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Correio Braziliense

Moradores de Taguatinga convocam protesto contra insegurança na região

Assassinato de funcionário de supermercado que reagiu a assalto assustou comerciantes e moradores. Lojas vizinhas amanheceram com faixas pretas na fachada. Em Ceilândia, policial ficou ferido e um homem morreu em crime ainda não esclarecido


postado em 07/06/2018 06:00

Alexsandro Vieira da Silva trabalhava no Mercardo Três Irmãos, que não abriu ontem por causa do assassinato. Ele deixa dois filhos e a mulher (foto: Sarah Peres/Esp. CB/D.A Press )
Alexsandro Vieira da Silva trabalhava no Mercardo Três Irmãos, que não abriu ontem por causa do assassinato. Ele deixa dois filhos e a mulher (foto: Sarah Peres/Esp. CB/D.A Press )

A morte de um funcionário de supermercado que reagiu a assalto em Taguatinga Norte provocou comoção entre comerciantes da região. Alexsandro Vieira da Silva, 31 anos, trabalhava no Mercado Três Irmãos, próximo à praça do Bicalho. Na noite da última terça, ele usou uma arma para perseguir um homem que tinha roubado o estabelecimento e acabou baleado no peito. Ele será enterrado hoje, no cemitério da região administrativa. O velório começa às 10h, na Capela 1. Ontem, comerciantes colocaram faixas pretas em frente às lojas vizinhas ao local onde aconteceu o crime. O autor dos disparos, que tomou a arma da vítima para matá-la, permanece foragido.

Além de Alexsandro, outro funcionário do supermercado, Paulo Sérgio da Silva, 45, foi baleado na perna, mas passa bem. O delegado-chefe da 17ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Norte), Joás Rosa de Souza, responsável pelo caso, afirma que os agentes trabalham, no momento, para identificar os criminosos e buscam informações sobre a arma do crime. “Acreditamos que, além do criminoso que aparece nas filmagens, tenha outros envolvidos no assalto. Hoje, começamos a ouvir as testemunhas. E estamos levantando de quem era a arma e se era registrada”, completa o delegado.

O delegado destacou a importância de não reagir a um assalto. “Estamos identificando testemunhas, que serão ouvidas a partir de amanhã (hoje). A gente sempre recomenda que as vítimas não reajam. Mesmo que a pessoa acredite estar em vantagem, nunca sabemos realmente. A vítima não tem como saber, por exemplo, se o assaltante tem apoio de outras pessoas”, recomendou. “É um caso complexo, pois o autor que aparece nas imagens estava com o rosto coberto. Vai ser difícil identificá-lo. Mas acreditamos que vamos esclarecer o mais rápido possível. Se a população tiver informações que possam nos ajudar, pedimos que ligue no 197, de denúncias anônimas, ou na DP, no 3207-7533”, finaliza.

Alexsandro deixa dois filhos, um de 8 anos e um de 12, e a mulher, Deuselina Cardoso Vieira, 29. Eles estavam juntos há 13 anos, mas se casaram no civil há cerca de 1 ano e 6 meses. “A ficha está começando a cair. Meus filhos estão aéreos, atordoados. Estávamos no local, na hora. Nosso filho mais velho estava com ele no mercado e, no assalto, correu para o outro lado da rua. O caçula estava comigo, no carro. Quando a confusão começou, saí dali e deixei o menor com um casal de amigos e voltei. No caminho, ouvi os tiros. Tive medo. Quando cheguei, já tinham levado ele (Alexsandro) para o hospital. Ele morreu no caminho”, conta Deuselina.

Ela descreve o marido como pai exemplar e pessoa querida pelos amigos. “Não tinha ninguém que não gostasse dele. Tinha planos de montar um mercado para ele. Trabalhava ali há 17 anos. Eu quero justiça. Eu sei que nada vai amenizar essa dor. Mas ele (o criminoso) destruiu minha família e precisa pagar”, desabafa.

Morte em Ceilândia

A Polícia Civil investiga também um outro caso, em Ceilândia. O sargento da Polícia Militar Paulo Roberto Figueiredo ficou ferido na perna e Rafael Barbosa dos Santos, 32, foi morto com cinco tiros. À PM, o policial contou que reagiu a um assalto, por volta das 6h, na QNM 2. No entanto, agentes da 15ª Delegacia de Polícia (Ceilândia Centro), que investigam o caso, são cautelosos ao falar sobre o caso.

O delegado-chefe da DP, André Luis da Costa, afirmou que agentes encontraram bebidas alcoólicas no carro do sargento, que atua no 6º Batalhão de Polícia Militar. Além disso, três portas do veículo em que Paulo estava ficaram abertas, o que levanta a possibilidade de que ele não estivesse sozinho no momento da suposta troca de tiros. “Ainda é cedo para afirmarmos qualquer coisa. Agora, vamos tentar entender as circunstâncias com cautela. Pelas avaliações prévias, também podemos dizer que os disparos ocorreram fora do veículo. Rafael levou cinco tiros, um deles nas costas e talvez até a curta distância. Mas precisamos do resultado da perícia e do depoimento do militar”, explicou o delegado.

Na cena do crime, investigadores encontraram apenas a arma do sargento, um revólver .40, 10 cápsulas de munição no chão e uma mochila com um uniforme de trabalho próximo ao corpo de Rafael, que não tinha antecedentes criminais.  Paulo passou por cirurgia e não corre risco de vida.

Palavra de especialista

Ação consciente

Boa parte do protocolo da polícia de agir em situação de risco envolve, justamente, pensar nas pessoas ao redor. O valor do patrimônio não pode se sobrepor ao da vida. Em uma situação como essa, a pessoa deve se portar para que a situação acabe o mais rápido possível. O ladrão está em uma situação de estresse e pode reagir de modo agressivo. Não dá para pedir para a pessoa ficar calma, mas é preciso entregar os bens e não fazer movimentos bruscos. Depois, procurar as autoridades policiais para registrar ocorrência. O importante é preservar a própria integridade física. Já quem comete um linchamento está cometendo um crime. As instituições de Justiça é que precisam ser acionadas. Quem participa de um linchamento está cometendo um crime e pode responder por homicídio. Isso não se confunde com legítima defesa, é outra coisa. E, se a vítima não morrer, ainda assim é uma lesão corporal e também pode ser interpretada como tentativa de homicídio.

Marcelle Figueira, pesquisadora em segurança pública e professora da Universidade Católica de Brasília

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