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Correio Braziliense

"Era um relacionamento abusivo", diz prima de mulher assassinada por PM

Soldado da Polícia Militar é acusado de assassinar uma mulher de 25 anos, com quem manteve um relacionamento de seis anos. Em seguida, ele foi a uma academia de ginástica e atirou em um professor, amigo da jovem


postado em 05/05/2018 07:00 / atualizado em 05/05/2018 08:52

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

Anos de namoro, de idas e vindas e um final trágico. Jessyka Laynara da Silva Souza, 25 anos, morreu na tarde de ontem com cinco tiros à queima-roupa. O único suspeito é o ex-namorado Ronan Menezes do Rego, 27 anos, soldado da Polícia Militar lotado no Grupo Tático Operacional (Gtop) do 10º Batalhão de Ceilândia. O crime aconteceu na casa onde a mulher morava com os avós, o irmão e primos, na QNO 15 de Ceilândia.

De lá, Ronan seguiu para uma academia de ginástica, na EQNO 2/4. Ele entrou sem dizer nada e atingiu com três disparos um dos professores, Pedro Henrique da Silva Torres, 29 anos. Assim como entrou, saiu, em fuga. Ainda com vida, Pedro foi transportado para o Hospital Regional de Ceilândia, onde passou por uma cirurgia e, até o fechamento desta edição, estava em estado grave.

Jessyka e o agressor namoraram por cerca de seis anos e chegaram a ficar noivos. De acordo com parentes, em um dos términos, a jovem chegou a ter outro relacionamento, mas Ronan ameaçou o rapaz e a família. “Ela procurava um jeito de terminar sem que acontecesse uma tragédia”, contou Eliane Maria da Silva Araújo, tia da vítima.

Em frente à casa de Jessyka, o clima era de tristeza e de revolta. O pai de Jessyka chegou ao local três horas após o crime. Revoltado, gritava: “Devolve a minha filha! Cadê a minha filha? Não acredito, esse cara é podre, um infeliz, um louco. Eu quero a minha filha de volta!”. Identificados apenas como Marcus, precisou ser contido por familiares e amigos. Ele perdeu uma irmã também assassinada pelo companheiro. “Ela morreu jovem e a família sofre até hoje”, contou Talita da Silva Gomes, 32 anos, prima de Jessyka.

A avó da jovem também ficou muito abalada e passou mal, precisando do atendimento do Corpo de Bombeiros.

Testemunhas


Parentes da vítima presenciaram o crime, ocorrido por volta das 14h. “Ele (Ronan) veio mais cedo e discutiu com ela. Um primo nosso que é policial militar de Goiás tomou a arma dele. O Ronan saiu e disse que ia embora, mas voltou pouco depois. Uma visita, que estava na casa da minha avó, abriu a porta sem saber. Jessyka estava na sala quando ele entrou atirando. Meu primo estava na sala e o irmão dela, na cozinha. Todo mundo correu para ajudar, a ambulância chegou, mas ela não resistiu”, relatou Leonardo Silva, 35 anos, primo de Jessyka.

A prima Talita afirmou que Ronan agredia a moça constantemente. “Há poucos dias ele deu uma porrada na cabeça dela, mas ela não fez denúncia, só contou para uma amiga e disse que, se algo acontecesse, a culpa era dele. Era um relacionamento abusivo e, assim como acontece com várias outras mulheres, ela tentava sair e não conseguia. Agora é lutar por justiça”. Parentes afirmaram que Ronan dizia que não ficaria preso por ser policial.

Após matar a jovem, Ronan foi atrás da segunda vítima. De acordo com Eliane Maria (tia), Pedro Henrique era amigo dela. “A questão é que ele (Ronan) tinha ciúmes de tudo e de todos. Ele ameaçava ela e a família, dizia que ia matar todo mundo. Não sei nem o que sentir. Minha sobrinha linda, trabalhadora, gente boa, ajudava todo mundo”, contou, emocionada. A jovem era formada em administração e esperava ser chamada para tomar posse no Corpo de Bombeiros, após ter sido aprovada em um concurso público.

O caso é investigado pela 24ª Delegacia de Polícia (Setor O de Ceilândia). O acusado de cometer os dois crimes não havia sido localizado até o fim da noite. Questionada pela reportagem, a assessoria de comunicação da PMDF afirmou que não poderia passar informações sobre o suspeito até que ele se entregasse. O pai de Ronan é oficial da reserva do Corpo de Bombeiros do DF.

Dez casos


Incluindo a morte de Jessyka, houve ao menos 10 casos de feminicídio em todo o Distrito Federal, em 2018 (veja Memória). Desde que a tipificação foi incorporada ao Código Penal, em 9 de março de 2015, a Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social contabilizou 47 casos de feminicídio na capital — dados oficiais contabilizados até março.
 
A Lei nº 13.104 alterou o texto do conjunto de normas, que passou a classificar esse tipo de crime como prática “contra a mulher por razões da condição de sexo feminino”, incluindo violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher. A pena pode variar de 12 a 30 anos de reclusão.

Violência contra a mulher


Sancionada em agosto de 2006, a Lei Maria da Penha prevê, além das medidas protetivas que determinam o afastamento do agressor, ações educativas com o objetivo de prevenir casos de violência doméstica e contra a mulher. Especialistas destacam que esse é o caminho para se alcançar, a longo prazo, a redução do número de mortes.

A legislação traz uma sessão específica, dedicada a medidas integradas de prevenção, com ações articuladas entre União, estados, o Distrito Federal e os municípios, além de ações não governamentais.

A norma determina a “promoção e a realização de campanhas educativas de prevenção da violência doméstica e familiar contra a mulher, voltadas ao público escolar e à sociedade em geral, e a difusão dessa Lei e dos instrumentos de proteção aos direitos humanos das mulheres”. Há locais na cidade em que tanto o agressor quanto a vítima podem buscar apoio psicológico e social.


Crimes em 2018


5 de abril
A advogada Jusselia Martins de Godoy, 50 anos, foi baleada pelo ex-marido Evandro Alves de Faria, 56, que entrou no escritório onde ela trabalhava, em Planaltina. Jusselia foi hospitalizada com lesões na cabeça e no braço, mas morreu cinco dias mais tarde. O agressor tirou a própria vida após cometer o crime.

16 de março
Outro caso semelhante, em Ceilândia, vitimou Mary Stella Maris Gomes Rodrigues dos Santos, 32. Ela e o marido, o piloto do Metrô Júlio César dos Santos, 38, estavam em processo de separação à época do crime. Após discutirem, o homem deu quatro tiros em Mary Stella e depois se matou. O filho de 2 anos do casal presenciou o crime.

3 de março
Elson da Silva, 39 anos, matou a mulher, Romilda Souza, 40, no apartamento em que o casal morava com os dois filhos e a mãe da vítima, na 406 da Asa Sul. Ele também cometeu suicídio em seguida.

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