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Correio Braziliense

Jovem linchado no Parque: duas semanas após o crime, ninguém foi punido

A maior dificuldade dos investigadores está na falta de testemunhas. Não há quem fale, dê pistas, denuncie. É como se existisse um pacto pela impunidade daquele que entra para a lista dos mais brutais crimes de Brasília


postado em 10/06/2018 08:00 / atualizado em 10/06/2018 09:04

"Quando decidi voltar ao trabalho, na segunda passada, entrei no carro e não vi o Victor ao meu lado, o meu coração doeu muito", Íris de Melo, pai do menino linchado no Parque da Cidade (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
Pelo menos 20 jovens de classe média brasiliense, moradores do Plano Piloto, do Lago Norte e do Guará, mataram a socos, pontapés, facadas e garrafadas um garoto de 16 anos. Outros tantos assistiram ao linchamento no maior parque da capital do país, sem intervir. Muitos incentivaram, aos gritos de “Pega!”, “Finaliza!”, “Mata!”, acompanhados de inúmeros palavrões dirigidos à vítima. Apesar de se tratar de um local público, de haver tantos autores e cúmplices, e com a grande possibilidade de alguém ter filmado algo com um telefone celular, passaram-se duas semanas sem ninguém ter sido preso ou sequer indiciado. A maior dificuldade dos investigadores está na falta de testemunhas. Não há quem fale, dê pistas, denuncie. É como se existisse um pacto pela impunidade daquele que entra para a lista dos mais brutais crimes de Brasília.

A selvageria aconteceu por volta das 19h de 26 de maio, um sábado, no Parque da Cidade. Além dos tradicionais frequentadores, os atletas amadores, e dos clientes dos comércios, havia mais de 1,5 mil meninos e meninas em uma festa realizada no estacionamento público número 11 da área de lazer, em frente ao Carrera Kart, cenário da barbárie. 

Evento ilegal, sem alvará, sem segurança privada, sem equipe de enfermeiros e socorristas, mas que prosseguiu, por ao menos quatro horas, com venda e consumo de álcool. Isso apesar de o parque ter administração própria, rondas de policiais militares a cavalo e em picapes, equipes de vigilância patrimonial motorizadas, da ampla divulgação do encontro em redes sociais, de ele concentrar tanta gente e de emitir um som alto o suficiente para ser ouvido nas quadras vizinhas da Asa Sul e do Sudoeste.
 

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
A vítima 

» Victor Martins Melo
» Tinha 16 anos
» Morava no Setor de Chácaras do Lago Norte
» Era aluno do 8º ano de um colégio público da Asa Sul
» Torcia para o Corinthians, adorava ouvir música e dançar

“Triste ir para o rolê (festa) e ter que ver esse tipo de coisa. A gente se arruma e sai (...) para se encontrar com os amigos e se divertir e não sabe se vai voltar para casa inteiro”
Participante do evento onde houve o crime, em relato na internet 

A primeira festa

A vítima, Victor Martins Melo, havia saído de casa, no Setor de Chácaras do Lago Norte, pouco antes das 16h. Restrito a eventos sociais nos âmbitos familiar e escolar, o aluno do 8º ano de um colégio público da Asa Sul seguia para uma festa em local público, sozinho, pela primeira vez. Havia recebido autorização do pai, o comerciante Íris de Melo, 47, dois dias antes. “Ele queria muito ir a essa festa. Chegou a me dizer: ‘Pai, você sabe que eu não faço nada de errado.’ Ele tinha razão. O Victor nunca me deu dor de cabeça. Era um menino caseiro. Namorava a mesma menina havia dois anos. Preferia passar os fins de semana em casa, com ela. Durante a semana, estudava de manhã e, à tarde, vinha me ajudar na loja. Não bebia, não fumava, não arrumava confusão com ninguém”, lembra Íris, dono de uma loja de películas para vidro, na Asa Norte.

A mãe, Valdineia Martins Melo, 41, só soube da intenção do filho de ir ao evento no Parque da Cidade uma hora antes do início. E ele prometeu retornar entre as 19h e as 19h30. Com o consentimento de Valdineia, Victor deixou a casa feliz, de roupa nova, bem arrumado e penteado. Bonito, era extremamente vaidoso. Adorava música. Ouvia de quase tudo, do funk ao sertanejo. Curtir a música e dançar eram os plano para a festa no Parque da Cidade, onde também estariam colegas da escola e vizinhos adolescentes do Setor de Chácaras do Lago Norte. Quando o ponteiro do relógio marcou 19h, a mãe fez a primeira de uma sequência de ligações para o telefone celular do filho naquela noite de sábado. “A minha mulher telefonou até as 19h40, quando o aparelho do nosso filho deu sinal de que estava desligado”, conta o pai.

Assassinado e roubado

Vinte minutos depois, Valdineia recebeu a visita inesperada do dono de uma mercearia vizinha, ponto de encontro dos moradores da região. O homem disse a ela que um dos adolescentes da quadra acabara de mandar um recado aos pais de Victor. Pediu para irem ao Parque da Cidade, pois havia “algo de errado” com o filho deles. Valdineia ligou para o marido, que estava na loja. Íris foi para casa. “Sabia que algo grave havia acontecido, mas não imaginava que era tão grave. Fomos primeiro para o Hospital de Base. Não encontrando o meu filho, seguimos para a DCA (Delegacia da Criança e do Adolescente). Lá, falaram-nos que havia tido um assassinato no Parque, mas que a vítima era uma mulher. Estavam nos enrolando. Não queriam que fôssemos ao Parque. Queriam nos poupar”, relata Íris.

Pouco depois, um agente pediu para o casal ir ao Instituto de Medicina Legal (IML). “Nessa hora, falei para a minha esposa: ‘Mataram o nosso filho!’”, recorda-se Íris. Para chegar ao IML, o pai passou pelo Parque. Ao enxergar veículos e homens da PM e da Polícia Civil em um dos estacionamentos, por volta das 21h, ele parou e desceu. Encontrou, caído, ensanguentado, com marcas de violência, o filho morto, só de cueca e com a camiseta furada, rasgada e suja. Pelos policiais, soube do que havia acontecido, pelo menos a parte que se sabia até então. Que uma adolescente teve o celular roubado, apontou para um grupo de jovens e, na confusão, Victor foi detido por outros rapazes. Caído, recebeu chutes, socos e garrafadas. Perfurações apontavam, ainda, facadas. Por fim, roubaram-lhe a carteira, o celular, os tênis e a bermuda. Paramédicos do Samu fizeram massagem cardíaca na vítima, que não resistiu aos ferimentos.
 
(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
 
 

Fã de futebol que sonhava servir à Aeronáutica 

Victor Martins Melo era o filho do meio. Tinha um irmão de 21 anos e uma irmã, de 14. Nasceu em Luziânia, assim como o mais velho. Época em que os pais moravam em Valparaíso, e a cidade goiana sequer tinha maternidade. A vida da família girava entre os dois municípios do Entorno, mas o goianiense Íris de Melo e a goiana do interior Valdineia Martins de Melo queriam um lugar mais promissor para os filhos. Decidiram por Brasília, onde compraram um terreno no Setor de Chácaras do Lago Norte e montaram a loja de películas que viria a sustentar todos. Em seguida, adquiriram um sítio em São Gabriel (GO).

Na capital, nasceu a menina. Ela e os dois irmãos sempre frequentaram escolas públicas. Brincavam juntos. Nunca criaram problemas para os pais. Terminado o ensino médio, o mais velho decidiu cuidar do sítio da família. A propriedade se tornou ponto de encontro familiar aos fins de semana. Para lá, Victor levava a namorada, de 17 anos. Dos tempos em Goiás, além da música sertaneja, o garoto cultivava a paixão pelo Villa Nova. Sempre que a família ia a Goiânia visitar os parentes, o rapaz pedia ao pai para irem ao jogo do Dragão. O adolescente também torcia pelo Corinthians. Não perdia uma partida do time paulistano pela tevê.

“Todo dia de manhã, eu levava o Victor e a irmã ao colégio. Quando entrávamos no carro, ele pedia para sintonizar em uma rádio de notícia. Principalmente, às segundas, às quintas e às sextas-feiras. Queria saber os resultados dos jogos de futebol do dia anterior e os comentários. Quando decidi voltar ao trabalho, na segunda passada, entrei no carro e não vi o Victor ao meu lado, o meu coração doeu muito”, conta Íris. Ele também lembra da paixão do filho pela Aeronáutica. “Desde pequeno, o Victor não falava em outra coisa, queria servir às Forças Armadas, seguir carreira na Aeronáutica. Como ele faria 17 anos daqui a pouco, estava ansioso pela oportunidade.”

Dor e burocracia

Além de não ver o sonho do filho realizado, Íris teve frustrada outra vontade de toda a família, a de cremar o corpo do garoto. “Todos em casa concordamos com esse procedimento. Acreditamos que, com ele, podemos deixar o ente querido em um lugar belo, em paz. Mas não pôde ser assim com o Victor por causa da burocracia do Estado e da máfia das funerárias”, reclama. Depois de ver o filho morto no Parque da Cidade, na noite de sábado, o empresário voltou ao IML na manhã de domingo acreditando que, por meio de um trâmite rápido, poderia levar o corpo para uma cerimônia em Valparaíso, onde ocorreria a desejada cremação.

Mas, por se tratar de morte violenta, funcionários do instituto alegaram que seria necessária a autorização de um promotor de Justiça plantonista. “Nesse momento, o Estado não pensa na dor da família. O que mais queria era pular aquela etapa do luto, mas ela foi só se arrastando, enquanto apareciam funcionários de funerárias oferecendo os serviços e a administração (privada) dos cemitérios de Brasília aceitava só vender jazigo para três corpos. Não era o que a minha família queria”, observa Íris.

Com a falta de resposta do promotor, o domingo acabou, e os familiares de Victor passaram mais uma noite sem cremação nem enterro. O calvário se repetiu na segunda-feira. “Quando foi na terça-feira, vendo a minha família estraçalhada, decidi me render à máfia das funerárias. Mas optamos por um enterro na Cidade Ocidental (GO), onde poderíamos comprar uma cova simples para, quando tivermos cabeça e a Justiça permitir, fazermos uma exumação e realizar a desejada cremação, para deixar os restos mortais do Victor em um local de descanso, mas lindo”, comentou o pai do adolescente. “Por isso, quase ninguém soube de velório. Fizemos uma cerimônia rápida e simples, que reuniu poucos familiares”, afirma.

Desde o enterro, só Íris saiu de casa. “Tinha de trabalhar. Muita gente depende do meu trabalho”, frisa. Sedada, Valdineia não conseguiu sair do quarto. Recebe o amparo da irmã, única parente em Brasília. A irmã do menino só chora. “Ela fala do irmão o tempo inteiro. Lembra do que faziam juntos”, conta Íris. Talvez a menina volte à aula amanhã. O irmão mais velho também segue recluso. Pouco fala. O quarto de Victor continua intacto, como ele deixou em seu último dia de vida. Do que Victor saiu carregando de casa naquele trágico sábado, a família recebeu de volta apenas os documentos dele. Jogados por cima do muro da casa por um anônimo. Alguém que provavelmente estava na cena do crime. 
197
Serviço telefônico da Polícia Civil para denúncias
Denuncie
Quem tiver informações sobre os autores do linchamento no Parque da Cidade pode denunciar. Não é obrigado a revelar a identidade. A Polícia Civil tem quatro meios para os relatos, além do telefone 197. São eles:
site 
www.pcdf.df.gov.br; 
e-mail denuncia197@pcdf.df.gov.br; 
WhatsApp 
98626-1197
* A corporação garante o sigilo das informações.
 
"Dois dos meninos confessaram que foram à festa com a intenção de furtar celular, mas garantiram que o Victor não sabia disso", Ataliba Neto, delegado responsável pela investigação (foto: Luís Nova/Esp. CB/D.A Press)
 
 

Adolescente se contradiz

Os investigadores do caso duvidam que Victor Martins Melo roubou algo na festa do Parque da Cidade. Conclusão tirada após ouvir sete testemunhas, inclusive a adolescente de 16 anos dona do celular levado por desconhecidos. Em depoimento na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul), ela contou que estava com amigos, em uma roda, com o aparelho nas mãos, quando um jovem avançou no telefone. Ela teria resistido, mas outra pessoa a agarrou por trás. Quando ela largou o objeto, um dos assaltantes fugiu em direção ao parque de diversões Nicolândia. O segundo, de acordo com ela, foi agredido até a morte.

A jovem, no entanto, deu outras duas versões. No segundo depoimento, em companhia de um advogado, apontou Victor como responsável pelo roubo. “Uma testemunha fala que não pegaram o celular da mão da menina, mas de uma bolsa. Outra diz que pegaram o aparelho da mão da adolescente e passaram para outro envolvido, mas ninguém a agarrou. São versões muito contraditórias”, pondera o delegado Ataliba Neto, à frente da investigação.

Em um dos depoimentos, a garota afirmou que não se lembrava de tudo, porque estava sob forte efeito de álcool. E garantiu não ter condições de apontar agressores por causa da embriaguez. Mesmo assim, acrescentou que nenhum amigo bateu em Victor. Por fim, disse que nunca tinha visto a vítima até aquele trágico sábado. No entanto, os investigadores descobriram que a menina e o adolescente estudavam na mesma escola. Inclusive, faziam a mesma aula de dependência e, provavelmente, se conheciam.

O certo é que Victor nunca havia sido acusado de qualquer delito. Nenhuma testemunha o apontou como o autor do suposto roubo no Parque da Cidade. O Correio entrevistou 12 jovens que conviviam com Victor, vizinhos e colegas de colégio. Todos garantiram que ele nunca se meteu em qualquer tipo de confusão, quiçá delito. “De boa”, “tranquilo” e “do bem” foram alguns dos adjetivos usados pelo grupo para definir o caráter do menino.

Sem chance de defesa

O delegado Ataliba Neto acredita que Victor tenha sido assassinado por engano. Na festa, ele se encontrou com pelo menos sete colegas. Três deles têm passagens pela Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) por roubo de celular em festa. A mesma unidade especializada investiga o delito no evento do Parque da Cidade. A 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) segue responsável pela apuração do linchamento. “Dois dos meninos confessaram que foram à festa com a intenção de furtar celular, mas garantiram que o Victor não sabia disso. Um deles, de 16 anos, foi o responsável pela subtração. Na hora, Victor estava andando com um desses adolescentes, mas um pouco atrás. É provável que nem tenha visto o roubo”, reforça Ataliba.

Quando a adolescente acusou o roubo, começou uma gritaria e um corre-corre. Os sete colegas de Victor saíram em disparada. Sem entender o que acontecia, ele também correu, mas parou e voltou. Tentou se explicar. Não teve chance. “Quando viram que o Victor estava logo atrás, algumas pessoas se juntaram e o agarraram. Ele tentou se soltar, correu e, depois, teria voltado para se explicar. Nesse momento, segundo depoimentos, 20 pessoas o teriam agredido”, detalha Ataliba. “No mais, ela (a menina) e o Victor faziam uma dependência de português na mesma sala. Esse é outro ponto que reforça que ele não participou do roubo, porque como ia subtrair um pertence de alguém que ele veria no outro dia?”, questiona o delegado, ressaltando que “nada justificaria tamanha selvageria”.

Mandados cumpridos

Em 1º de junho, policiais civis cumpriram mandados de busca e apreensão contra nove pessoas, incluindo amigos de Victor e da garota roubada. Para o delegado, parte do grupo ligado à dona do celular pode estar omitindo informação. Ataliba acredita que alguém ligado a ela tenha participado do linchamento. “O lógico é que as pessoas desse grupinho tenham partido para cima do Victor, até mesmo para defender a amiga. Por causa das inconsistências (nos depoimentos), pedimos mandado de busca e apreensão, e as provas estão sendo analisadas”, explica o investigador. Embora não tenha o nome de suspeitos, o delegado garantiu que desvendar o caso é a prioridade da delegacia.

Assim como os agressores, observou Ataliba, os responsáveis pela festa no Parque da Cidade, intitulada Cala a boca e me beija, serão punidos. Como não tinham autorização para fazer evento em espaço público, eles responderão civilmente. Uma das pessoas apontada como a organizadora negou qualquer envolvimento com a confraternização. As publicações que convocaram para o evento, marcado para as 14h, foram apagadas das redes sociais. Após a festa, participantes, em sua maioria jovens, postaram fotos e comentários. Só um comentou a barbárie. “O cara morreu, os bombeiros passaram quase meia hora tentando ressuscitar o cara (sic.)... Triste ir para o rolê (festa) e ter que ver esse tipo de coisa. A gente se arruma e sai (...) para se encontrar com os amigos e se divertir e não sabe se vai voltar para casa inteiro”, escreveu.

Responsável pela gestão do Parque da Cidade, a Secretaria de Esporte, Turismo e Lazer do DF confirmou que o encontro não tinha permissão pública, mas não explicou por que durou pelo menos quatro horas. Apenas afirmou ter acionado a Polícia Militar assim que soube do evento. Quando a primeira equipe da PM chegou ao local, o linchamento havia acontecido.

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