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Correio Braziliense

Morre, em Brasília, a jornalista Valéria de Velasco

A jornalista Valéria de Velasco trabalhou no Correio Braziliense na década de 1980, nos anos 2000 e, atualmente, era colaboradora da Revista do Correio. Ela deixa três filhas, cinco netos e um bisneto


postado em 17/04/2018 08:38 / atualizado em 17/04/2018 13:17

(foto: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press - 22/7/10)
(foto: Elio Rizzo/Esp. CB/D.A Press - 22/7/10)
A jornalista Valéria de Velasco morreu, na madrugada desta terça-feira (17/4), vítima de um aneurisma na aorta abdominal sofrido há 12 dias. Com vasta carreira no jornalismo e respeitada pela qualidade dos textos, Valéria fazia (faz) parte de um seleto grupo de pessoas que pensam e escrevem em favor do humanismo – tão distante das commodities jornalísticas de hoje em dia. A sua ferramenta era a vida, principalmente a dos excluídos, dos invisíveis da sociedade. Como dizia: "jornalismo é para mudar vidas".

Trabalhou no Correio Braziliense na década de 1980 e depois, por mais de uma década, nos anos 2000, ajudando a novos repórteres com sua voz suave, sem nunca alterá-la, como se fosse um mantra. Nos últimos meses, estava como colaboradora da Revista do Correio, era ela quem dava o verniz às reportagens, era ela quem sugeria as pautas mais perto do coração. Ela era assim: humana, humilde e poderosa.

Jamais fugiu à luta diante dos desmandos e desmantelos sociais. Defendeu a Justiça, nunca o justiçamento; defendeu a conscientização, nunca o ódio. Criou o Convive (Comitê Nacional de Vítimas de Violência) depois de perder o filho Marco Antônio Velasco, o Marquinhos, espancado até a morte por uma gangue que se denominava Falange Satânica, formada por jovens de classe média, um crime que abalou a cidade no início dos anos 1990.

Valéria, nascida em 11 de setembro de 1944, deixa três filhas, cinco netos e um bisneto. Foi ao encontro de Marquinhos. A família divulgou que o velório será a partir das 14h30 desta terça-feira (17), na Capela 6 do Cemitério Campo da Esperança. O enterro está marcado para às 18h.

Mulher forte

Em nota, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, lamentou a morte da jornalista, ressaltando que Brasília perdeu uma de suas mais notáveis e fortes figuras da cidade. "A jornalista Valéria de Velasco nos deixa a imagem de uma profissional competente, séria, mas principalmente a de uma mulher forte que enfrentou as agruras da vida com coragem e determinação. Se tornou, na adversidade de uma perda trágica de um filho, militante ativa contra a violência em Brasília. Meus pêsames à família e aos amigos, com minhas orações a todos", afirmou o governador.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) também lamentou a perda de Valéria de Velasco, destacando a trajetória marcada por lutas contra a violência. "Sem dúvida, o jornalismo de Brasília perdeu, não somente uma grande profissional, que inspirou seguidas gerações, mas uma lutadora por melhores condições de vida no Distrito Federal. A diretoria do SJPDF sente a partida dessa colega querida, que sempre reconheceu e valorizou a atuação da entidade na defesa dos direitos da categoria. Valéria era parte de uma geração de profissionais que ainda vê o jornalismo como instrumento de transformação social e de divulgação de valores como solidariedade, justiça e igualdade", diz o sindicato.

 

A arte do amparo

Há um poema lindo de Antônio Cícero chamado Guardar. Compartilho um trecho: “Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la / Em cofre não se guarda coisa alguma / Em cofre perde-se a coisa à vista / Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado / Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela / Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro / Do que um pássaro sem voos...”

Sou uma pessoa de sorte. Tenho o que guardar. Guardo gente, mas não as tranco, nem as escondo. Tenho ao meu lado amigos com raras qualidades. Observá-las no decorrer da vida tem sido um exercício de aprendizado. Algo como aulas de caráter, dignidade, bondade, empatia. Tenho isso de graça, talvez por graça divina. O que pode haver de melhor? Passear pela vida de braços dados com seres iluminados, porém humanos e palpáveis, é caminhar na luz. A cada dia, persisto na ideia de compartilhar o mundo com as melhores companhias. Hoje, quero falar de uma delas: Valéria Velasco.

Nossas vidas se cruzaram há exatos 31 anos. Ela, uma respeitada e premiada editora de revistas e jornais; eu, uma retirante pernambucana dando os primeiros passos no jornalismo brasiliense. Somos cúmplices na dor e no amor. Testemunhas de momentos intensos na vida de uma e outra. Companheiras de trabalho, que se guardaram mutuamente a cada mudança de posto e de porto. Acima de tudo, parceiras num mundo que esbanja crueldade e carece de mãos amigas. Valéria tem uma especialidade: a capacidade de amparar. A mão dela não vacila. O gesto de esticá-la sempre na direção de quem necessita é traço de sua personalidade. 

A mão, o colo, o ombro de Valéria são patrimônios quase públicos, tamanha a sua disponibilidade de socorrer qualquer um, sobretudo naqueles dias que não têm 24 horas. Sim, há dias que duram uma vida: nove meses de uma gestação de risco, temporadas de perrengues financeiros, a morte de um filho e tantas outras perdas e inconstâncias da nossa existência. Em dias, semanas, meses, anos extremamente cinzentos, vi Valéria abrir caminhos na Justiça; horas na agenda; abrir a casa; e abrir os braços para os abraços mais necessários e aconchegantes que alguém pode ganhar. Guardo testemunhos em série sobre sua generosidade. 

Minha amiga conhece como ninguém a arte do amparo, tão rara e cara nesse mundão truculento de hoje. Este texto não é apenas sobre Valéria, nem sobre amigos, nem sobre guardar o que precisa ser guardado e jogar fora todo o resto. Este texto é sobre reconhecimento. Precisamos falar sobre o que é bom e sobre quem faz o bem. O que você guarda? Quem você guarda? Aqui, nas minhas preciosas caixinhas, guardo Valéria. Mas ouso compartilhar suas qualidades, sem medo, porque ela merece e porque todos devem saber. 

 

Ana Dubeux, editora-chefe do Correio


Sobrevivendo às dores

Sempre invejei a forma como ela dizia os palavrões. Era a única pessoa capaz de tornar os nomes feios expressões bonitas, altamente sonoras. Porque ditas como verdades incontestáveis, como desabafos certeiros, eram uma tradução de honestidade que não ofendia ninguém. Eu ria muito. Foi xingando baixinho ao meu lado, enquanto editava textos ou lia notícias estarrecedoras, que Valéria me ensinou sobre contrariedade e aceitação; sobre revolta e acalanto; sobre violência e paz de espírito; sobre descobrir o próprio jeito de lidar com as chatices e os absurdos do mundo.

 

Valéria Velasco me ensinou a ser uma jornalista mais exigente, uma pessoa mais consistente, uma mulher mais liberta, tornando mais leves os pseudoproblemas femininos criados para tornar a rotina insustentável, como a culpa materna. Mais do que tudo, Valéria me ensinou que é possível sobreviver a dores - até as que parecem insuportáveis.

 

Fez tudo isso pegando na minha mão, dividindo seu lanche comigo, roubando café da diretoria pra saciar meus desejos de grávida, me ligando a cada aniversário e chegando atrasada nas festinhas das crianças com aquele sorriso maroto no rosto, como quem diz: "não disse que vinha"... Sorrimos tanto e sempre...

 

Mesmo quando já não trabalhávamos juntas, quando passávamos um tempão sem nos ver, não nos perdemos nunca. E ela parecia adivinhar quando eu precisava ouvir sua voz. Sempre me alertou para a brevidade dos atos, dos fatos, da vida, do riso, do pranto. Sempre me disse para ser livre e leve. Dizia que aquilo passava e passava mesmo...

 

Ela já havia aprendido que a vida é para os fortes, mas que os fracos e os injustiçados precisam ser amparados, consolados, abraçados. Fazia isso como ninguém. Sabia que a justiça se agarra na unha porque não vem sozinha, nem por obra e graça do Estado. Sabia colocar pingos nos is. E deve ter sentido uma enorme necessidade de aprender a colocar um ponto final. Quero crer que fez por querer, porque assim a perdoamos de nos deixar tão cedo. Que falta vai fazer ao mundo!

 

Cristine Gentil, jornalista e amiga


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