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Correio Braziliense

Apenas 30% dos pediatras do DF atuam na rede pública de saúde

Pouco médico para tanta criança doente. De acordo com o Sindicato dos Médicos do DF, só 30% dos pediatras da capital atuam na rede pública e esse número cai a cada ano


postado em 11/04/2018 06:00

Andrea Carolina não conseguiu atendimento para os filhos enfermos(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Andrea Carolina não conseguiu atendimento para os filhos enfermos (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


O aumento na procura, principalmente em função de doenças respiratórias provocadas por causa da mudança climática com o início do outono, evidenciou a falta de pediatras na rede pública de saúde do Distrito Federal, ontem. Os hospitais regionais de Taguatinga (HRT) e de Ceilândia (HRC) só atenderam casos emergenciais e pacientes internados. No segundo, não havia médico para crianças. No Guará (HRG), profissionais deram alta para pacientes menos graves para internar quem estava em situação pior. Os atendimentos no pronto-socorro do Hospital Regional da Asa Norte (Hran) só começaram por volta das 9h40.

A Secretaria de Saúde não soube informar o deficit de pediatras, mas a subsecretária de Atenção integral à saúde, da Secretaria de Saúde do DF, Marta Vieira, admitiu a carência. O Hospital Regional do Paranoá (HRP) era o único com dois pediatras atendendo a população. De acordo com o Sindicato dos Médicos do DF, só 30% dos pediatras da capital atuam na rede pública e esse número cai a cada ano. A Sociedade de Pediatria confirma a saída.

Peregrinação


No Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib), que concentrou grande parte da demanda ontem, Neuza Maria dos Santos, 57 anos, gritou para conseguir o atendimento do neto. “Tive que fazer um escândalo”, admitiu. Em outro caso, Miguel Beserra, 3 anos, passou horas na fila de espera, mesmo tendo sofrido, segundo a mãe, Renata Silva, 29, duas convulsões provocadas pela febre. “Ele chegou a ter 40ºC. Mesmo assim, não fui atendida. Mandaram eu esperar o meu filho ter outra convulsão para ele ser medicado”, contou Renata.

Andrea Carolina de Melo, 26 anos, também não conseguiu atendimento para os filhos, Maria Eduarda Pereira, 9, e Lucas Antônio de Melo, 4. A família esteve no Hmib e no HRT. Na primeira unidade de saúde, esperou por quatro horas, até ouvir a negativa. “Os meus filhos estão perdendo aula. Os professores me pediram para levá-los ao hospital. Mas o que eu encontro é essa situação de menosprezo. Ninguém se importa. Nós temos que nos virar, peregrinando de hospital em hospital. É muito humilhante”, lamentou Andrea, com os filhos, em frente ao HRT.

Desestimulados


De acordo com Adriana Graziano, diretora do Sindicato dos Médicos do DF, faltam leitos, medicamentos e equipamentos. “O médico é o profissional na linha de frente, fazendo o que pode, e é quem encara o desespero. Quem sofre agressões verbais e até físicas. A população está desesperada. Os médicos estão se formando e não têm interesse em ficar na rede pública, e os hospitais privados não conseguem absorvê-los”, comentou.

Integrante da diretoria da Sociedade de Pediatria do DF, Andrea Duarte Nascimento Jácomo concorda. “Você, muitas vezes, se vê em uma situação que não consegue ajudar o paciente. A secretaria (de Saúde) tenta se organizar, mas há uma carência em todas as áreas, o que contribui com esse caos. Os médicos estão desestimulados”, afirma.

Sazonalidade  


Marta Vieira atribuiu a demora no atendimento nos prontos-socorros pediátricos dos hospitais públicos ao começo do outono, com dias mais frios — o Inmet registrou 18ºC ontem. “Está começando o período de sazonalidade e infecções respiratórias em crianças. No ano passado, nesse período, o número de atendimentos no Hmib passou de cerca de 6 mil ao mês para 12 mil. Há, ainda, uma procura grande de pais que vão ao pronto-socorro sem procurar a unidade básica. Uma tosse, uma febre, casos iniciais, mais leves, devem ser atendidos na unidade básica”, ponderou a subsecretária de Atenção integral à saúde, da Secretaria de Saúde do DF.

Marta admitiu a carência de pediatras, mesmo com a realização recente de um concurso público, que não deve suprir o deficit. “Realizamos um concurso em janeiro e foram chamados 108 profissionais”, contou. Eles devem tomar posse em maio. Marta afirmou, também, que o GDF está comprando medicamentos e renovando equipamentos nas unidades hospitalares. A subsecretária defendeu o programa Saúde da Família. “É um modelo preconizado no Ministério da Saúde e no mundo inteiro. A assistência geral à saúde da criança, que inclui doenças respiratórias mais leves, é feita pelo médico de família. É um modelo reconhecido como mais eficiente no mundo.”
 
 

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