília mundo afora. Foi graças a uma coleção de fotografias de Ake Borglund que ela começou a viajar pelo mundo com uma exposição que esteve até na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

Mercedes e Orlando Villas-Boas com uma mulher e criança da tribo carajá (foto: Arquivo Pessoal )
Mercedes e Orlando Villas-Boas com uma mulher e criança da tribo carajá (foto: Arquivo Pessoal )


O jipe com as marcas da Pirelli e da recém-fundada Trebol (foto: Arquivo Pessoal )
O jipe com as marcas da Pirelli e da recém-fundada Trebol (foto: Arquivo Pessoal )


Com colegas de turma no Michael Ham Memorial College (foto: Arquivo Pessoal )
Com colegas de turma no Michael Ham Memorial College (foto: Arquivo Pessoal )

 

Lembrança


Durante o final da década de 1950, a jornalista foi intérprete do fotógrafo sueco, que passou uma temporada na capital e levou para a Europa mais de 800 imagens da cidade que tomava forma. Na época, Borglund ofereceu a Mercedes um lote de 40 fotografias, uma espécie de lembrança do trabalho realizado pela jornalista. “Guardei e, num primeiro momento, não dei tanto valor porque a vida era muito difícil naquele período. Guardei até o dia em que alguém me perguntou se eu tinha fotos para uma exposição”, conta Mercedes.

A partir de 2001, as fotos começaram a circular pela América Latina e, em 2006, alcançaram uma repercussão importante. Mercedes decidiu, então, ir atrás do resto do trabalho de Berglund, já que sabia exisitir, pelo menos, 800 imagens. Foi à Suécia e voltou de lá com 495 fotografias praticamente inéditas. “Hoje vou fazendo diferentes edições para as exposições”, conta. Para o livro, Mercedes selecionou pelo menos 20 dessas imagens.


A trilha do Jaguar — Na alvorada de Brasília

De Mercedes Urquiza. Editora Senac, 248 páginas. R$ 98. Lançamento na quarta-feira, dia 11, às 19h, no Salão Negro do Palácio da Justiça (Esplanada dos Ministérios, Bloco T, Edifício sede). No dia do lançamento, 20% das vendas serão doados para o programa Correio Solidário.

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