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Correio Braziliense

Polícia investiga se houve conivência de servidores em regalias a Estevão

Após identificar regalias ao senador cassado Luiz Estevão na penitenciária da capital federal, delegado responsável pela investigação tenta identificar como ocorreu a entrada de itens proibidos, como chocolates, pen-drives e tesoura


postado em 21/06/2018 06:00 / atualizado em 20/06/2018 22:45

"Falta agora identificar se houve conivência de servidores, como ocorreram esses privilégios, principalmente a entrada de itens proibidos, e posteriormente realizar um controle efetivo," Fernando Cesar Costa, delegado da Cecor (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )

A concessão de privilégios a detentos do Complexo Penitenciário da Papuda “cria uma situação de desestabilização do ambiente prisional”. Para o delegado Fernando Cesar Costa, é preciso identificar se houve a conivência de servidores nas denúncias investigadas na Operação Bastilha, deflagrada no último domingo. Em entrevista ao programa CB.Poder, ontem, o titular da Coordenação Especial de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado, aos Crimes contra a Administração Pública e contra a Ordem Tributária (Cecor), unidade da Polícia Civil do Distrito Federal, afirmou que existem mais inquéritos em andamento para apurar irregularidades no sistema penitenciário da capital. “Outras medidas serão desencadeadas para constituir um sistema prisional hígido, em benefício de toda a sociedade do DF”, disse.

A Operação Bastilha levou à descoberta de que o senador cassado Luiz Estevão, condenado a 26 anos de cadeia e preso há dois, tem regalias na Papuda. Os policiais apreenderam itens proibidos como pen-drives, chocolates e uma tesoura. Além disso, os investigadores descobriram que Estevão também mantinha uma espécie de escritório pessoal na penitenciária. Durante as buscas, os policiais encontraram pilhas de documentos relacionados às empresas e aos processos judiciais do empresário.

Na conversa, transmitida ao vivo pela TV Brasília, o delegado Fernando César explicou que a apuração, inicialmente, não tinha como objetivo apurar privilégios de figurões na cadeia. “Investigávamos denúncias de ameaças a agentes públicos, como juízes, delegados e promotores, praticadas por integrantes de facções criminosas. Nesse trabalho, deparamo-nos com a informação sobre esses privilégios. Para que eles existissem, alguém estava permitindo. Foi organizada uma operação extremamente sigilosa”, revelou o delegado. “Materializamos isso e encaminhamos à Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social e à Vara de Execuções Penais para que sejam tomadas as medidas administrativas com vistas à correção dessa situação”, acrescentou.

Fernando Cesar Costa explicou que, a partir da Operação Bastilha, será preciso conectar a administração da Subsecretaria do Sistema Penitenciário à investigação conduzida pela Cecor. “Falta agora identificar se houve conivência de servidores, como ocorreram esses privilégios, principalmente a entrada de itens proibidos, e posteriormente realizar um controle efetivo”, justificou. A operação levou à demissão do então subsecretário da Sesipe, Osmar Mendonça de Souza. Ele foi substituído pelo delegado Celso Wagner de Lima.

O chefe da Cecor defendeu que seja avaliada a razão de o senador cassado estar em uma cela apenas com o ex-ministro José Dirceu, enquanto outras têm até 11 detentos. “Se isso tiver sido decidido sem uma fundamentação plausível que justifique essa necessidade, pode caracterizar um privilégio. Cabe agora uma análise do fundamento utilizado. O que vimos foram dois presos ilustres, um deles, há até pouco tempo, com bastante influência sobre o país, sozinhos em uma cela em que poderiam ser alocados seis presos”, comentou Fernando.

Facções

Segundo o delegado, os pen-drives localizados na cela de Estevão foram enviados ao Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Distrito Federal. “Aguardamos o laudo pericial e o encaminhamento da cópia desses arquivos para que a gente possa analisar o conteúdo. Mas, quando se analisa privilégios, o conteúdo é dispensável, porque esses pen-drives não poderiam estar lá dentro”, argumentou Fernando Cesar. Como não havia computadores acessíveis aos presos, a polícia acredita que os objetos tenham áudios e vídeos, que poderiam ser acessados em televisões com essa tecnologia. “Mas isso não foi autorizado pela Vara de Execuções Penais”, frisou o chefe da Cecor.

Na entrevista, Fernando Cesar comentou sobre o trabalho de combate às facções criminosas. Ele afirmou que, graças à atuação da Polícia Civil, esses grupos não conseguiram se estabelecer no Distrito Federal. “A Polícia Civil tem muita expertise na identificação dessas associações criminosas. No começo dos anos 2000, havia a presença do PCC e do Comando Vermelho, não dentro do sistema penitenciário, mas em grandes crimes, como o roubo da agência JK do BRB. Com investigações, essas facções não encontraram terreno fértil no DF, porque havia uma repressão efetiva. Evitamos até ações no estado de São Paulo”, ressaltou.

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