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Correio Braziliense

Após 50 anos, irmãos que saíram do Ceará se reencontram em Brasília

Em encontro marcado pela emoção, supostos irmãos separados havia 50 anos buscam preencher as lacunas de uma história que o tempo quase apagou


postado em 11/06/2018 06:00 / atualizado em 11/06/2018 10:33

Cléia Maria, Francisco Inácio, Zélia, José e Iolanda Espírito Santo com Rita Maria Silva: lembranças coincidem, mas confirmação do parentesco depende de exame de DNA (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Cléia Maria, Francisco Inácio, Zélia, José e Iolanda Espírito Santo com Rita Maria Silva: lembranças coincidem, mas confirmação do parentesco depende de exame de DNA (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

O clima era de desconfiança e, ao mesmo tempo, de esperança. Seu José Espirito Santo Oliveira, 60 anos, aguardava ansioso, ao lado do irmão Francisco Inácio Oliveira, a suposta irmã chegar. Rita Maria da Silva chegou tímida na companhia do marido e dos três filhos. Ainda sem jeito, os supostos irmãos buscavam as semelhanças entre eles. Aos poucos, com perguntas e histórias, os três tentavam resgatar da memória as vagas lembrança da infância no Ceará.

As histórias se encaixam. José conta que veio para Brasília com a mãe, Maria das Dores, em 1959, em companhia de mais três irmãos. Com poucas condições financeiras, a mãe deixou duas filhas para trás: Maria Zélia Espírito Santo Correia e Terezinha. “A gente veio muito pequeno. Foram 16 dias na estrada em cima de um pau-de-arara para Brasília, e nossas duas irmãs ficaram lá”, afirma José.

Rita Maria Silva não segurou as lágrimas quando reencontrou as supostas irmãs(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Rita Maria Silva não segurou as lágrimas quando reencontrou as supostas irmãs (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


Rita, que os irmãos suspeitam ser, na verdade, Terezinha, tem histórico parecido. “Nós éramos muito pobres e minha mãe arrumou uma pessoa para ficar comigo. Eu lembro que morei com esse pessoal e que eles ficaram doentes, então um casal me pegou. Só me recordo disso”, diz.

Seu José explica que, em meados de 1967, a mãe voltou para o Ceará para buscar as duas filhas que deixara por lá. Porém, ao chegar ao local, encontrou apenas uma das meninas. “Quando minha mãe perguntou pela Terezinha, falaram que os idosos que estavam com ela tinham falecido e outra família tinha levado ela. Daí em diante, começou a aparecer um monte de informação desencontrada”, ressalta.

Desde então, a família não teve mais notícias de Terezinha. Enquanto isso, Rita seguiu a vida cheia de perguntas não respondidas. Ela afirma que veio para Brasília com um casal, em 1967, e que tem poucas lembranças do Ceará. Porém, Rita destaca que tem algumas memórias, como o nome Oliveira, algumas cenas marcantes e até o nome dos irmãos, Francisco e José. Coincidência ou não, o nome dos dois filhos de Maria da Dores.

Rita não sabe nem a própria idade ao certo. Sem documentos, foi registrada já jovem, pelo marido. A idade veio da aparência: no documento ela foi registrada com 16 anos, mas afirma que não tem certeza se está certo. “O homem, já falecido, que me pegou para criar até quis me registrar, mas a mulher dele não queria. Eu escutava ela falando que não ia registrar essa negra”, lamenta.
 
Na foto, a irmã desaparecida ainda na infância: a menina teria ficado no Ceará(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Na foto, a irmã desaparecida ainda na infância: a menina teria ficado no Ceará (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Semelhanças

Enquanto a conversa se desenrolava, os parentes buscavam o tempo todo ligação e até buracos na história. Toda informação, lembrança e principalmente detalhes eram fundamentais para desvendar o mistério. Mas um momento marcou o encontro. A família não segurou a emoção quando as outras três irmãs — Maria Zélia, Iolanda e Cleia — chegaram ao local. Sem dúvida, a esperança ganhou um espaço maior entre as incertezas que pairavam no ar e o comentário “parece muito” começou a dominar o bate-papo.

Os familiares identificaram semelhanças na testa, no nariz, no jeito e no olhar. Poderia até ser o calor do momento, mas parecia que Rita poderia mesmo ser Terezinha. As lágrimas começaram então a rolar. Até o irmão mais novo, que mora em Mato Grosso do Sul e acompanhava tudo por vídeo, via internet, não segurou a emoção.

A busca


Foram mais de 50 anos sem notícia alguma. Os irmãos já nem esperavam mais encontrar Terezinha. Ninguém jamais imaginaria que ela pudesse estar tão perto, morando no Distrito Federal (DF). A expectativa de que isso seria possível surgiu depois de uma iniciativa da advogada Pâmella Cristina de Oliveira, 25, bisneta de Maria da Dores.

Tudo começou com uma brincadeira no grupo da família no WhatsApp. “Recebi uma mensagem de uma pessoa que procurava a família e o nome dela tinha Oliveira. Então, joguei no grupo brincando e comentaram se não seria a Terezinha”, lembra.

A brincadeira despertou a curiosidade de Pâmella, que decidiu procurar na internet pistas que a levassem ao paradeiro da tia. “Encontrei o relato da Leânia sobre a mãe dela. Comecei a conversar com ela e a pegar as informações e vimos que a história de origem era a mesma”, afirma.

A funcionária pública Leânia Rangel, 35, filha de Rita, admite que pensou que tudo não passasse de um trote. Segundo ela, a família já estava há anos procurando alguém que tivesse deixado uma criança em Acaraú. “No primeiro momento, eu pensei que era um trote. Depois, a gente foi conversando e eu vi que tinha relação entre uma história e outra. Eu fui tocada no coração de que era uma coisa de Deus”, comenta.

Depois do contato e de várias trocas de informações, as duas decidiram promover o encontro. Por questões de saúde, a família decidiu não trazer Maria das Dores para a reunião. Segundo Pâmella, o encontro de Rita com a suposta mãe só deve acontecer quando eles tiverem certeza do parentesco.

Para isso, as duas famílias já planejam marcar um exame de DNA. Seu José frisa que, se ela for mesmo a Terezinha que eles tanto procuram, o churrasco já está garantido. Ele admite que está otimista, mas enfatiza que, caso Rita não seja a irmã dele, ela se tornará, no mínimo, uma grande amiga.

Rita também está otimista. Emocionada, ela não esconde a esperança de finalmente ter encontrado a família biológica. “Eu quero muito que essa seja a minha família, mas, se não for, meu filho já disse que não vai desistir. Ele não quer que eu parta dessa vida sem ver minha família”, completa.

 
Linha do tempo 

1959
Maria das Dores vem com quatro filhos para Brasília, deixando duas filhas no Ceará

1967
Maria volta para o Ceará para buscar as filhas, mas só encontra uma

1967
Rita, suposta Terezinha, vem para Brasília com um casal

2015
Leânia, filha de Rita, posta na internet a história da mãe na esperança de encontrar a família biológica

2018
Pâmella, bisneta de Maria das Dores, encontra o relato de Leânia e marca um encontro entre as famílias
 
 

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