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Correio Braziliense

Obras de mestres do paisagismo estão escondidas em Brasília. Saiba onde!

Obras de paisagismo pensadas por famosos, como Roberto Burle Marx, ou nascidas ao acaso, das mãos de desconhecidos, estão escondidas em meio ao concreto de grandes edifícios da capital. Alguns são restritos a servidores e a outras poucas pessoas


postado em 06/05/2018 06:18 / atualizado em 07/05/2018 17:23

Conjunto de torres que abrigam, entre outros órgãos, a Defensoria Pública da União (DPU): o verde nas coberturas dos prédios contrasta com o branco da estrutura(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
Conjunto de torres que abrigam, entre outros órgãos, a Defensoria Pública da União (DPU): o verde nas coberturas dos prédios contrasta com o branco da estrutura (foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)

 

Ícone do modernismo, Brasília foi concebida para surpreender. Em meio a toneladas de concreto e aço esculpidos seguindo os traços de arquitetos e urbanistas inovadores, jardins desconhecidos pela maioria da população e dos visitantes da capital quebram a monotonia do cinza e transformam ambientes em um refúgio para a rotina do trabalho de muita gente.

 

Com o auxílio de um drone, o Correio mapeou, fotografou e filmou oito desses jardins quase secretos. Uma equipe do jornal percorreu a cidade em busca de projetos que unem o cimento, a esquadria e o vidro à natureza. E encontrou desde espaços criados espontaneamente pelos trabalhadores, como é o caso do jardim do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), até aqueles assinados pelo arquiteto e paisagista Roberto Burle Marx, a exemplo do jardim do Tribunal de Contas da União (TCU).

 

O jardim do conjunto de torres que abrigam a Defensoria Pública da União (DPU), o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN) é um desses achados. O verde sobre a laje dos quatro edifícios contrastam com o branco da estrutura. Outro que chama a atenção é o da Casa do Clero, no começo da L2 Norte. São quatro corredores em formato de cruz. As janelas de todos os cômodos são voltadas para os jardins. A casa acolhe padres, bispos e cardeais idosos. No caso do Carmelo de Nossa Senhora do Carmo, próximo à Ermida Dom Bosco, passarelas de concreto parecem conduzir o visitante pelo jardim até um ponto central.

 

Terapia

Como quem admira uma obra de Claude Monet (leia Para saber mais), é preciso distanciar-se do solo para apreciar o jardim do Hospital Regional da Asa Norte de outras perspectivas. Apelidado de Redondo, ele é usado por profissionais de fisioterapia e psicologia como parte do tratamento de pacientes internados na UTI. Quando ficam muito tempo lá, eles começam a perder a noção de dia e noite. Isso, somado a doenças e problemas orgânicos, os predispõe a quadros de delírio. “Diversos estudos apontam que trazer o paciente para ambientes externos, como o jardim, pode prevenir o quadro de delirium. Fazemos isso aqui no Hran, e observamos o impacto positivo”, conta a psicóloga Lígia Casanova.

 

A reportagem presenciou o momento em que a advogada recém-formada Ana Carolina Lima, 27 anos, recebeu alta da UTI após um mês de internação. A psicóloga Lígia a levou para o Redondo, pois sentia que Ana começava a “flutuar”, termo usado quando os médicos percebem a entrada do paciente em estado de delírio. “Ar livre! É tão bom”, foi a curta frase que a jovem soltou ao chegar próximo ao jardim.

 

Professor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), José Carlos Coutinho confirma a função de humanização dos jardins no interior dos prédios. “Cria um ambiente que alivia o estresse, além de ser um atrativo para o edifício, amenizando não só o clima temporal, como também o psicológico”, afirma. Segundo Coutinho, no século passado esse formato de construção teve destaque na Espanha, onde recebia o nome de pátio. Muitos são azulejados, e durante a concepção é o edifício que se organiza em torno dele.

 

Interação

O prédio do Dnit chegou a ser comparado com um presídio, devido às cores escuras da estrutura. “Meus colegas falavam ‘você trabalha no Carandiru?’, mas, quando chegavam aqui, se encantavam com o que tem dentro”, conta Tito Borges, auxiliar administrativo do órgão. A aridez do concreto foi quebrada pelos funcionários por acaso. Aos poucos, o retângulo foi tomado por plantas. O “Mandiocão” do jardim é datado de 1979, mesmo ano da inauguração do edifício. Goiabeiras e mangueiras dividem espaço com exemplares de origem africana.

 

O arquiteto responsável pelo edifício, Rodrigo Lefèvre, nascido na Guiné-Bissau, mas naturalizado brasileiro, quis ir contra a onda arquitetônica da época, que priorizava construções de vidro. Com o prédio do Dnit, ele buscava criar um edifício de concreto que interagisse com a população. Por isso, não existem grades, e o jardim é aberto ao público.

 

A inspiração para esse tipo de construção remonta a 3 mil anos, segundo o professor Frederico Flósculo Pinheiro Barreto, da UnB. “Babilônia, a cidade dos jardins suspensos, foi uma maravilha do passado exatamente por isto. Por ser uma cidade, entre todas as que estavam nascendo, extraordinariamente cuidada por jardins. O ajardinamento era uma política pública”, destaca.

 

A influência também está na arquitetura da Península Ibérica, no Sudoeste da Europa (Gibraltar, Portugal, Espanha e Andorra). “Nós, brasileiros, rompemos com várias das mais belas tradições ibéricas. O jardim ibérico não é mantido como a maioria dos jardins brasilienses. Os árabes usavam espécies espanholas. Nós fazemos uma mistura louca de plantas exóticas quando deveríamos prestigiar mais as plantas de cerrado”, defende Flóculo.


Para saber mais
Criador do impressionismo

Claude Monet é um pintor francês nascido em Paris em 14 de novembro de 1840. Ele inaugurou o movimento impressionista. Com pinceladas soltas e firmes, dava movimento, captava a luz, o vento e a neblina de suas paisagens. Em várias telas do artista, se o espectador se aproxima muito, não vê nada mais que um emaranhado de traços ou borrões. Mas ao se distanciar vê toda a complexidade e genialidade da obra. Monet morreu em 1926 e está enterrado em Giverny.

 

PRECIOSIDADES 

(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)

Seminário Missionário Arquidiocesano Redemptoris Mater

Setor Ermida Dom Bosco, Área Especial 1, Lago Sul

Aberto à visitação segunda, terça, quarta e sexta-feira, das 8h às 18h, quinta, das 8h às 16h45. Sábado e domingo, das 8h às 17h.

 

A construção começou em junho de 1991. A inauguração oficial ocorreu em 25 de maio de 1994, com missa celebrada pelo cardeal Pio Laghi, então prefeito da Congregação da Educação Católica. O projeto é assinado pelos arquitetos Mattia del Prete (italiano de Roma), Mario Zerial (italiano de Trieste) e Jefferson Nerasti, um arquiteto brasileiro de Jundiaí (SP). O prédio abriga dormitórios, Capela, Santuário da Palavra, faculdade, biblioteca, refeitório e campo de futebol. O jardim central tem um chafariz para recordar a ideia de Cristo como fonte de água viva. O reitor do seminário, Paulo de Matos, conta que o projeto foi inspirado no Seminário Missionário de Roma. “Esse edifício, antes de ser do Seminário Missionário de Roma, tinha sido uma casa de freiras franciscanas e depois passou a ser um dos Seminários da Diocese de Roma. Ele serviu de inspiração para a nossa construção.”

 

(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
 

Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) 

Setor de Autarquias Norte 3, Bloco A, Lote A

Aberto à visitação de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h

 

O jardim abriga plantas da idade da construção do prédio e outras levadas por funcionários. A grande maioria é frutífera, principalmente mangueiras e graviolas. Também há plantas ornamentais exóticas. Entre as espécies estão: costelas de Adão; pinheiro negro; boldo grande ou tapete de oxalá; melissa; capim santo;  nativas e peregum (de origem africana);  goiabeiras; graviolas e agave (América Central). Entre as árvores do cerrado, há pau pombo; aroeira; capitão do mato; ingá; caroba; copaíba; ipê e Gonçalo Alves. Algumas das espécies do cerrado foram doadas pelo professor Manoel Cláudio, do viveiro do Centro de Recuperação de Áreas Desmatadas (Crad) da UnB, em 2014, nas comemorações da Semana do Meio Ambiente. O jardineiro Manoel Ferreira cuida dos jardins do edifício há 25 anos e conta que as espécies do cerrado precisam de atenção especial. “Dependendo do tipo, regamos duas vezes por semana, mas precisa tratar e limpar todos os dias”, explica.

 

(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)

Universidade de Brasília (UnB)

Câmpus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília, na Asa Norte

Aberto à visitação de segunda a sexta-feira, das 7h às 23h, e sábado, das 7h às 18h

 

Mais conhecido como Minhocão, O prédio do Instituto Central de Ciências (ICC) da UnB abriga um jardim de aproximadamente 12,9 mil metros quadrados de área. Os jardins ficam nas laterais, no centro e até no subterrâneo entre os módulos. Oscar Niemeyer é o arquiteto que assina o projeto, contudo, o principal responsável pela execução da edificação foi o arquiteto João Filgueiras Lima, mais conhecido como Lelé. A inauguração ocorreu em 1971. Os jardins faziam parte do projeto original, mas foram construídos paulatinamente e modificados com o passar dos anos. Até dentro da universidade, há dúvidas sobre quem seria o responsável pelas alterações. Nomes como Burle Marx, Fernando Chacel ou até mesmo o próprio Lelé aparecem entre as alternativas. O catálogo de plantas é extenso, contendo exemplares plantados pelas mais diversas gerações de alunos, professores e reitores que passaram pela universidade. Hoje, a flora é formada por palma, Iuca-elefante, batata-doce, boldinho, periquito, penicilina, lantana, caracasana, plumérias, primaveras, sariteias, gerânios, ipês, mangueiras, entre outras.

 

(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
 

Hospital Regional da Asa Norte (Hran)

Setor Hospitalar Norte, Quadra 1, Asa Norte

Restrito a servidores e a pacientes

 

Respiros arquitetônicos trazem um pedaço do mundo exterior para quem está internado no Hran. Os responsáveis por isso são os arquitetos Walderato e Roberto Nadalutti, autores do projeto. Hoje, helicônias, azaleias e orquídeas estão entre as plantas cultivadas no local. Um pequeno altar com a imagem de Maria também ganhou espaço ali. Visto do alto, o círculo verde parece apenas um espaço ao ar livre no meio do bloco A do hospital, mas as atividades recreativas tornaram o Redondo, como foi apelidado o jardim, 

o coração da unidade. Por lá, além da humanização de pacientes, são realizadas também  rodas de conversa, missas e apresentações musicais e teatrais.

 

(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)
(foto: Breno Fortes/CB/D.A Press)

Tribunal de Contas da União (TCU)

Setor de Administração Federal Sul (Safs), 

Quadra 4, Lote 1

Restrito a servidores e  a visitantes

 

O edifício-sede do TCU foi projetado pelo arquiteto Renato Alvarenga e construído na década de 1970. A imagem aérea dá uma pista sobre o idealizador do jardim que ornamenta o prédio. As formas irregulares e a variação de cores foram projetadas pelo arquiteto e paisagista Roberto Burle Marx, e o espaço tem 510 metros quadrados. Por se tratar de um jardim interno, limitado por ambiente de trabalho muito próximo, ele não é usado para o trânsito de pessoas, sendo, portanto, um espaço mais contemplativo.  Entre as espécies que fazem parte do jardim estão bromélias, vriesea, paineira-branca, grama-coreana e dinheiro-em-penca. 

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