Publicidade

Correio Braziliense

Com racionamento, Brasília reduziu 12% do consumo de água em 14 meses

O governador Rodrigo Rollemberg anunciou ontem que as ações restritivas chegarão ao fim em 15 de junho


postado em 04/05/2018 06:00 / atualizado em 03/05/2018 23:03

A previsão do governo é de que o Descoberto termine a seca com 21,9% da capacidade %u2014 hoje, está em 91,1%(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
A previsão do governo é de que o Descoberto termine a seca com 21,9% da capacidade %u2014 hoje, está em 91,1% (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
Em 42 dias, o Distrito Federal colocará um ponto final no racionamento iniciado em 16 de janeiro de 2017. Nos últimos 14 meses, o brasiliense teve de se adaptar com a torneira seca uma vez a cada seis dias. A medida resultou na redução de 12% no consumo de água na capital, mas também teve impactos na economia e na agricultura, além de uma queda de R$ 110 milhões no faturamento da Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb). O governador Rodrigo Rollemberg anunciou ontem que as ações restritivas chegarão ao fim em 15 de junho. “Tenho certeza de que a nossa população adquiriu novos hábitos e, daqui para a frente, vamos usar de forma racional esse bem precioso que é a água”, afirmou.

Em março, Rollemberg havia dito, pela primeira vez, que teria condições de anunciar uma data para o término do racionamento após o período chuvoso. Nesta semana, depois de reunião com representantes da Caesb e da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico (Adasa), os cenários para a capital federal no período da seca foram traçados, e a expectativa é de que, em novembro, após a estiagem, o Descoberto esteja com 21,9% da capacidade total — o reservatório está hoje com 91,1%.

Com isso, Rollemberg garantiu que a data escolhida garante segurança hídrica. “Nós atuamos nesse período de uma forma absolutamente técnica. Muitas vezes, recebi sugestões de políticos, de companheiros, de que devíamos acabar com o racionamento o mais rápido possível, mas nós entendemos que devíamos fazer isso no momento adequado e em uma data que permitisse termos segurança técnica”, explicou.

O período de seca deste ano na capital federal não deve ser mais longo do que o normalmente registrado, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Mas algo muito mencionado por Rollemberg e por representantes da Adasa e da Caesb é que o DF não pode mais contar só com a ajuda das chuvas. Entre 2000 e 2015, além do investimento feito no sistema de Corumbá IV — previsto para entrar em funcionamento até fim deste ano —, foram gastos apenas R$ 15 milhões para garantir água à população em uma única obra realizada no Rio Pipiripau, em Planaltina. Em dois anos de crise hídrica, os investimentos foram sete vezes maiores. Agora, a expectativa é de que, com o fim do racionamento, a questão não caia no esquecimento.

Segundo a Caesb, após a entrega de Corumbá IV, mais duas obras de captação devem ser feitas. A primeira, em andamento, é da Estação de Tratamento de Água (ETA) do Gama, que tratará 320 litros por segundo captados de seis córregos da região. A previsão é entregá-lo em até sete meses. A segunda — e mais complexa — é uma estrutura para captar 2,5 mil litros por segundo do Lago Paranoá, quase quatro vezes mais do que é captado hoje. A expectativa inicial era de que a empreitada custasse R$ 500 milhões, e o GDF espera aprovação de empréstimo da Caixa Econômica Federal para viabilizá-la. Representantes da Caesb e da Adasa não comentaram o fim do racionamento.
 
"Mudou toda a minha rotina. Todos os dias antes do corte no abastecimento, precisava me programar. Isso atrapalhou o atendimento aos clientes. Agora que vai acabar, estou mais calmo", Renato Ramos, cabeleireiro do Guará 1 (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)

Retomada

Os setores que tiveram prejuízo financeiro com o racionamento comemoraram o término do corte. De acordo com a Federação do Comércio do DF (Fecomércio), 180 salões de beleza fecharam as portas por causa dos cortes. Cerca de 10% dos 18 mil estabelecimentos tiveram prejuízos que somam R$ 2 milhões, o que significa uma redução de 3% no faturamento. “Cada dia de suspensão do abastecimento acarretava queda de 10% das vendas, o que, naturalmente, acaba causando demissões”, disse o presidente da Fecomércio, Adelmir Santana. Segundo ele, a recuperação dessas vagas não será imediata.

O cabeleireiro Renato Ramos, 32, também apoia o término da medida. “Eu nunca quis que o racionamento acontecesse. Tentei mudar alguns hábitos, mas permaneci gastando a mesma quantidade de litros desde que abri o salão. Mudou toda a minha rotina. Todos os dias antes do corte no abastecimento, precisava me programar. Isso atrapalhou o atendimento aos clientes. Agora que vai acabar, estou mais calmo”, contou o comerciante do Guará 1.

Por causa do rodízio, Renato precisou incluir novos gastos no orçamento do salão. “Como não tem caixa-d’água no estabelecimento, precisei comprar quatro baldes de 100 litros. Além disso, instalei um sistema elétrico no lavatório de cabelo. Com tudo isso, desembolsei cerca de R$ 600. Sem falar que, quando a água acabava, tinha de comprar galões. Eu não precisaria fazer isso caso o racionamento não estivesse acontecendo”, reclamou.

Cifras da crise


R$ 100 milhões
Total investido nas obras do Bananal, Lago Norte e reativação de captações no Alagados e Crispim

R$ 110 milhões
Queda no faturamento da Caesb em 2017, comparado ao ano anterior


R$ 41,8 milhões
Valor adicionado aos cofres públicos a partir da cobrança da tarifa de contingência

Linha do tempo


2016
Setembro — É anunciada a cobrança da tarifa de contingência, uma taxa extra para as residências que consomem mais de 10 mil litros de água por mês

Outubro —  Resolução da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do DF (Adasa) prevê racionamento caso a Barragem do Descoberto chegue a 20% da capacidade


2017
Janeiro —  A Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) anuncia cortes de água nas cidades abastecidas pelo Descoberto. Cerca de 1,6 milhão de brasilienses enfrentam o rodízio. Produtores rurais passam a poder captar água do Descoberto por apenas três horas e em dias alternados

Fevereiro —  Após quedas no volume do Sistema Santa Maria/Torto, cidades abastecidas pelo segundo principal reservatório do DF também entram no rodízio

Maio —  Reservatórios do DF fecham período chuvoso com apenas metade da capacidade total. A ampliação do racionamento para 48 horas começa a ser estudada

Outubro —  Inauguração das captações do Lago Norte e do Bananal adicionam cerca de 1,5 mil litros de água por segundo à conta de abastecimento do DF

Novembro —  A Adasa aprova plano da Caesb para racionamento de 48 horas, mas instauração da medida não é colocada em prática pelo Executivo local. O Descoberto chega a 5,3% da capacidade, e o reservatório de Santa Maria, a 21,9% — os piores índices da história


2018
Janeiro  —  Com a chegada das chuvas, os reservatórios começam a se recuperar, apresentando subidas diárias acima de um ponto percentual. 
A quantidade de precipitações é superior à média histórica

Março  —  GDF começa a flexibilizar as medidas de captação do Descoberto, aumentando a vazão média captada pela Caesb e os horários de retirada de água bruta pelos produtores rurais. O término do racionamento é estudado para o fim do período chuvoso

Abril —  O Descoberto supera 90% do volume total, melhor nível desde agosto de 2016

Maio  —  O governador Rodrigo Rollemberg anuncia o fim do racionamento para 15 de junho, com o término de todas as medidas restritivas
 

Cara a cara 

Marco Antônio Almeida de Souza, especialista em saneamento do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da UnB
 
“Manter a redução do consumo” 
“Por ser extremo e não se manter, o racionamento foi a pior medida possível tomada. Ele não mantém a qualidade da água, além de ter alto custo. Sair de um racionamento sempre é uma coisa boa, porque reduz o risco de contaminação da rede. Existem medidas de contenção de consumo que não precisam recorrer à suspensão da distribuição. Por exemplo, a maior vantagem do racionamento é que, nos dias sem água, não há taxa de desperdício, que soma 30% do total entregue. No entanto, seria melhor trabalhar para diminuir esse índice de perda, melhorando o sistema, que é antigo, e substituindo-o por um novo.
 
Após o fim do racionamento, os próximos passos devem ser investir em educação. Temos de manter a redução do consumo ou mesmo diminuir mais ainda. Neste último ano, as pessoas se conscientizaram. Agora, precisamos regulamentar isso com a sociedade por meio de leis que incentivem o uso racional. Investimentos tanto da população quanto governamentais são necessários. Podemos substituir os equipamentos domésticos por outros de menor consumo, como privadas e torneiras. Além disso, o reúso deve ser observado. Porém, vale lembrar que esse racionamento compulsório ocorreu porque houve erro de planejamento. Alguém esqueceu de pensar no abastecimento do futuro. É uma situação que não pode se repetir”

Eugênio Giovenardi, ecossociólogo

“Essa não é uma boa notícia”
“Como protetor de nascentes por muito tempo, eu considero inoportuna e imprudente a decisão de suspender o racionamento neste momento, a menos que o governador tenha informações privilegiadas sobre o comportamento do tempo, já que ele estabeleceu a data exatamente no começo da temporada de seca. Essa não é uma boa notícia, tudo depende de informações que não estão transparentes e não sabemos no que essa medida se fundamenta. O que a Caesb sabe é o percentual mostrado na régua, no entanto, não é possível determinar com sinceridade qual é o volume real de água que tem nos reservatórios. Então, imagino que não tenha tido esse tipo de análise técnica.
 
Suspender o racionamento também pode interromper um processo educativo de longo prazo no uso racional da água. Não é em um ano que um agricultor aprende a usar racionalmente o recurso. Penso que não se pode fazer política com água, e sim fazer política da água, que é uma coisa bastante diferente. Agora, precisamos acompanhar se essa medida vai contemplar a proteção de mananciais, deter urbanização em áreas de nascentes e investir nos nossos recursos naturais. O que não pode acontecer é voltarmos à estaca zero, que é uma das piores coisas que podem acontecer. Temos de seguir o curso d’água, que vai além da preocupação com os reservatórios. Isso é uma concepção lógica, porque, matando a nascente, o rio seca.” 
 
Colaborou Philipe Santos (estagiário sob supervisão de Guilherme Goulart) 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade