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Correio Braziliense

Pintor e mestre budista Kazuaki Tanhashi expõe no Museu dos Correios

O pintor promove aulas e oficinas em diferentes países e conta que, em cada uma delas, tenta trabalhar a autonomia dos participantes


postado em 07/07/2018 07:00 / atualizado em 07/07/2018 18:09

O artista tenta quebrar barreiras do discurso para levar o conceito da tradição zen por meio das obras e oficinas que produz(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press. )
O artista tenta quebrar barreiras do discurso para levar o conceito da tradição zen por meio das obras e oficinas que produz (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press. )

Pintar a paz é apenas um dos ofícios exercidos por Kazuaki Tanahashi. Dos 84 anos vividos pelo artista japonês, ao menos seis décadas foram de dedicação à produção de obras da chamada caligrafia zen. Apresentados ao redor do mundo, os trabalhos do sensei ficaram conhecidos por resultarem de uma mistura de arte com ensinamentos da filosofia budista. Agora, as criações mais recentes estão em Brasília, na exposição Um Pincel. A mostra fica em cartaz até 22 de julho, no Museu dos Correios.

Para trabalhar com a arte de tradição zen, o processo criativo de Kazuaki envolve, ao mesmo tempo, foco e serenidade. Com o auxílio de largos pincéis, lentamente, ele produz traços fluidos em tinta acrílica colorida sobre a tela. O emprego de cores, por sinal, é uma das marcas registradas do artista. Não usuais na caligrafia japonesa, onde o preto prevalece, as pigmentações, além de assumirem um caráter de profundidade na obra, representam emoções e sentimentos.

A proposta fez com que se atribuísse a Tanahashi a criação do gênero de pintura em traço único e dos círculos zen multicoloridos (leia Saiba mais). Os quadros dele, em geral, revelam ideogramas japoneses. As imagens apresentam caracteres que se traduzem em termos como “consciência”, “espaço”, ou nos quatro elementos básicos do universo: água, terra, fogo e ar.

Diferentemente da escrita nipônica comum, a prática da caligrafia zen envolve, segundo Kazuaki, um processo de liberdade eximido da presença de fatores negativos. A criação abrange não apenas a concentração, mas também a independência e o relaxamento. “Toda arte zen se expressa de formas diferentes e, talvez, uma característica ímpar das caligrafias desse tipo seja a liberdade. Ela é muito poderosa, pois ficamos livres de técnicas e do conceito de estética”, afirma.

Com o auxílio de largos pincéis, lentamente, ele produz traços fluidos em tinta acrílica colorida sobre a tela(foto: Kazuaki Tanahashi/Divulgação)
Com o auxílio de largos pincéis, lentamente, ele produz traços fluidos em tinta acrílica colorida sobre a tela (foto: Kazuaki Tanahashi/Divulgação)
 

Ensinamentos


O pintor promove aulas e oficinas em diferentes países e conta que, em cada uma delas, tenta trabalhar a autonomia dos participantes. Os encontros começam com um resumo sobre estética e a técnica da caligrafia zen. Em seguida, Tanahashi reforça aos participantes que o trabalho não envolve pressão pessoal. “Relembro como podem aproveitar mais, em vez de serem autocríticos ou desencorajados a encontrar a alegria em cada movimento de pincel. Se quiserem criar uma bela linha, podem esperar um tempo. Mas, se aproveitarem o processo, não esperarão para ficarem felizes até que tenham criado uma linha que lhes seja satisfatória”, pondera.

Para a assistente social Tereza Silva, 55 anos, presente nas duas oficinas promovidas por Tanahashi em Brasília, os trabalhos do artista geram admiração. “Tive contato com a arte dele por acaso e fiquei encantada. Tem toda a questão da contemplação, e cada movimento é pensado. Para fazê-la, você precisa estar envolvido.” Ela acrescenta que, além da presença mental, é preciso foco na presença física. “Há até uma postura adequada que traz atenção. Ele (Kazuaki) diz que você tem de sorrir com o corpo inteiro. E cada ensinamento faz sentido. O processo é mais importante do que o resultado”, reforça.

(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press. )
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press. )

(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press. )
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press. )

Ao redor do mundo

A história de Kazuaki Tanahashi com a tradição zen começa entre as décadas de 1950 e 1960, quando era um artista iniciante e descobriu os escritos do mestre zen-budista Eihei Dogen. São os trabalhos da figura religiosa que fazem com que o sensei mescle a produção artística, os ensinamentos zen e a tradução das obras de Dogen com a caligrafia. Ele conta que fez isso porque, à época, estava à procura de um guia espiritual. “Dogen trouxe o ensinamento zen da China e estabeleceu a tradição monástica zen no Japão. Ele foi um grande pensador, poeta e escritor. Fiquei muito atraído pelo que ele produziu e comecei a traduzir os textos do japonês medieval para o japonês moderno. Eu tinha 27 anos. Levei mais 40 para finalizar o livro”, relembra.

As exposições de Kazuaki que resultaram desse processo de aprendizagem rodam o mundo há mais de 50 anos. O artista tenta quebrar barreiras do discurso para levar o conceito da tradição zen por meio das obras e oficinas que produz. Hoje, morando nos Estados Unidos, ele também se dedica ao ativismo, por meio do apoio a campanhas pela paz, pelo meio ambiente e a favor da cultura. Entre algumas das questões defendidas pelo pintor estão o fim da corrida armamentista, da produção de plutônio e da militarização das nações.

Para o curador da mostra Um Pincel, Fábio Rodrigues, Tanahashi é uma combinação de zelo com o mundo interno e com o mundo externo. O professor de meditação e artista plástico descobriu as obras do caligrafista há cerca de seis anos. “Cheguei a um ponto em que ficou claro que, se eu quisesse aprender mais, teria de ser com ele. Escrevi uma carta, contei minha trajetória e perguntei se poderia reaprender arte com ele”, relata. Tanahashi respondeu a mensagem com um convite para que Fábio passasse um mês no estúdio dele, na Califórnia. De 2016 – quando o encontrou – até hoje, Fábio tem se dedicado aos estudos da caligrafia zen com o mestre e promovido exposições de Kazuaki em diferentes cidades brasileiras.

Observação da mente

O termo “zen” é usado no Japão para se referir a uma tradição e filosofia religiosa tradicional chinesa (o ch’an). O zen, em geral, está relacionado a uma das vertentes budistas e costuma ser praticado por meio da meditação. O praticante se posiciona sentado e dedica o período de reflexão à observação pessoal e da mente.

Programe-se


Exposição Um Pincel

Data: até 22 de julho
Local: Museu Correios (Setor Comercial Sul, Quadra 4, Bloco A, Edifício Apolo)
Horário: de terça a sexta, das 10h às 19h; sábados, domingos e feriados, das 14h às 18h

Entrada franca. Classificação livre

Saiba mais

Confira o significado e a pronúncia de algumas palavras associadas à escrita japonesa e ao trabalho de Kazuaki Tanahashi

» Enso (“enssô”): Círculo produzido com uma pincelada contínua e espontânea. Prática frequente na caligrafia zen

» Kanji (“kândhí”): Caracteres ou ideogramas importados da China usados no idioma japonês escrito

» Sensei (“senssêi”): Termo usado para tratar respeitosamente quem alcançou certo nível de domínio sobre um assunto; mestre ou professor

» Shodo (“shodô”): A arte da caligrafia japonesa. Literalmente, “o caminho da escritura”

Conheça mais sobre o trabalho do artista pelos sites: www.brushmind.net (em inglês) ou www.artecontemplativa.com.

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