Publicidade

Correio Braziliense

Animais que ficam sozinhos recebem treinamento para controlar estresse

Donos de cães que moram em condomínios ou apartamentos, em alguns casos, necessitam de auxílio para evitar transtornos com a vizinhança


postado em 12/05/2018 07:00

Viviane Mascarenhas (E) e Supino, o adestrador Vilmar José de Oliveira, Tatiana Rehbein e Brisa, e Roberto Cortez, com Chopin(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Viviane Mascarenhas (E) e Supino, o adestrador Vilmar José de Oliveira, Tatiana Rehbein e Brisa, e Roberto Cortez, com Chopin (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)

Cuidar de um animal doméstico requer disposição de dar carinho e exige muita responsabilidade. Alguns tutores, entretanto, não estão cientes dea sua real tarefa, o que pode causar problemas para o mascote. Um exemplo é quando os animais são deixados sozinhos em casa e os donos vão trabalhar. O animal sente-se isolado, o que pode gerar reações como agressividade, ansiedade, estresse e tristeza. No fim das contas, as mudanças de personalidade ou de rotina do animal acabam incomodando pessoas que não têm nada a ver com a história.

“Os maiores problemas são os latidos excessivos e o mau cheiro por conta das necessidades do cachorro. O dono tem que perceber isso. Ter um animal é um direito constitucional, mas o tutor precisa se preocupar em não invadir o direito de outra pessoa”, explica o advogado especializado em direito animal José da Silva. Ele aconselha que, para evitar desavenças com a vizinhança, é importante o dono ficar atento às reações do animal. “Quando o cachorro está sozinho, ele fica muito estressado. Perto do dono, ele se comporta com mais docilidade. As pessoas não podem ter um cão apenas por ter. Elas têm que amar os seus bichos”, acrescenta.

De acordo com a veterinária Simone Bandeira, os donos têm que estabelecer um papel de liderança sobre os cachorros. “Eles são animais de matilha, que vivem sob a regência de um comandante. Caso o tutor não faça isso, o próprio cão vai exercer esse papel. Assim, a pessoa pode ficar refém do cachorro, interferindo em todo o contexto social que está inserida”, frisa.

A profissional destaca a importância de o dono perceber os problemas o mais cedo possível e buscar auxílio. “Assim que o cachorro entra na casa, ele demonstra uma tendência de comportamento, como relutância em obedecer a ordens e agressividade. Mas existem maneiras de se minimizar. O dono não pode ficar refém da situação. Ele tem que entender que o adestramento é necessário para o cão se posicionar bem no ambiente e não causar estragos ou prejuízos”, pondera.

Quem mora em condomínios ou apartamentos sabe o que é isso. Quando se mudou para um prédio,  em 2015, a fotógrafa Tatiana Rehbein, 51 anos, passou a conviver com o problema. “Ficava incomodada ao ver que as pessoas saíam para o trabalho e deixavam os cachorros trancados na varanda. Eles choravam até o tutor voltar. Na cabeça do animal, isso é abandono. Quem vive com um cão precisa entender esse comportamento”, destaca.

Somente neste ano, no condomínio onde a fotógrafa mora, dez moradores receberam advertências devido às atitudes de seus cães. Um deles foi multado. Tatiana, que foi subsíndica do local, recorreu a um adestrador de cães para tentar resolver a situação. “Se nós não fizéssemos alguma coisa, não iam permitir mais a presença de cachorros no conjunto. Temos que respeitar as características dos animais. Os tutores, principalmente, se dando conta de que os animais não são nenhum brinquedo”, ressalta

A fotógrafa entrou em contato com Vilmar de Oliveira. Há 28 anos ele trabalha como adestrador e elaborou uma palestra para conscientizar os moradores do condomínio. “Para evitar os atritos com a vizinhança, eu procuro conscientizar o tutor do animal para que ele resolva os problemas e aprenda a lidar com o seu bicho, para que o cachorro fique tranquilo e não sofra muito. Além disso, os moradores que não têm cachorros começam a entender o universo do animal. Melhorando a qualidade de vida do cachorro e do ambiente em que ele vive, ele ficará menos estressado e não terá problemas com a vizinhança”, comenta.

Filipe Baracat, com seu husky siberiano Apollo. Animal precisou aprender a usar focinheira(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Filipe Baracat, com seu husky siberiano Apollo. Animal precisou aprender a usar focinheira (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)


Transtornos


Nem sempre as dificuldades são resolvidas de forma pacífica. Em 2017, o fisiculturista Filipe Baracat, 23, estava saindo do apartamento com o seu husky siberiano Apollo e deu de cara com um vizinho, que estava com um cachorro menor. Os animais se estranharam e o dono do outro cão se sentiu intimidado. “Ele me falou que eu não poderia andar com o meu cachorro sem focinheira, devido ao seu tamanho, e reclamou com o síndico. Por conta disso, fui multado em R$ 1,7 mil”, conta.

Para evitar maiores problemas, Filipe pediu ajuda a um adestrador. “O Apollo tinha muita rejeição em utilizar focinheira, mas, agora, não reclama. Além disso, aprendi a ser mais atento. Sempre quando outra pessoa se aproxima com um cachorro, eu a aviso para não chegar tão perto do Apollo”, lembra. O vizinho que havia reclamado de Filipe acabou retirando a multa, após saber que o fisiculturista estava educando o cão. “Temos que ver o que está errado e procurar evoluir. Mas eu me senti incomodado. Como dono do Apollo, eu o conheço como se fosse meu filho. É difícil ter que ouvir outras pessoas falando que ele é perigoso”, defende.

A personal trainer Viviane Mascarenhas, 40, está passando por situação semelhante. Ela recebeu multa de R$ 937, após uma vizinha se incomodar com o seu jack russell terrier Supino. Mesmo contrariada, aceitou a assistência do adestrador Vilmar. “Não tenho filhos, mas me sinto mãe do Supino. Quando fazem algo contra ele, me dói muito”, confessa. Apesar de tudo, ela está gostando do adestramento. “O Supino acha que manda em si próprio. Faz birra, arranha algumas coisas em casa, fica pulando nas pessoas e também em animais. Essas coisas estão mudando. Enquanto tutores, temos que fazer a nossa parte para evitar confusões”, completa.


Exemplo


O aposentado Roberto Côrtes, 75, também foi ajudado por um profissional com o seu lhasa apso Chopin. “Era alertado sobre o barulho que ele fazia quando eu não estava em casa. Hoje, quando eu tenho que sair, ele consegue se controlar. Posso dizer que o comportamento dele melhorou em 95%”, esclarece. Segundo o aposentado, o importante é não virar as costas para o bichinho. “Caminhamos quatro vezes ao dia. Quando chega a hora, ele já sabe. Temos que entender o que ele está pedindo”, aconselha.

Para a fotógrafa Tatiana, além do auxílio de um adestrador, amor faz a diferença. No ano passado, ela resgatou uma vira-lata abandonada dentro do seu condomínio. No apartamento da fotógrafa, a cachorra encontrou um lar.  “O animal é o reflexo do dono. Temos que compreender as suas necessidades. Os cachorros trazem alegria e companheirismo. Tudo o que temos que fazer é retribuir. Depois de alguns meses, o medo que minha cachorra tinha, sumiu. Hoje, quase toda a vizinhança gosta dela”, comemora.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade