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Correio Braziliense

Menina que caiu em buraco de 5m às margens de rodovia se recupera em casa

Responsável pelo resgate de Estella Holanda, sargento Cosme dispensou equipamentos de segurança na hora do resgate


postado em 12/06/2018 06:00 / atualizado em 12/06/2018 09:48

No colo da mãe, Francimara Holanda, a menina prefere a companhia da boneca e não fala sobre o acidente (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
No colo da mãe, Francimara Holanda, a menina prefere a companhia da boneca e não fala sobre o acidente (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

 
Despencar em um buraco de 5 metros de profundidade e ficar presa por mais de 15 minutos, parece não ter perturbado a pequena Estella Holanda, 2 anos. Um dia após o acidente, ocorrido no Setor de Chácaras Zumbi dos Palmares, no Morro da Cruz, em São Sebastião, a menina estava brincando em frente de casa, como se nada tivesse acontecido. Apenas alguns arranhões na face e outros nas pernas denunciavam a queda. Na cidade, Estella virou celebridade. Todos ficaram sabendo do incidente e se comoveram ao assistir o vídeo do resgate da menina. Ela foi salva por um bombeiro que prefere o anonimato.

No domingo, o pai de Esthella, o jardineiro Antônio Martins, 34, levou a filha, logo de manhã, para a casa de uma prima, no Morro da Cruz. A família costuma reunir-se no local para o almoço do dia de descanso. Próximo à residência, há uma casa em construção, onde um campo de futebol foi improvisado pela criançada da região. Dali, é possível ter uma vista panorâmica da cidade e um amigo de Antônio pediu para ser levado até o local. Assim que chegaram lá, Estella pediu para correr pelos arredores. O pai deixou, sem imaginar que havia buracos onde o imóvel estava sendo construído. Pouco tempo depois, escutou os gritos da menina, que caiu em um deles.

A mãe de Estella, a doméstica Francimara Holanda, 28, chegou no momento em que o acidente aconteceu. “Vi meu marido todo sujo, pensei até que ele tivesse brigado com alguém. Ele começou a gritar, falando que nossa filha tinha caído dentro de um buraco. Comecei a chorar na hora”, relembrou. A mulher relata que a filha chorava bastante e temeu que ela tivesse quebrado as pernas. “Meu marido e um amigo dele tentaram entrar na escavação, mas não conseguiram. Nesse momento, ligamos para os bombeiros”, diz. De acordo com a mãe, os socorristas demoraram cerca de 10 minutos para chegar .

Apenas um dos militares entre os socorristas era pequeno e magro o suficiente para entrar no buraco onde a menina caiu. Identificado como sargento Cosme, o homem, que virou herói, está lotado no 17° Batalhão do Corpo de Bombeiros de São Sebastião. Ele teve que dispensar os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para entrar no buraco, de cerca de 50cm de diâmetro, onde a menina tinha caído. Pessoas que estavam por perto auxiliaram os bombeiros a descer o socorrista de ponta cabeça e com os pés amarrados por uma corda. Assim, ele conseguiu puxar Estella pelos braços.

Um vídeo divulgado do momento do resgate, mostra que o sargento ainda tentou entrar no buraco usando um capacete, teve que dispensar até esse item. As imagens também mostram o resgate da menina. Abalada, sem parecer saber ao certo o que tinha acontecido e suja de terra, ela foi levada de ambulância para o Hospital de Base, onde os médicos constataram que não teve qualquer ferimento grave. A recomendação aos pais foi para que permanecesse em observação, mas em casa.

O Correio entrou em contato com a comunicação do Corpo de Bombeiros e visitou o 17ª Batalhão da corporação. No entanto, o sargento Cosme solicitou aos colegas de profissão que não informassem seus dados pessoais e deixou avisado que também não falaria à imprensa. Quem acompanhou o resgate contou que o bombeiro responsável pelo resgate da menina é pai e ficou emocionado ao salvar Estella. A mãe da criança lamentou não ter anotado os dados do sargento. “Na correria, só lembro de ter agradecido. Queria ter conversado com ele direito”, comentou.



Em observação

Francimara contou que a menina não quer falar sobre o ocorrido e parece não querer falar. “Alguns canais de televisão passaram o vídeo. Ela não conseguiu ver. Virou o rosto e saiu”, relatou. Por ainda estar em estado de observação, Estella não foi à creche ontem. Logo quando acordou, pediu para brincar em um parquinho da cidade, pedido que foi concedido pela mãe prontamente. “Eu nem fui trabalhar. Quase não dormi à noite. Preferi passar o dia com ela”, disse.

Estella é uma menina agitada, gosta de correr e de brincar na rua. Dispensa o uso de sandálias, mesmo com as insistentes recomendações da mãe para que não ande descalça. À reportagem, a garota, mesmo não falando muito, por conta da idade, fez questão de apresentar as bonecas. Organizou todas em fileira, sentou no meio e pediu para o repórter fotográfico do Correio registrar a imagem.

“Ela não gosta de televisão. Assiste de vez em quando. O negócio dela é correr”, comenta a mãe, orgulhosa pela garra da filha. A garota é a caçula da família. Divide a atenção dos pais com o irmão de 6 anos. Diariamente, ela entra na creche às 7h30 e sai às 17h30, horário em que os pais estão no trabalho. Na casa da família, dois cachorros de porte grande, fazem a guarda do lote. Eles latem para quem passa na rua, mas não assustam a garota. Ela entra no lote, os cumprimenta e segue calmamente.

No Bairro São Francisco, lugar onde a garota mora, e no Morro da Cruz, onde ocorreu o acidente, Estella é conhecida pelos moradores. O acidente era o assunto de ontem. “Eu chorei vendo aquele vídeo, dá um desespero na gente”, comenta uma vizinha que não quis se identificar. “Foi uma correria, todo mundo tentou ajudar de alguma forma. Parece que demorou horas. Ela é uma pequena guerreira”, comentou um homem que acompanhou o resgate e também não quis ter o nome divulgado.

Irregular 

No setor de Chácaras Zumbi dos Palmares, as residências não têm reboco e as pistas não são asfaltadas. No terreno da obra onde ocorreu o acidente, não há sinalização para qualquer tipo de perigo. No lote, os buracos, cerca de seis, são quase imperceptíveis. De acordo com o mestre de obras da construção, que não quis se identificar, as escavações foram feitas para instalação de vigas de sustentação para a casa, a ser erguida ali. Na manhã de ontem, operários colocaram tábuas para tapar as estruturas e garantiram que vão isolar a área. O Correio não localizou o responsável pela obra.

A mãe de Estella também esteve no local para tentar conversar com o dono da obra, mas não conseguiu. Ela solicitou aos trabalhadores que os buracos fossem fechados, evitando outros acidentes. Ela adiantou que não vai tomar nenhuma medida legal contra os responsáveis pelo lugar. “O importante é que minha filha está com saúde e nada de ruim ocorreu com ela. Agora, isso não pode voltar a acontecer com mais ninguém”, ponderou.

A Companhia de Desenvolvimento Habitacional do DF (Codhab) informou que a área do Setor de Chácaras Zumbi dos Palmares, no Morro da Cruz, está enquadrada como zona rural e, portanto, não é regularizada. De acordo com o órgão, a Secretaria de Estado de Gestão do Território e Habitação (Seheth) trabalha para a regularização fundiária do lugar.

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