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Correio Braziliense

Psicanalistas criam coletivo e fazem atendimento gratuito nas ruas do DF

Sentados em cadeiras de praia, o grupo de 18 psicanalistas atende gratuitamente quem passa pelo Conic e pela Rodoviária do Plano Piloto, dois dos locais mais movimentados da capital. Coletivo quer debater a democratização do acesso à psicanálise com a ocupação de espaços públicos


postado em 21/06/2018 08:00 / atualizado em 21/06/2018 15:32

Sentados em cadeiras de praia, os psicanalistas fazem, em média, 20 atendimentos por semana(foto: Thessa Guimarães/Psicanálise na Rua)
Sentados em cadeiras de praia, os psicanalistas fazem, em média, 20 atendimentos por semana (foto: Thessa Guimarães/Psicanálise na Rua)
Nívea Sousa, 25 anos, se sustentava com o salário de atendente até poucas semanas atrás. Na manhã de 16 de junho, um sábado, ela, agora desempregada, passava pela Rodoviária do Plano Piloto quando avistou a placa no mezanino da plataforma, entre uma e outra escada rolante. Em algumas palavras, estava a informação sobre o atendimento gratuito de psicanalistas no local. O espaço é simples, composto por cinco pares de cadeiras de praia. Não parece, é inusitado, mas ali são feitas sessões de terapia, no meio da Rodoviária do Plano Piloto.

Na prática, isso significa atendimento gratuito, colocando a psicanálise ao alcance de quem não tem condições de pagar por ela em consultórios particulares, ou não teria acesso nos poucos serviços públicos disponíveis. 

Com uma mochila nas costas, Nívea estava disponível e tinha tempo para ser atendida. Na frente dela, apenas uma pessoa, antes de chegar a sua vez de ser atendida. A moradora do Itapoã precisou dizer, apenas, seu nome para uma das integrantes do grupo. Sem muitos detalhes nesse primeiro contato. Sentou-se, mexeu um pouco no celular, esperou alguns minutos e logo chega a sua vez de ser atendida por um dos psicanalistas de plantão. 

Essa foi a primeira vez que Nívea foi escutada por um profissional. Ela, que se considera uma boa ouvinte das amigas, nunca tinha falado sobre ela mesma com alguém que pudesse escutá-la dessa forma. Ao final, o abraço entre a analista e a paciente sela o momento, como um agradecimento silencioso. Depois disso, Nívea volta para sua vida de antes, com a promessa de que retornará no fim de semana seguinte para mais uma sessão.

"Quando a gente conversa com um amigo, ele sabe da nossa vida, do nosso jeito e nos aconselha segundo aquilo que ele acha que é melhor. É diferente de quando a conversa é com um profissional, um analista, que vai te ouvir sem preconceitos e te aconselhar sobre o que realmente é o melhor para a sua vida", comenta a mulher.

Psicanálise na Rua


Há três meses, um coletivo de psicanalistas brasilienses de diferentes vertentes teóricas utiliza espaços públicos para realizar atendimentos gratuitos – às sextas-feiras, de 16h às 19h no Conic, e aos sábados, de 10h às 12h na Rodoviária do Plano Piloto –. Quem explica o conceito por trás da iniciativa é a psicanalista Thessa Guimarães. "Não apenas existe um preconceito com relação a procurar esse tipo de atendimento, como também carecemos de uma democratização do acesso a serviços e projetos que tratem da subjetividade", comenta.

Isso porque, explica ela, os espaços de tratamento da subjetividade são historicamente limitados à classe abastada, apenas para quem pode pagar uma análise. Uma consulta particular custa, em média, R$ 300 a sessão, de acordo com a Ordem Nacional de Psicanalistas (ONP). Item de luxo em um país no qual trabalhadores recebem um salário mínimo de R$ 937. “A crítica é sobre essa limitação geral de acesso à psicanálise”, reforça.

(foto: Pablo Martins/Psicanálise na Rua)
(foto: Pablo Martins/Psicanálise na Rua)
Os atendimentos são feitos em um ambiente aparentemente caótico. As conversas das pessoas acomodadas nos cinco pares de cadeiras de praias se misturam ao barulho das idas e vindas das pessoas que passam apressadas pela rodoviária. No entanto, embora o ambiente pareça desordenado, os cinco "divãs improvisados" se diferenciam da bagunça externa. São como bolhas, onde se pode contar e escutar as angústias de todas as ordens, contadas por gente de todo tipo. Pelas mãos (e ouvidos) dos psicanalistas, passa desde trabalhadores da rodoviária, a universitários, moradores de rua e crianças em situação de vulnerabilidade social.

"Atender na rua é totalmente diferente de atender dentro de um consultório. A gente procura construir um espaço analítico, de encontrar dentro da gente uma condição de atendimento que se estabeleça ali, no meio do caos”, comenta a psicanalista integrante do coletivo Mayarê Baldini. As interferências externas são percebidas e, às vezes, é impossível ignorar o barulho da vuvuzela nas mãos dos vendedores ambulantes. Apesar disso, há algo para além da interposição, e que protagoniza o processo, explica a psicanalista. "É essa troca, esse momento de falante, dessa pessoa que está se disponto a contar o sofrimento dele", detalha.

Ocupação do espaço público


O grupo, que conta com 18 analistas, se inspirou em outras iniciativas do início dos anos 90, em Brasília mesmo. Além disso, ao menos 30 projetos semelhantes funcionam em todo o Brasil. Além dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), os Núcleos de Atenção Psicossocial (Naps), do Ministério da Saúde, que também oferecem serviços parecidos. Mas, segundo o coletivo, o debate do Piscanálise na Rua se diferencia do aparelho governamental por questionar o oferecimento da escuta como uma intervenção pública.

"É principalmente uma proposta de intervenção, não entendemos como caridade. É uma resposta a este momento difícil que estamos vivendo no país. É a percepção de que temos que ampliar esse espaço de escuta para além do reduto burocratizado”, explica Mayarê. 

Outro objetivo do grupo é fazer com que o paciente crie um vínculo não apenas com o analista que o atende, mas com o grupo. "Os efeitos que um encontro como esse promove são imprevisíveis. A gente não sabe o que pode acontecer na vida da pessoa que faz uma sessão única, mas a gente aposta que esse momento forneça às pessoas uma oportunidade de repensarem, de se ocuparem de si”, acredita Thessa Guimarães. 

O método, no entanto, está longe de ser unanimidade entre os profissionais da área, que questionam a real eficácia de um tratamento oferecido dessa maneira, sem a construção de um vínculo entre analista e paciente. Apesar disso, a procura tem sido alta. Em três meses, aproximadamente 260 pessoas foram atendidas. Algumas depois de ficar sabendo do projeto pela internet, mas a maioria após ver o coletivo em ação, na rodoviária ou no Conic. 

Foi o caso de Vitor Matheus Paes Feitosa, de 19 anos. Ele teve sua primeira sessão no sábado (17/6) e diz que a análise superou suas expectativas. "Eu não sabia se ia ser tão bom, por ser na rodoviária, por ser de graça, mas chegando aqui eu me surpreendi com o atendimento. Foi tão bom que não queria mais parar de conversar", brinca. 

O jovem, que sofre com ansiedade e insônia, conta que pensou que a sua questão só poderia ser resolvida com remédios. Na análise, descobriu que pode ser tratado com outros métodos. “Foi exatamente como conversar com o melhor amigo, só que a diferença de ser uma pessoa preparada que está ali para te entender e mostrar um novo caminho". E agradece. "É muito importante esse projeto, principalmente aqui na rodoviária, onde tem muita gente precisando conversar com alguém. Saí com a sensação de leveza", finaliza.

Outras iniciativas


Em São Paulo, coletivo também oferece escuta gratuita à população na Praça Roosevelt(foto: Reprodução/Facebook)
Em São Paulo, coletivo também oferece escuta gratuita à população na Praça Roosevelt (foto: Reprodução/Facebook)
A iniciativa não é novidade entre a comunidade psicanalítica brasileira. Em São Paulo, o coletivo Psicanálise na Praça Roosevelt também oferece escuta gratuita à população, especialmente às pessoas em situação de vulnerabilidade social. Em Brasília, uma iniciativa parecida, chamada Consultório de Rua, coordenada pelo professor da Universidade de Brasília Richard Bucher, movimentou psicanalistas da cidade nos anos 90 até o início dos anos 2000, como relembra a professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB), Kátia Brasil. 

O projeto de Bucher acabou por falta de financiamento, mas a partir daí começou a crescer em Brasília a ideia de levar a psicanálise para outros espaços, especialmente motivado pelo cenário atual brasileiro. "Estamos vivendo no país um momento político muito complexo e doloroso, uma situação de perdas de direitos que tem fragilizado as pessoas", comenta a professora.

Seja no âmbito privado ou coletivo, o contexto político invade os consultórios e causam sofrimentos. Isso porque “ninguém sofre no vazio”, como afirma a psicanalista, mas envoltos por um contexto, em questões que se relacionam ao sofrimento de gênero, político “e muita violência, de todos os tipos, física, simbólica e institucional”, completa. Ter um lugar de acolhimento e escuta pode ajudar a entender, dar novo significado e aliviar os sofrimentos diários.

Outros atendimentos psicológicos gratuitos


O programa que mais se assemelha à terapia psicológica itinerante no governo é o da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, chamado Consultório de Rua, composto por três equipes multiprofissionais. No entanto, o alvo é apenas pessoas em situação de rua. "O atendimento é feito respeitando o espaço das pessoas e o desejo delas de ter algum atendimento”, explica a diretora de Áreas Estratégicas da Atenção Primária da Secretaria de Saúde, Aline Reis.

Outros serviços de atendimento de saúde mental e psicológica são oferecidos à população em nove Centros de Atenção Psicossocial (Caps), espalhados em todo o Distrito Federal e em 15 centros de saúde com atendimento psicológico. Além disso, Universidades e institutos de formação também oferecem esse tipo de serviço.

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