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Correio Braziliense

Menino assassinado em Planaltina é enterrado hoje

Gabriel Santos Lopes, 11 anos, voltava da aula de futebol, com um grupo de amigos, quando foi atingido por uma bala no peito em Planaltina


postado em 09/06/2018 08:00 / atualizado em 08/06/2018 23:38

Mesmo baleado, o menino ainda conseguiu chegar em casa e receber o amparo da mãe: suspeitos ainda não foram identificados (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )
Mesmo baleado, o menino ainda conseguiu chegar em casa e receber o amparo da mãe: suspeitos ainda não foram identificados (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )

Mais uma criança pode ter sido vítima de guerra de gangues do Distrito Federal. Gabriel Santos Lopes, 11 anos, voltava da aula de futebol, com um grupo de amigos, quando foi atingido por uma bala no peito em Planaltina. O tiro saiu de uma arma apontada pelo carona de uma moto. A mãe foi a primeira pessoa a perceber que o filho estava ferido. No hospital, o menino não resistiu ao ferimento. O velório e o sepultamento estão marcados para hoje, no cemitério da cidade. A polícia ainda não prendeu nenhum suspeito do crime cometido no fim da tarde de quinta-feira. Em maio, uma briga de gangues de Ceilândia matou uma menina de 5 anos.

Parentes e vizinhos contam que, como de costume, Gabriel foi para a aula de futebol em uma quadra a poucos metros da casa. Todas as terças e quintas-feiras, ele participava do projeto social esportivo ministrado por Francisco Moreira, o Kiko — 70 crianças participam da escolinha. O professor conta que o garoto amava futebol. Era dedicado e presente. “Ele chegava e organizava os coletes para todos os colegas”, comenta. O carisma de Gabriel levou o pai de um dos amigos a comprar uma chuteira para ele, pois a mãe, Auriene Lopes, desempregada, não tinha condições. A criança morava com a mãe e tinha dois irmãos.
 
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )
 
 
O crime aconteceu quando Gabriel subia a rua de casa, no Condomínio Craveral do bairro Buritis 2, com os amigos. Dois suspeitos em uma motocicleta passaram em direção contrária aos meninos, e o carona efetuou os disparos. Testemunhas dizem que, na primeira tentativa, a arma teria falhado. Entretanto, houve pelo menos mais três tiros. Um deles atingiu o peito do menino. A tia Maria Lopes, 64, comenta que o sobrinho teria tirado outra criança da mira dos criminosos e acabou atingido. Ela conta, ainda, que Gabriel teve forças para chegar em casa. “O bichinho estava desesperado com a chuteira na mão. Ele rolava no chão sentindo a dor”, lamentou.

"O bichinho estava desesperado com a chuteira na mão. Ele rolava no chão sentindo a dor", Maria Lopes, tia de Gabriel (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )
Maria Lopes conta que, quando Gabriel entrou na residência, a mãe, Auriene, percebeu o sangue. O menino foi levado às pressas ao Hospital Regional de Planaltina por um vizinho que tinha carro, mas morreu na unidade hospitalar. Ontem, a família esteve envolvida com os trâmites para a liberação do corpo. Os pais contaram com o apoio de familiares e amigos para pagar as despesas funerárias.

Fontes policiais ouvidas pelo Correio afirmam que uma das hipóteses para o crime é guerra de gangues na região de Buritis 2. Agora, os agentes investigam quem, de fato, seria o alvo dos suspeitos. O irmão mais velho de Gabriel cumpre medida socioeducativa por envolvimento com drogas e, segundo apuração da reportagem, ele pertence à gangue do Pombal, outro bairro de Planaltina. Entretanto, família e amigos negam que a causa do assassinato tenha relação com o irmão de Gabriel, uma vez que ele está preso. “Muita gente fala que é gangue, mas não foi, eles queriam acertar outra pessoa, e o Gabriel estava no caminho. Poderia ter sido outra pessoa”, afirmou Maria Lopes.

Carinhoso

Gracineide Batista, ex-professora de Gabriel, lamentou a morte do aluno. Antes de fazer parte do projeto de Kiko, ele jogava futebol na escolinha dela. “Em 2016, perdemos outro aluno também vítima da violência. Com esses projetos, a gente tenta dar alternativas aos jovens da região. Gabriel era um menino bom e carinhoso”, lamenta.
 
"Ele chegava e organizava os coletes para todos os colegas", Francisco Moreira, o Kiko, professor da escolinha de futebol da vítima (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press )
A Polícia Civil informou que a 31ª Delegacia de Polícia (Planaltina) cuida do caso e que não poderia dar mais detalhes sobre o crime para não atrapalhar as investigações. O velório de Gabriel começa às 14h, e o sepultamento será às 17h, no cemitério de Planaltina.

Crimes contra a vida

Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e da Paz Social, Planaltina registrou 13 assassinatos em 2018, sendo 11 homicídios, um latrocínio e uma lesão corporal seguida de morte. No mesmo período do ano passado, foram 12 óbitos.

Análise da notícia

Também morre quem atira
» José Carlos Vieira
 
Gabriel Santos, 11 anos, Planaltina. Maria Eduarda Rodrigues de Amorim, 5 anos, Ceilândia. Luciana Evangelista Duarte, 39 anos, Planaltina. Rafael dos Santos Barbosa, 32 anos, Ceilândia. As cruzes são muitas nessa guerra... A banalização da morte, a facilidade em se obter armas de fogo e a impunidade estão levando todo o Distrito Federal — sim, a violência não alcança apenas Ceilândia e Planaltina — a um faroeste caboclo sem volta. O poder público precisa reagir! A sociedade precisa reagir! Você, caro leitor, também! Ações de desarmamento e de conscientização tornam-se urgentes!
 
Precisamos entender que balas perdidas, duelos no trânsito, acertos de contas e briga de gangues, tiros, mortes não estão longe de nossas casas, dos caminhos em que nossos filhos passam. Não é coisa de cinema ou do Rio de Janeiro. Essa doença está contaminando a todos. A facilidade em se adquirir ou “alugar” uma arma de fogo favorece a criminalidade. Dói noticiar as mortes de Gabriel Santos, Maria Eduarda Rodrigues de Amorim, Luciana Evangelista Duarte, Rafael dos Santos Barbosa e de tantas outras vítimas.
“Barbárie: a condição daquilo que é selvagem, desumano e grosseiro”. O DF não merece.

Memória

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

Morta dentro de casa
Em 21 de maio, uma briga entre gangues da Expansão do Setor O, em Ceilândia, resultou na morte de uma menina de 5 anos. Maria Eduarda Rodrigues de Amorim foi assassinada a tiros dentro da própria casa, na QNO 18. O alvo era o irmão dela, de 15 anos, que estaria envolvido com grupos criminosos da região. Na ocasião, outro irmão da vítima, de 19 anos, foi alvejado com um disparo na perna. Uma semana após o crime, agentes da 24ª Delegacia de Polícia (Setor O, em Ceilândia) apreenderam três adolescentes suspeitos de assassinar a garota. A investigação ainda procura um quarto acusado, Walisson Ferreira da Silva, 21 anos, único adulto entre os supostos responsáveis pela morte da garota.

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