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Correio Braziliense

Agressão e crimes nas escolas devem ser combatidos por meio do diálogo

Últimos dados divulgados pela Secretaria de Segurança mostram mais de 2,3 mil ocorrências registradas durante um semestre


postado em 08/04/2018 23:00 / atualizado em 09/04/2018 00:34


 
A sensação de violência nas ruas do Distrito Federal se reflete também dentro e próximo dos muros das escolas. Em fevereiro, um homem foi morto a tiros perto de uma unidade de ensino em Ceilândia. Em março, uma diretora foi agredida em Taguatinga pelo pai de um aluno e uma adolescente precisou ser levada ao hospital após se envolver em uma briga com uma colega durante o período de aulas, em São Sebastião. Este mês, cinco jovens invadiram uma escola em Santa Maria e furtaram objetos e alimentos. Ocorrências de violência como essas caíram mais de 40% nos últimos quatro anos, mas ainda são registradas milhares a cada semestre. Especialistas afirmam que abrir as portas dessas instituições de ensino às comunidades é caminho para uma redução significativa nos índices de criminalidade.

Pesquisador dos temas juventude, escola e violência, o psicólogo Mauro Gleisson Evangelista explica que há duas questões a serem observadas nas unidades de ensino que registram problemas com agressões ou crimes. A primeira é que se tratam de espaços desregulados. Na avaliação dele, a falta de uma gestão com normas desenvolvidas e aplicadas de forma coletiva contribui para um agravamento do fenômeno. “Não existe escola sem lei. Quando ela não constrói a própria lei, a lei da rua entra. Contudo, quando se fala sobre essa regulação, não pode ser algo autoritário. Todos os espaços autoritários vivenciam o fenômeno da violência. É importante que as normas nesses ambientes sejam desenvolvidas de forma democrática”, defende.

O segundo ponto abordado pelo especialista é a necessidade de se abrirem espaços de expressão para os alunos. Ele acrescenta que os estudantes, muitas vezes, são pessoas vulneráveis e em situação de risco nem sempre percebida pela escola. “Quando a instituição vê, ela aciona uma rede de proteção social que não funciona. Os sujeitos gritam por socorro e não são ouvidos”, observa.

Da tentativa ao êxito 

O Centro de Ensino Fundamental (CEF) nº 1 do Riacho Fundo 2 passou por um processo de abertura para a comunidade. De acordo com a coordenadora regional de ensino do Núcleo Bandeirante, Francis Moreira, a instituição, que recebe alunos do 6º ao 9º ano, era conhecida como “Carandiru”. Casos de violência entre alunos, professores e nos arredores do local eram frequentes.

“Era uma escola muito violenta. Houve uma época em que duas alunas se esfaquearam. As brigas eram constantes dentro da escola e tráfico de drogas nas redondezas era comum. Houve ameaças de morte à diretora e à vice-diretora porque elas batiam de frente com traficantes”, relembra Francis. De 2015 para cá, a regional de ensino executou uma série de mudanças estruturais no espaço e envolveu não apenas órgãos da administração pública, como o Conselho Tutelar e as polícias Militar e Civil, mas também a própria comunidade.

Os muros da escola receberam pintura nova, com imagens de pensadores e frases de valorização à leitura; os banheiros também foram pintados e ganharam pedras de mármore nas pias. Além disso, a unidade de ensino passou a oferecer palestras e a contar com mais participação dos pais dos alunos. “Quando as pessoas começam a ver que estão investindo na escola, elas percebem que estão pensando e investindo nelas. Não foi um trabalho do dia para a noite, mas, hoje, dá gosto de ver. Está 100%? Não, porque a escola é um ambiente de sociedade, mas houve grandes mudanças”, observa a coordenadora.

Aluno do 7º ano da escola, Alexandre Ribeiro, 11 anos, e os colegas José Victor dos Santos e Samuel Cristiano Miranda contam que viram a diferença. “Passo cinco horas aqui, e me sinto mais acolhido e seguro. Antes, os banheiros viviam pichados, com espelhos quebrados. Hoje, está tudo pintado. Gosto de passar tempo na escola. Não vejo situações de perigo aqui nem no caminho para cá”, relata Alexandre.

Diretora da instituição, Suzimara de Oliveira relata que a escola ganhou também um laboratório de informática, um novo bloco de salas e reformas em alguns dos espaços, além de mais participação dos pais. “Posso dizer que 80% deles vêm com frequência. Não há mais muitos casos de desistência entre os alunos e, quando eles faltam, vamos atrás do motivo”, comenta. Lucimar Rodrigues, professora de português no CEF 1, reforça que o cenário mudou bastante. “O centro de ensino está mais aberto e os projetos promovidos aqui têm trazido mais gente da comunidade para o ambiente escolar.”

Participação estudantil

Estudantes do Centro Educacional São Francisco, em São Sebastião, enfrentavam problemas semelhantes. Entre as situações listadas pelo coordenador regional de ensino e ex-professor da instituição, Paulo Viana, estavam depredação do patrimônio, guerras entre gangues e crimes no perímetro externo. “Eram comuns assaltos na região. Uma vez, aconteceu um que resultou em cinco arrastões. A questão é que, em cada bairro de São Sebastião, há uma gangue. Às vezes, alunos de bairros diferentes brigavam entre si”, afirma.

Uma das soluções foi a promoção de projetos de mediação de conflitos e de valorização e integração dos alunos. “Ao longo do tempo, a diretoria executou ações como colônias de férias e construiu uma pista de skate. O trabalho de mediação de conflitos teve início com uma mestranda da Universidade de Brasília (UnB) e continuou depois de ela sair de lá. Quando você trabalha a questão da responsabilidade e do protagonismo do aluno, ele se sente pertencente à escola”, comenta.

O psicólogo Mauro Gleisson confirma que o protagonismo é uma das melhores formas de resolver a questão. Segundo ele, as pessoas têm uma tendência natural à autonomia e, quando regras são estabelecidas de forma autoritária, a tendência é que haja resistência. “A regra colocada por meio do diálogo e do debate resolve. Quando um sujeito vem de um ambiente familiar frágil e se sente vulnerabilizado, tende a extravasar esses sentimentos na escola. Imposição de regras não resolve o problema. Ele precisa de referência, vinculação.”

Estruturas fragilizadas

Os efeitos da violência que entra nas escolas são nocivos também aos professores. “Quando a escola abandona, o tráfico assume. Os professores estão muito adoecidos e a violência os adoece ainda mais. Esse não é um fenômeno recente e o que tem resolvido o problema é a pedagogia”, salienta Paulo Viana. Além disso, ele lembra a importância do papel da família no processo educacional. “Há locais onde o estado não chegou por outro aparelho que não seja uma escola. E essa instituição fica muito sozinha. Há uma falência das políticas públicas, que estão muito frágeis. Por isso, é a família que também ajuda a manter as crianças nas escolas e longe das cortes.”

Presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do Distrito Federal (Aspa-DF), Luis Claudio Megiorin conta que a entidade tem orientado pais de alunos a atuarem de forma ativa na educação dos filhos. Para ele, esse tipo de atitude respalda a escola na execução dos deveres que ela tem. “O diálogo é importante, mas tem de vir acompanhado de carga de responsabilidade. As crianças e os adolescentes precisam saber que têm direitos, mas que também têm deveres, porque estão aprendendo a se socializar em uma estrutura fora do lar”, afirma. Por fim, Luis Claudio recomenda que os pais acompanhem o aprendizado dos filhos.

"Quando um sujeito vem de um ambiente familiar frágil e se sente vulnerabilizado, tende a extravasar esses sentimentos na escola. Imposição de regras não resolve o problema" 
 Mauro Gleisson Evangelista, psicólogo e pesquisador


Memória
2018
Abril
Cinco jovens entraram na Escola Classe 206 de Santa Maria, amarraram o vigilante e furtaram objetos e alimentos do colégio. A polícia não encontrou os responsáveis pelo crime. O policiamento foi reforçado na área.

2017
Novembro
A estudante Raphaella Noviski, 16 anos, foi assassinada pelo vizinho Misael Pereira, 19, dentro da sala de aula do Colégio Estadual 13 de Maio, em Alexânia. A jovem foi morta por não querer ter um relacionamento com o rapaz.

Julho
O estudante Gildenilton Ribeiro Lacerda, 26 anos, foi assassinado depois de presentear uma colega de classe com uma caixa de bombons. Ele foi atingido por dois tiros no tórax, dentro da sala de aula do CEF Zilda Arns, onde cursava a EJA.

2016
Maio 
Um aluno do CEF 10 do Guará 2 esfaqueou um colega após tentar roubar o celular dele. Segundo a direção da escola, o agressor era reincidente no caso. Uma semana depois, dois jovens foram esfaqueados no CED 2 de Taguatinga Sul.


Para saber mais
Abandono escolar
Estudo elaborado em 2016 pela consultoria legislativa da Câmara dos Deputados aponta que a violência nas escolas é tema de pesquisas desde 1950. Na década de 1980, as análises se centravam em casos que vinham de fora das escolas. Na década seguinte, as agressões entre alunos dentro das instituições de ensino ganhou o centro dos debates. Desde o início do século 21, no entanto, pesquisadores tentam descobrir as possíveis influências, internas e externas, para analisar os contextos violentos que emergem na escola. Hoje, entende-se que esses acontecimentos englobam uma rede de autores, diferentes origens e variadas causas. Duas pesquisas econômicas apresentadas à Universidade de Brasília (UnB) e à Universidade de São Paulo (USP), em 2010 e 2011, respectivamente, também apontaram uma relação direta entre os índices de evasão escolar e as taxas de crimes letais nos estados. As pesquisas concluíram que, quanto mais altos os níveis de abandono dos estudos, maiores as taxas de homicídios nas unidades federativas.


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