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Correio Braziliense

Pastorais da Igreja Católica representam alento para muitas pessoas

Formadas basicamente por voluntários, pastorais da Igreja Católica ajudam desde pessoas com dependência química a famílias que vivem a dor do luto


postado em 08/04/2018 07:30

Antonio Alves (em pé) faz parte da Pastoral da Esperança, em que ajuda pessoas como Junior Sobreira e Nilma Mesquita em momento de dor(foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)
Antonio Alves (em pé) faz parte da Pastoral da Esperança, em que ajuda pessoas como Junior Sobreira e Nilma Mesquita em momento de dor (foto: Ana Carneiro/Esp. CB/D.A Press)

 
Dependente de álcool por uma década, Pedro chegou aos 60 anos livre da bebida. Hoje, dá testemunho a outras 24 pessoas que buscam largar algum vício químico. Aos 30 anos, Nayara deixou o Lixão da Estrutural, onde trabalhou desde os 12 para virar cabeleireira no salão que organizou na garagem de casa. Nilma ainda tenta superar a morte do filho de 21 anos, jogado de um ônibus em movimento durante um assalto, com a visita de fiéis que levam oração e consolo. Essas três pessoas moram em Santa Maria, na Estrutural e em Planaltina, respectivamente, e fazem parte dos grupos auxiliados por pastorais católicas que oferecem ação social gratuita e voluntária em todo o Distrito Federal.

Ligados à Arquidiocese de Brasília esses benfeitores visitam doentes, dão atendimento na área da saúde e psicossocial a pacientes e dependentes químicos, levam doação de alimentos para lares de baixa renda, prestam apoio às famílias que enfrentaram o luto e atendem também detentos no sistema prisional (Leia Para saber mais). O agente de segurança do Ministério Público Federal Pedro Bernardo Sobrinho recebeu amparo da Pastoral da Sobriedade, de Santa Maria, quando decidiu largar o vício. Por causa da bebida, a mulher o deixou. Ele ainda passou por dificuldade financeira, enfrentou o abalo emocional e, em 2002, procurou ajuda depois de correr o risco de perder o emprego público.

A dependência era tanta, que Pedro andava com uma pequena garrafa de bebida no bolso do paletó. Quando chegava ao ápice, consumia no banheiro do trabalho. Ao ser acolhido pelo grupo religioso, ele passou 10 meses em tratamento. “O primeiro passo é admitir que precisa de ajuda. Depois, perseverar e buscar apoio. Não é fácil, mas é um caminho com volta. Eu consegui reconstruir minha vida. Hoje moro na minha própria casa e, dos meus nove irmãos, só um ainda bebe”, conta.

Para inspirar dependentes químicos, ele se uniu à causa. Há mais de 10 anos, Pedro é diretor da Fazenda Nossa Senhora da Anunciação, distante 25km de Luziânia (GO), e que trata 24 viciados em drogas lícitas e ilícitas por meio do trabalho da pastoral. “Aquilo que recebi de graça, há quase 16 anos, estou devolvendo. O trabalho é diário. É só por hoje, porque amanhã é outro dia”, destaca.

O coordenador arquidiocesano da Pastoral da Sobriedade é o subtenente do Corpo de Bombeiros Fernando Lopes dos Santos, 50. O grupo atua em três frentes: palestras para crianças e adolescentes na prevenção da dependência, intervenção aos usuários de álcool e de drogas, além da recuperação de dependentes químicos.

Atuação

São 24 pastorais da Sobriedade divididas em quase todas as regiões administrativas do DF. Semanalmente há reuniões de duas horas. “Percebemos o álcool na vida da juventude em uma grande proporção e, infelizmente, muitos pais não se preocupam em ensiná-los que essa é a porta de entrada para outras drogas. O combustível do trabalho é ver uma pessoa que esteve desse lado hoje ensinando e ajudando outras”, ressalta Fernando Lopes.

A acolhida de famílias que perderam alguém também acontece nas igrejas do DF. A Pastoral da Esperança está presente em 43 paróquias de Sobradinho I e II, Planaltina, Arapoanga, Taguatinga Norte, Ceilândia, Gama e outras cidades. O grupo voluntário visita o lar em luto durante sete dias, leva oração e palavras de sabedoria. Há dois anos, o diácono Antônio Alves dos Santos, 53, coordena a pastoral arquidiocesana. “Fazemos formação de equipes com abordagens bíblicas, teológicas e psicológicas para instruí-las a lidar com famílias enlutadas em diversas circunstâncias, levando mensagem de consolo e esperança”, explica.

Por semana, a pastoral chega a atender até três famílias. Depois de 30 dias, o grupo tem o costume de agendar uma visita para saber como a família está enfrentando a dor da perda. Os voluntários tratam desde mortes por suicídio até episódios naturais e prematuros. “A partir do quarto dia, percebemos o consolo maior da família e, ao fim, as pessoas dão testemunho de um conforto maior e alívio da tensão”, diz Santos. 

Quem recebeu a visita da pastoral foi a mãe de David de Brito Monteiro, 21. O rapaz morreu depois de ser jogado para fora de um ônibus em movimento, durante um assalto na altura de Sobradinho. O crime aconteceu na terça-feira de carnaval, 13 de fevereiro. Dez dias depois, ele morreu no Hospital de Base. Filho mais velho de dona Nilma Mesquita de Brito, 42, ele completaria 22 anos no último 2 de abril. “No dia do aniversário dele, fizeram uma homenagem na rua onde a gente mora. Acho que nunca mais vou conseguir sorrir na vida”, desabafa a empregada doméstica.

Depois da missa de sétimo dia, o grupo da pastoral visitou a família. Levou oração, palavras de conforto e amparo para o lar de dona Nilma e de Junior Sobreira, o companheiro. A cada dia era abordado um tema de acolhida. “Não tem nem palavras para descrever o que é perder um filho. Só se consegue ficar de pé com proteção e muita fé. Sentia que tinha uma força me segurando, porque nos dias seguintes, não dava nem para me manter firme. O que ampara é a palavra de Deus”, destaca.


Alimento e trabalho

Para oferecer uma vida nova às famílias de baixa renda, a Pastoral dos Vicentinos, presente em 120 paróquias do DF, leva doações de alimentos, roupas, brinquedos e material de construção às famílias que vivem em vulnerabilidade social. Para algumas pessoas, a transformação vai além do social. O grupo ajuda na matrícula de crianças fora da escola e, em alguns casos, ministra uma nova formação.

Foi o que aconteceu com Nayara de Carvalho, 30. Moradora da Estrutural e mãe de três filhos, de 12, 10 e 9 anos, ela ficou sem trabalho depois do fechamento do Lixão em dezembro passado. Sozinha para sustentar a família, eram os R$ 700 por mês que garantiam a sobrevivência da casa. Ela tentou trabalhar no galpão de reciclagem, mas os R$ 92 a cada 15 dias não eram suficientes para quatro pessoas.

Até que Nayara conseguiu, pela segunda vez, o apoio da Pastoral dos Vicentinos. Desde novembro, ela faz um curso de cabeleireira pago pelas doações. Conseguiu montar um salão de beleza em casa, com suporte dos fiéis, e a filha mais velha, com atraso mental, faz acompanhamento de saúde com ajuda do grupo. “Tive amparo no momento em que eu mais precisei. A fé é o firmamento da vida da gente”, ressalta.

Presidente dos Vicentinos no DF,  Thiago Tibúrcio, 35, conta que as ações acontecem principalmente nas comunidades mais carentes do DF, como Estrutural, Itapoã, Condomínio Sol Nascente, em Ceilândia, e Vale do Amanhecer, em Planaltina. “Priorizamos o pobre do mais pobre. A partilha é a palavra-chave. Toda semana 10,7 mil pessoas são atendidas com nossas ações. Se amamos aquilo que não conhecemos, por que não ajudar o próximo que está ao meu lado?”, afirma.

Aposentado, Walder Santos Rocha, 69, é presidente da Conferência São Pio, que compõe o grupo dos Vicentinos. Ele diz que o objetivo é retirar pessoas da vulnerabilidade, incluí-las socialmente e oferecer  oportunidade de profissionalização, da educação e de saúde. “É um trabalho cristão, social e alimentício. Significa transformar uma vida, e isso satisfaz muito”, ressalta.

Para saber mais
Voluntários
Na Arquidiocese de Brasília, existem oito setores arquidiocesanos aos quais as pastorais estão vinculadas. O serviço voluntário ocorre em todas as paróquias espalhadas pelo DF. Os grupos se reúnem conforme a agenda da pastoral, rezam e compartilham histórias de dificuldades e superações.

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