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Correio Braziliense

Herdeiros, evangélicos e empresários são barreira para renovação na Câmara

A força de deputados distritais ligados a igrejas evangélicas e a setores do empresariado deve se manter no pleito de outubro. Novos nomes terão dificuldades, dizem especialistas


postado em 06/06/2018 06:00

Plenário da Câmara Legislativa do DF: a tendência é que o índice de novos nomes no quadro de distritais na Casa seja baixo (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Plenário da Câmara Legislativa do DF: a tendência é que o índice de novos nomes no quadro de distritais na Casa seja baixo (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Grupos ligados a igrejas evangélicas, ao empresariado e a herdeiros políticos devem manter força na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) nas eleições deste ano, segundo especialistas. Com a descrença dos eleitores na política e a dificuldade de novas alternativas emplacarem candidaturas, a tendência é que o índice de renovação no quadro de distritais seja baixo e que nomes de fora das bases mais sólidas tenham dificuldade em se eleger.

“A presença dessas corporações e dessas máquinas partidárias oligárquicas tende a permanecer grande, sobretudo, em um contexto como parece que será o desta eleição: de muitos votos nulos, brancos e abstenções. A tendência, nesse caso, é que eles mantenham esse espaço”, aponta o cientista político Paulo Kramer, professor da Universidade de Brasília (UnB).

Para ele, a alternativa a esses grupos seriam os chamados candidatos de opinião, que surgem de fora dessas bases pela defesa de posicionamentos. A descrença da população com a política dificultaria, no entanto, o fortalecimento desses nomes. “A população não se sente representada e tem até raiva da política. A tendência é mesmo abrir espaço para permanência dos grupos que já têm força”, avalia.

Na visão de Kramer, o problema maior da manutenção da estrutura atual é a atuação voltada quase que exclusivamente para o benefício desses próprios grupos. “Se você tem uma legislatura dominada por corporações e por essas bases, o que prevalece é a lei do ‘farinha pouca, meu pirão primeiro’. A tendência vai ser sempre favorecer propostas que concentrem benefícios para esses grupos e que socializem os custos com o conjunto da sociedade”, opina.

Desencanto

O grande espaço conquistado por nomes apoiados pelas igrejas evangélicas na CLDF (e na política como um todo) deve se manter ou aumentar. A própria descrença com os políticos de carreira pode ser uma das razões para isso, acredita o especialista em políticas públicas pela UnB e professor de ciência política Emerson Masullo.

“A bancada evangélica tem um forte apelo social ligado à questão da manutenção da preservação dos valores da família tradicional, com grande impacto também entre os jovens. Eles sem dúvida terão força no apoio para qualquer pretenso candidato e para a composição das câmaras legislativas”, avalia Masullo. Para ele, as eleições deste ano serão marcadas pelos votos de protesto e de desencanto com a política. “Nesse contexto, os candidatos ligados a algum grupo de fora da política, como os evangélicos, ganham muita força.”

Dificuldades

Nomes de fora do cenário tradicional e distantes desses grupos com bases mais amplas enfrentarão dificuldades para tentar se eleger. “Muito embora a lei eleitoral permita agora a vaquinha eletrônica, candidatos novos terão dificuldades para ter uma candidatura forte e para se financiar. Até porque isso ainda é muito novo e não vai haver tempo suficiente para educar parcelas da população que poderiam colaborar”, aponta Paulo Kramer.

Mesmo grupos com grande expressão numérica, como os servidores públicos, têm dificuldade em formar alianças sólidas para garantir lugares dentro da política local. Com candidaturas difusas e sem planejamento conjunto mais amplo, falta mobilização para marcar espaço maior dentro da câmara, na avaliação dos próprios líderes do setor.

A exceção fica para a categoria de policiais civis. Com apoio concentrado, a corporação tradicionalmente emplaca nomes entre os distritais eleitos. Na atual legislatura, os deputados Wellington Luiz (MDB) e Cláudio Abrantes (PDT) são exemplos de nomes que fizeram parte do quadro da PCDF.

Por outro lado, Emerson Masullo aposta que alguns novos nomes podem aparecer, desde que estejam preparados para vencer algumas barreiras. “Esses candidatos novos vão ter dificuldade no sentido de se articular para se apresentar para a população do DF, até por conta de tempo de televisão e do fundo partidário. Mas alguém de fora da política tradicional em um partido com boa coligação e com base mais ampla pode ter mais chances de conquistar espaço.”

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