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Correio Braziliense

Eixão Agro, na Asa Norte, aproxima produtores rurais e brasilienses

Federação da Agricultura e Pecuária do DF trouxe cerca de 50 expositores capazes de representar o agronegócio local


postado em 10/06/2018 16:33 / atualizado em 11/06/2018 08:42

Joana Tavares, 34 anos, com o filho, o pequeno Arthur Vinícius, de cinco meses:
Joana Tavares, 34 anos, com o filho, o pequeno Arthur Vinícius, de cinco meses: "queria que tivesse todos os domingos". (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
 

 

Por oito horas, ao longo do ensolarado domingo, a área do Eixão Norte (à altura das quadras 8 e 9) aproximou a convivência de consumidores e produtores do campo, com a realização do Eixão Agro, em nova edição, depois do êxito em 2017. “Quisemos trazer o ambiente rural para o urbano e, junto, uma amostra do cinturão verde da região que conjuga qualidade e produtividade e que integra 29 mil propriedades rurais. A iniciativa é uma verdadeira vitrine: o enfoque não é apenas comercializar produtos”, reforça Fernando Ribeiro, presidente da Fape, a Federação da Agricultura e Pecuária do DF, uma das entidades que trouxe cerca de 50 expositores capazes de representar o agronegócio local, responsável pela circulação de R$ 2,5 bilhões anuais. Conceitos de sustentabilidade, regionalidade e a consciência da alimentação saudável impulsionaram muitas das 12 mil pessoas estimadas de tomarem parte do evento.


“Deveria ter todo o fim de semana. Acho que a população fica, ilhada, isolada no centro da cidade, dependente de um comércio fechado. Há diferença em relação às vendas, nos comércios locais. Aqui se vê produtos de melhor qualidade, numa justa proporcionalidade, em termos de preço”, opinou o engenheiro Gilberto Franzoni, 50 anos. Banana, mamão, ovos, verduras, mexerica estavam nas encomendas de Gilberto e da mulher dele, a empresária Tânia de Almeida, 50 anos, ambos moradores da 209 Norte. “Nosso três filhos comem o que a gente põe na mesa — mas a gente não é radical: refrigerante é o que não entra lá em casa”, disse Tânia. Apontando para uma reconhecida rede de fast food, Gilberto comemorou: “Aqui está cheio, enquanto o capeta da alimentação ficou vazio”.

 

O engenheiro Gilberto Franzoni: satisfação com os produtos orgânicos, nas cercanias da casa(foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
O engenheiro Gilberto Franzoni: satisfação com os produtos orgânicos, nas cercanias da casa (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
 

 

Atuante no segmento da floricultura, o policial civil aposentado Lincoln Moraes deixou o Rio de Janeiro, há dez anos, para se dedicar, há quase três anos, ao cultivo de rosa do deserto, e atualmente, tem 900 plantas à disposição no Condomínio RK (perto da Torre Digital). “Eventos como este proporcionam reconhecimento — sou um dos únicos expositores da rosa do deserto. Por causa do tempo, com muito sol e tempo seco, há ótimas condições para as flores que precisam de, ao menos cinco horas de sol”, comentou o produtor. Com 561 tipos de cores catalogadas, a rosa do deserto é apreciada pela estética que chega ao caule (o cáudex) equiparado a esculturas naturais.


Com o pequeno Arthur Vinícius, de cinco meses, no colo, a nutricionista Joana Tavares, 34 anos, celebrava a existência do Eixão Agro. “É incrível a oportunidade — queria que tivesse todos os domingos. Se pode ser uma primeira opção de consumo, os orgânicos não têm preço, é algo mais saudável, uma ótima fonte de nutrientes, livre de agrotóxicos”, explicou Joana. Para além dos investimentos na fase da introdução alimentar vivida por Arthur, Joana correu para agradar o pai, à distância. “O avô dele segue uma tradição, e sendo o Arthur, o segundo neto, ele quer que mande o umbigo do Arthur para ser enterrado junto com um ipê branco. É uma tradição maranhense, para trazer propriedade”, disse a moradora da 208 Norte, que consultava preços das mudas de ipê, alinhadas junto com opções de cagaita, cajuzinho, jatobá e guapeva.

 

“Vivi a vida inteira na roça”, observou a ex-funcionária pública Rosário Almeida, moradora do Combinado Agrourbano de Brasília (perto do Riacho Fundo 2), com orgulho dos 20 produtos da Chácara Teimosa apresentados no Eixão Agro. Com a mãe dela, dona Irondina (83 anos), Rosário — integrada à produção de agricultura familiar — fez doces e biscoitos para o evento e, até 1h30 da manhã, confeccionou mais de 300 pamonhas, já acondicionadas para a venda, às 6h30. O contato direto com os consumidores estimulou a produtora, representante do setor de agroindústria. Entre os produtos mais nobres, ela trouxe doce de laranja da terra (a R$ 20) e (a rara e autêntica) marmelada, a R$ 15.


Praticante da agricultura ecológica (livre de agrotóxicos), ela se vale da prática conquistada em Coromandel (Minas Gerais), onde morou até 1994. Entre os exemplos de aprendizado, está a feitura de sabão, produzido com aproveitamento de óleo usado (R$ 1,50, cada barra). Pitaia, frutos cítricos, café e cuidados com a horta ocupam o tempo de Rosário, que também se dedica a plantas não convencionais, com o mangarito (tubérculo, avizinhado da batata-baroa) e a taioba, folha riquíssima em ferro e proteínas.

Organizada em centros batizados de Agro DF, Central de Artesanato, Turismo Rural, Do pé ao paladar (com alimentos de matéria-prima especial) e hortifrúti, a segunda edição do Eixão Agro transcorreu com desfile de teor informativo, numa ponte entre consumidores e produtores. Na barraca Sabor e saber da terra, por exemplo, representantes do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) explicavam sobre o consumo consciente de água e reabastecimento. Emater e Sebrae também encamparam o evento que destacou a importância dos 70% de terras rurais que compõem o DF e a atuação de 30 mil pessoas empregadas no setor agrícola.

 

Entre prateleiras com húmus de minhoca e fertilizantes, era possível pinçar dados curiosos para o setor agrícola. O destaque da qualidade do trigo brasiliense, em termos nacionais, é um dos elementos pouco sabidos pelo público leigo. Outro aspecto interessante diz respeito às exportação do segmento do DF dedicadas ao frango (na ordem de 65%). Grãos locais são muito comercializados com outros estados e programas que escoam produtos para escolas, rede socio-assistencial e órgãos governamentais atingem meta de movimentar quase R$ 20 milhões.

 

 

   

 

Troca saudável 

 

A administradora de banco de dados Ana Cristina Dornelas, 48 anos, há quatro anos conta que intensificou a adoção de dieta mais saudável. Consumidora da Ceasa, com aquisição de orgânicos e de produtos de agricultura familiar, ela trocou o costumeiro sábado pelo Eixão Agro. Com a secretária de férias, Ana Cristina correu para o Eixão para garantir a salada da família. Levou tomate, alface, gengibre, banana, abacaxi, mamão, goiaba e morango, tudo alinhado a problemas de saúde, recentemente, contornados.

 

A qualificação do trabalhador rural também teve espaço, por meio do Senar. Num dos estandes, Aílton de Lucena, 66 anos (quase 20 dedicados ao agronegócio), explicou para o público um esquema de Poupa Água, envolvendo um energético ciclo fechado estreitado entre peixes e plantas. “A matéria orgânica dos peixes é transformada em nutrientes para as plantas e brita e argila expandida filtram degetos, com ampla economia de água”, comentou Aílton de Lucena.

 

A apicultura teve lugar no Eixão Agro, com a presença do consultor do Sebrae Rogério Costa Matos, que além de produtor, representou a Associação Apícola do DF, além de se afirmar como instrutor do Senar e consultor do Sebrae. “Meu objetivo final é agregar valor à venda do mel, com comercialização de pão de mel, pirulito, hidromel (uma bebida alcoólica, próxima do vinho), licor de jabuticaba, mel composto (com extratos adicionados) e granola com mel”, explicou o apicultor que atua em Rio Preto (região administrativa de Planaltina) e no assentamento 26 de Setembro. À frente da marca local Cerradense, ele explicou que o mel local tem a qualidade incrementada, dada a qualidade das plantas do Cerrado e do clima seco, ambos fatores diferenciais para o mel brasiliense.  

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