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Correio Braziliense

Áreas carentes do DF têm consumo médio de água abaixo do recomendado

Enquanto cidades como Lago Sul consomem mais de três vezes o recomendado pela OMS, outros locais, como Estrutural, Fercal e Itapoã, mal conseguem gastar a metade do mínimo necessário


postado em 15/04/2018 08:00

Sara com os filhos, no setor de chácaras Santa Luzia, na Estrutural:
Sara com os filhos, no setor de chácaras Santa Luzia, na Estrutural: "Estou desempregada, mas tirei do Bolsa Família para comprar uma caixa para guardar água" (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Em um ano de racionamento de água, o consumo médio diário por habitante no Distrito Federal caiu, em média, 12%. A distribuição desse recurso hídrico, porém, continua desigual. Enquanto cidades como Lago Sul consomem mais de três vezes o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) — que é de 110 litros de água por dia/habitante, outros locais, como Estrutural, Fercal e Itapoã, mal conseguem gastar a metade do mínimo necessário para uma vida saudável. O Correio ouviu especialistas e visitou as localidades para entender o motivo do número tão baixo, e entre as respostas ouvidas, além da preocupação de não conseguir pagar uma conta com valor alto, está a falta de acesso à água tratada e ao saneamento básico em algumas regiões, principalmente áreas não regulamentadas.

Cerca de 47,2 mil pessoas vivem na Cidade Estrutural, onde o consumo diário, em 2017, foi de 998.556 metros cúbicos. Cada habitante gastou, em média, 58 litros de água por dia, segundo dados da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). A menos de 20km do centro da capital federal, cerca de 10 mil pessoas que vivem no setor de chácara Santa Luzia, na Estrutural, não consomem água potável da Caesb, pois a região não é regularizada. Saneamento básico é um sonho ainda mais distante. Na casa de Francisca Dias, de 46 anos, onde não há fossa, canos jogam o esgoto que sai da residência diretamente na rua. Com os fortes temporais das últimas semanas, o cenário no local é de ruas enlameadas, onde crianças brincam normalmente entre o esgoto e o lixo.

Desempregada, dona Francisca sustenta a família por meio do Bolsa Escola dos cinco filhos. Recebe cestas básicas que ajudam a manter a alimentação da família, mas confessa não ter perspectiva de sair da região. Até dois meses atrás, ela e as filhas iam para casa de vizinhas e parentes na parte regularizada da Estrutural para tomar banho e fazer as necessidades básicas. Por não aguentar mais a situação e não conseguir enxergar uma saída, acabaram entrando para a irregularidade. “Juntei o dinheiro que ganho pelas meninas e paguei R$ 150 para um moço que instala canos. Agora é luxo, tem água aqui dentro de casa”, conta.

Assim como dona Francisca, os demais moradores de Santa Luzia não pagam por essa água que vem de canos ilegais. O recurso é retirado diretamente da rede da Caesb, entrando na porcentagem dos 30% de água perdida, ficando de fora também dos dados de consumo por região, o que ajuda a explicar a baixa média de consumo na cidade.

Mesmo de fora do abastecimento regular, toda a população enfrenta o racionamento de água. Sara Tavares, 28, apertou as contas para comprar uma caixa de 500 litros, instalada no quintal da residência na Santa Luzia que abriga três pessoas. “Estou desempregada, mas tirei do Bolsa Família para comprar uma caixa para guardar água”, destaca. Na casa também não há acesso à rede de esgoto.

 

Francisca Dias, nas ruas da invasão da fazenda Santa Luzia: o esgoto improvisado se mistura com a água da chuva e forma um lamaçal(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Francisca Dias, nas ruas da invasão da fazenda Santa Luzia: o esgoto improvisado se mistura com a água da chuva e forma um lamaçal (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

 

Gestão

O censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, mostrou que apenas 1% da população do Distrito Federal vive sem sistema eficiente de coleta de esgoto. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), assegurar disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos é um dos 17 objetivos do mundo a serem cumpridos até 2030, mas para implantar o serviço em regiões como a Santa Luzia, o governo passa pelo dilema da regularização.

Presidente da Caesb, Maurício Luduvice explica que uma mudança na situação hídrica da Santa Luzia não está nas mãos da companhia. “Devido a proximidade com o Parque Nacional de Brasília é necessário uma licença ambiental para que a infraestrutura seja construída”, argumenta.

Uma decisão judicial de 2016 exigiu a realocação dos moradores da Santa Luzia para fora da faixa de 300 metros ao redor do Parque Nacional, área onde atualmente fica 90% da população. “As famílias serão levadas para casas sobrepostas, que ficarão no limite das áreas da Santa Luzia e da Estrutural. As obras de um protótipo começam em até 20 dias. Nos próximos três meses, começam as obras, e a população passa a ser realocada”, adiantou Gilson Paranhos, diretor da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab/DF). Os moradores não terão que pagar pelas novas residências.

Segundo Paranhos, a decisão judicial é clara, e exige que as pessoas sejam removidas da área de zoneamento. “Além de resolver questões ambientais, vai sanar os problemas de ocupação de áreas públicas de toda a Estrutural. Não é uma solução apenas urbana, mas arquitetônica, para pôr fim em problemas de mobilidade, água, esgoto e energia elétrica”, confirma.

Impacto financeiro 

O aposentado José Luz, 77 anos, acredita que é o medo de uma conta de água cara que faz com que as regiões mais carentes gastem menos. Morador de uma casa com cinco pessoas na parte regularizada da Estrutural, ele vem economizando para diminuir o impacto da cobrança. “Está vindo R$ 70 por mês, pode parecer pouco, mas é um dinheiro que poderia ser usado em outras prioridades.”

O professor Daniel Sant’Ana, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UnB, fez um estudo sobre o uso de água em diferentes regiões do DF, e afirma que o fator financeiro tem relação direta com o consumo de água. “Os moradores de regiões mais pobres costumam achar o valor da conta de água injusta, enquanto os de áreas mais nobres não percebem isso, porque o que é pago na conta não afeta a economia da família”, explica.

Segundo o especialista, em torno de 80 litros por dia seria o necessário para atitudes racionais de consumo. “É o suficiente para ter higiene, consumir água e utilizar na lavagem das casas. Já 50 litros por dia, acredito que é muito baixo”, explica. De acordo com a também professora da UnB Marília Peluso, especialista em geografia urbana, o consumo diário abaixo dos 60 litros por pessoa é preocupante. “Com o enfraquecimento da higiene e do acesso ao recurso para consumo próprio, a população fica vulnerável a uma série de doenças.”

Para o presidente da Caesb, Maurício Luduvice, a renda é um fator a ser analisado, mas não o único. “Uma característica dessas cidades é que elas costumam servir como dormitórios. As pessoas trabalham fora, consomem água nas regiões que ficam durante o dia e muitas até tomam banho por lá. Prova disso é que aos fins de semana, quando a população fica em casa, o consumo volta a subir”, explica.

Luduvice garante que os números baixos não representam um risco para a população. “As regiões com abastecimento têm boas condições sanitárias. Outras cidades com características semelhantes, como Águas Lindas, por exemplo, apresentam dados parecidos”, afirma.
Uma característica dessas cidades é que elas costumam servir como dormitórios. As pessoas trabalham fora, consomem água nas regiões que ficam durante o dia e muitas até tomam banho por lá. Prova disso é que aos fins de semana, quando a população fica em casa, o consumo volta a subir”
Maurício Luduvice, presidente da Caesb

Saiba mais 

Questão de riqueza
A nível mundial, o consumo de água também está diretamente ligado às condições financeiras. A maior média é a dos Estados Unidos, que, em 2015, chegou a 575 litros por pessoa/dia. A média europeia é de 220 litros, variando entre 385 na Itália e 195 na Alemanha. No México, o número é de 365, quase o dobro da brasileira, de 185. No continente africano, a média é de 50 litros, e em países como a Etiópia chega a 15 litros por dia. Outro fator que explica a diferença no consumo é o acesso à água potável. Na África, em países como a Uganda, pessoas têm de andar até 10 horas do local onde moram até um ponto com água, que nem sempre está em condições adequadas para consumo.
 

 

Conta mais pesada
A preocupação com o valor da conta de água deve crescer ainda mais. Isso porque, em 23 de abril, a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa) realizará uma audiência pública para tratar do índice de reajuste anual dos serviços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário e da revisão tarifária extraordinária, solicitada pela Caesb. Após análise das contribuições, apresentadas durante o período de consulta e audiência pública, a resolução da Adasa com os novos valores será publicada no Diário Oficial do DF, na data provável de 30 de abril, para que entre em vigor um mês depois, em 1º de junho.

As regiões

Consumo médio de água por pessoa em 2017
Lago Sul - 366 litros
Brasília - 297 litros
Park Way - 191 litros
Estrutural - 58 litros
Itapoã - 57 litros
Fercal - 55 litros
Distrito Federal - 129 litros 

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