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Correio Braziliense

Fim de racionamento obriga brasiliense a repensar consumo diário

Especialista defende a implementação de taxa proporcional no DF para quem gasta mais o recurso


postado em 04/05/2018 06:00

José Antônio usou os cortes de água para conscientizar a família: incentivo à economia(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
José Antônio usou os cortes de água para conscientizar a família: incentivo à economia (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

Entre 2001 e 2002, o Brasil viveu a “crise do apagão”, causada por uma combinação de fatores, como falta de chuva e de investimentos na produção de energia elétrica. O resultado foi a impossibilidade de produzir e atender a demanda de eletricidade, obrigando o governo a implementar uma política de racionamento. Em oito meses, o consumo caiu, mas, quando o fantasma do apagão começou a sumir da memória dos brasileiros, os gastos voltaram a subir. Atualmente, na crise da água no Distrito Federal, esse é um dos receios levantados por especialistas: que o brasiliense não tenha aprendido com o problema.

Para o governador Rodrigo Rollemberg, todos criaram uma consciência, o que vai garantir “o uso sustentável da água para essa e futuras gerações”. Desde 2014, o consumo nas residências do DF registra queda, mesmo na contramão ao crescimento da população. Há quatro anos, o uso era de 12,4 metros cúbicos por residência. No ano seguinte, caiu para 11,6m³ e, depois, para 11,5m³. Após o racionamento, apresentou a maior redução: 10,4m³.

Para a cuidadora de crianças Cláudia Valentim, 45 anos, o corte semanal representou uma descoberta. “Aprendi a reaproveitar a água e usar só o necessário. Vou continuar economizando daqui para a frente. Não custa nada. Caso um novo racionamento ocorra, estou preparada”, disse a moradora da Candangolândia. Na casa do desempregado José Antônio da Silva, 65, o corte de água também serviu como conscientização. “Incentivei os meus quatro netos e o meu filho a economizar, e eles fizeram isso não apenas com a água. Deixaram de desperdiçar com energia elétrica”, explicou José Antônio, também da Candangolândia.

A data para o fim do racionamento — 15 de junho — foi anunciada no momento em que o Descoberto apresenta o maior volume dos últimos 23 meses: 91,1%. O especialista em recursos hídricos da Universidade de Brasília (UnB) Sérgio Koide explica que o cenário é propício para a suspensão dos cortes. No entanto, ele ressalta que seria prudente esperar pelo menos mais um mês para definir uma data. “Mesmo com chances pequenas de termos algum problema, talvez outros quesitos devessem ser avaliados, como se o consumo da cidade voltará a subir e os impactos do período da seca”, comentou.
 
Cláudia aproveitou para aprender sobre o reúso:
Cláudia aproveitou para aprender sobre o reúso: "Vou continuar economizando" (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
 

Debates

Uma das condicionantes era a conclusão do Sistema Produtor de Água de Corumbá IV. Segundo Rollemberg, o status de conclusão das obras é de 70%, e a previsão continua dezembro deste ano. Nos quase dois anos de crise hídrica, mais de 1,4 mil litros de água foram adicionados aos reservatórios do DF, com a inauguração de duas obras. Além disso, a Caesb readequou e interligou o sistema (confira Captações de água no DF) para não sobrecarregar a Barragem do Descoberto e o reservatório de Santa Maria.

Para Sérgio Koide, um dos pontos que também precisam ser trabalhados para impedir novos estresses hídricos é criar políticas de tarifa para reduzir o consumo. “O ideal seria implementar uma taxa proporcional aos custos da rede. Um local de grande consumo, como Park Way, Plano Piloto ou Lago Sul, deveria ter o valor da água superior aos das demais cidades. Quem consome muito deveria pagar mais caro. Essa variação de valor faria com que todos realmente lutassem pela preservação”, avaliou. A sugestão de Koide é estudada pela Adasa, que pretende realizar uma audiência pública ainda neste semestre para debater a tarifa diferenciada por renda.

O especialista também alerta para o consumo agrícola. De acordo com ele, em junho, a produção aumenta, assim como os gastos. “Agora, o governo tem de zelar para que haja uma melhora contínua no sistema e garantir que a oferta seja compatível com o crescimento da demanda, que é grande”, aponta.

Produtores

Entre os produtores rurais, o fim das restrições também foi comemorado. Se na área urbana o racionamento ocorria uma vez a cada seis dias, no campo, permitia-se a captação apenas das 6h às 9h e em dias intercalados. O resultado foi a retração na agricultura local de R$ 600 milhões no ano safra 2016/2017, de acordo com a Secretaria de Agricultura.

A presidente da Associação dos Produtores Agroecológicos do Alto São Bartolomeu (Aprospera), Fátima Cabral, defende que o racionamento não deveria ter atingido os pequenos produtores. “O governo poderia ter tido um olhar diferenciado para os agricultores, principalmente aqueles que produzem de forma atenta e com os devidos cuidados com a preservação dos recursos hídricos e que trabalham em sistemas agroflorestal e agroecológico”, enfatizou.
 
(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
 

Consumo médio por habitante


147 
litros por dia antes do racionamento

129  
litros por dia atualmente

"Agora, o governo tem de zelar para que haja uma melhora contínua no sistema e garantir que a oferta seja compatível com o crescimento da demanda” 
Sérgio Koide, especialista em recursos hídricos da UnB

Povo fala

Como o (a) senhor (a) avalia o fim do racionamento?

José de Jesus, 
75 anos, aposentado, morador do Guará

“É uma faca de dois gumes. Nos primeiros meses, o resultado pode ser positivo. Mas será que os reservatórios vão manter o nível por muito tempo? Nem sempre o que imaginamos se torna realidade. Espero que um novo racionamento não aconteça. O jeito é continuarmos economizando. Temos de fazer a nossa parte”

Josinaldo do Nascimento, 
43, churrasqueiro, morador da Candangolândia

“Por mim, poderia continuar. Infelizmente, muitas pessoas ainda não mudaram os hábitos. Quando o racionamento acabar, elas usarão a água da maneira que bem entenderem. Nem todos economizarão. Com o racionamento, pelo menos por um dia, não há um desperdício tão exagerado”

Jailto Alves, 
60, aposentado, morador do Guará

“Por mim, o racionamento poderia continuar. Acredito que a população precisa se conscientizar ainda mais sobre a importância de não desperdiçar água. Isso tem de virar um hábito para cada cidadão. Espero que as pessoas não exagerem daqui para a frente. Com os reservatórios bem abastecidos, isso não significa que podemos usar a água 
de qualquer jeito”

Iliane Fonseca, 
38, servidora pública, moradora do Sudoeste
 
“Não acho que era o momento de se tomar essa decisão. Deveria ser feito um remanejamento do racionamento. Manter para as residências, cortando o abastecimento a cada 10 ou 15 dias, e liberar a água apenas para os comércios, onde a necessidade é maior. Além disso, tivemos um longo período de chuvas. Será que vai acontecer o mesmo com a seca?”

Oswaldo Pereira, 
89, músico, morador da Candangolândia
 
“Fiquei satisfeito com a notícia. Ninguém esperava que um racionamento acontecesse. Trouxe muitos transtornos. Precisei trocar o sistema de encanamento da minha casa por causa da força da água e, por várias vezes, tive de esperar quase dois dias para o abastecimento voltar ao normal. Saber que eu não vou mais encarar esses problemas é um alívio”

Renata Sousa,
32, autônoma, moradora da Candangolândia

“É gratificante saber que o racionamento vai acabar. Ficar dois dias sem água a cada semana é um sacrifício. De qualquer forma, esse período serviu de lição. Reforçou a importância de reduzirmos o consumo e preservarmos a água. Vou manter esse costume daqui para a frente”

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