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Correio Braziliense

Pedidos por paz e justiça marcam enterros de mortos em Planaltina

Familiares e amigos enterram, no mesmo dia e cemitério, as mais recentes vítimas da criminalidade em Planaltina: um menino de 11 anos e um jardineiro


postado em 10/06/2018 08:00 / atualizado em 09/06/2018 22:11

(foto: Isa Stacciarini/CB/D.A Press)
(foto: Isa Stacciarini/CB/D.A Press)

De um lado, a banalidade de uma morte por discussão de trânsito. De outro, o assassinato de uma criança como consequência da guerra de gangues. Em comum, homicídios praticados por disparos de arma de fogo em Planaltina. Familiares e amigos de ambas as vítimas — Francisco Jean Ferreira, 39 anos, e Gabriel Santos Lopes, 11 — se despediram ontem em cerimônias marcadas por emoção, revolta e cobrança por justiça e paz. Em nenhuma das situações os acusados estão presos. No caso do menino, sequer identificados.

O sepultamento de Jean ocorreu na manhã de ontem, no cemitério de Planaltina. Baleado na cabeça por um policial militar em 27 de maio, o jardineiro recebeu atendimento na unidade de terapia intensiva (UTI) do Hospital de Base do DF, mas não resistiu após 10 dias de internação. Ele morreu na quarta-feira, deixando mulher, três filhos e uma enteada de 10 anos. “Sem o meu marido aqui, nada vai ser igual. Eu espero que a justiça seja feita e que essa pessoa seja presa”, desabafou a companheira de Jean, Gabriele Alves de Lima, 26.
 
Francisco Jean Ferreira, 39 anos, levou um tiro na cabeça diante da família: discussão no trânsito(foto: Arquivo Pessoal)
Francisco Jean Ferreira, 39 anos, levou um tiro na cabeça diante da família: discussão no trânsito (foto: Arquivo Pessoal)
 

O casal estava junto na noite do crime, ao lado do filho de 4 anos e da enteada. A confusão com o PM da reserva Rubens Pereira do Nascimento, 52, começou na travessia de uma faixa de pedestre, na Vila Buritis. Rubens teria desrespeitado a sinalização ao não parar a motocicleta para a família atravessar a pista. “Ele (acusado) disse que lá não existia faixa, voltou na contramão e começou a discutir com o meu marido. Até que eles brigaram. O Jean foi baleado, caiu, mas teve forças para se levantar. A minha única preocupação era com os meus filhos e com ele”, explicou Gabriele. Jean levou um tiro na cabeça, e outro disparo atingiu a mulher no joelho. “Só fui ver que também estava baleada quando cheguei ao hospital”, disse.

No adeus ao companheiro, Gabriele tentou não deixar que o caixão fosse enterrado. “Não vai embora”, lamentou, aos prantos. O caçula era o mais emocionado. “Papai, eu quero o papai. Ele foi ao aniversário da minha irmã. Ele tem de ir ao meu”, pediu. Gabriele precisou ser amparada. “Ele era um companheiro, uma pessoa trabalhadora, preocupada com o serviço e os filhos. Dedicava muito tempo à família e nunca deixou de dar assistência às crianças. Era um rapaz honesto”, destacou o cunhado do jardineiro, José Ailton de Jesus, 57. A maioria dos presentes usava camiseta branca, com a frase: “Um pedaço de mim se perdeu quando você partiu”.
 
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 

Inocente

À tarde, parentes e amigos se despediram de Gabriel no mesmo cemitério. O menino morreu com um tiro no peito quando voltava da escolinha de futebol. Ele morava com a família no Condomínio Craveral, no bairro Buritis 2, a poucos metros de onde ocorriam as aulas. Segundo a investigação, assim que o treino de quinta-feira acabou, ele seguiu em direção à residência da família. No caminho, no entanto, dois suspeitos em uma motocicleta passaram na direção contrária. O carona efetuou pelo menos três disparos. Uma tia ouvida pelo Correio disse que Gabriel se jogou na frente de um colega, que seria baleado. O menino foi levado ao Hospital Regional de Planaltina, mas não resistiu.
 
Gabriel Santos Lopes tinha 11 anos: morto na saída da escolhinha de futebol, a poucos metros de casa(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
Gabriel Santos Lopes tinha 11 anos: morto na saída da escolhinha de futebol, a poucos metros de casa (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
 

Sem condições financeiras, a família contou com a colaboração da comunidade para realizar o sepultamento. A mãe, Auriene Lopes, recebeu o consolo de todos ao redor. O irmão mais velho de Gabriel conseguiu liberação oficial para comparecer à cerimônia. O adolescente cumpre medida socioeducativa por envolvimento em roubo. Crianças da escolinha de futebol também acompanharam o enterro. Todas levavam balões e usavam a camiseta do Grêmio, clube gaúcho responsável pela franquia em Planaltina. O professor do time, Francisco Moreira, 47, sentirá falta do exemplo de humildade do aluno. “Carinhoso e amoroso, ele era prestativo e se preocupava em fazer o bem. Sempre estava com aquele sorriso angelical”, disse. A equipe jogaria ontem pelo Campeonato Planaltinense, mas a partida foi adiada.

Amigo da família de Gabriel, Raimundo Lima Soares, 52, também perdeu o filho, de 20 anos, em 2007. Sem nenhuma passagem pela polícia, o jovem foi baleado por dois homens quando saía de uma lanchonete após a Festa do Divino. “Não tem jeito. A gente sempre lembra de tudo o que aconteceu. O menino (Gabriel) era muito bom. Vivia brincando de bola com os outros colegas na rua. A gente nunca espera uma coisa dessas, que matem um inocente”, desabafou. Natália Silva, prima, contou que o garoto sonhava ser jogador de futebol. “Era um menino muito alegre. Estudava, nunca repetiu de ano. É uma perda muito dolorosa”, frisou. A família doou os órgãos de Gabriel.

Crimes contra a vida

A cidade registrou 13 óbitos desde o início do ano. No mesmo período de 2017, 12, segundo a Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social. No Distrito Federal, em maio, 42 pessoas morreram assassinadas. Desde janeiro, a pasta registrou 217 mortes por homicídio, latrocínio ou lesão corporal seguida de morte. 
 

Investigações seguem 

Ambos os crimes são investigados pela 31ª Delegacia de Polícia (Planaltina). Sobre a morte de Francisco Jean Ferreira, a Divisão de Comunicação da corporação (Divicom) informou que “não foi decretado qualquer mandado de prisão contra o policial militar” que matou o jardineiro. O PM da reserva Rubens Pereira do Nascimento Rubens se apresentou à delegacia dois dias depois do crime. Ele entregou a arma e foi liberado ao alegar que os disparos foram acidentais.

No entanto, o militar pode ser indiciado e responder por homicídio e tentativa de homicídio. “Há algumas lacunas para serem preenchidas, mas os nossos agentes estão trabalhando nisso. Tudo será avaliado e, se necessário, haverá a prisão de Rubens e um pedido para cassar o porte de arma de fogo dele”, disse o delegado-chefe da 31ª DP, Pedro Moraes, em entrevista ao Correio na semana passada. O Centro de Comunicação Social da PM se limitou a informar que “as investigações são de responsabilidade da Polícia Civil. A PMDF está aguardando o término das investigações para se manifestar.”

Sobre a morte de Gabriel, a Divicom respondeu, por e-mail, que os suspeitos da morte da criança ainda não foram identificados. Uma das hipóteses para o crime é a guerra de gangues na região de Buritis 2, de acordo com fontes policiais ouvidas pela reportagem. Segundo apuração do jornal, o irmão da vítima pertence à gangue do Pombal, outro bairro de Planaltina. 

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