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Correio Braziliense

Artigo: Um jornal dentro do mato para servir uma cidade

Assim nasceu o Correio Braziliense, assim nasceu a TV Brasília. Assim nasceu a imprensa no Distrito Federal


postado em 01/08/2018 06:00 / atualizado em 01/08/2018 00:24

Por Ari Cunha
Ari Cunha com Juscelino Kubitschek: presidente recebeu o apoio dos Diários Associados (foto: Arquivo CB/D.A Press)
Ari Cunha com Juscelino Kubitschek: presidente recebeu o apoio dos Diários Associados (foto: Arquivo CB/D.A Press)

Espalhava-se por todo o país uma onda de pessimismo contra Brasília, e a oposição ao governo do dr. Juscelino Kubitschek, embora representada na administração da Novacap, bombardeava a obra por todos os lados, e não se dava ao trabalho de ver em que pé estavam as obras.

Dizia-se país afora que no Planalto Central estava uma malta de ladrões roubando o dinheiro do governo dos Institutos de Previdência e que não estavam construindo nada. O Congresso aprovou a data de 21 de abril de 1960 para a transferência da capital e, mesmo assim, a descrença era grande entre seus pares.

(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
(foto: Arquivo/CB/D.A Press)


Por sua vez, a Novacap estimulava os deputados, acenando com grandes negócios imobiliários, como era na época, a compra de mansões com prestações de 8 mil cruzeiros por mês. A maioria dos deputados não conhecia Brasília, e votava o projeto marcando a data da mudança, com olhos fitos, também, nas vantagens que adviriam. Imaginem, morar numa cidade em apartamentos mobiliados “ricamente” pelo governo, comprar carro financiado, e adquirir uma mansão para fins de semana, com 8 mil cruzeiros de prestações.

Havia em muitos a fascinação de morar numas casas de tijolos vermelhos, telhado bastante inclinado, paredes cobertas de eras, grandes jardins floridos, gramados verdejantes, enfim, uma mansão como convinha a um deputado. E muitos não esconderam a tremenda decepção quando, acompanhados de funcionários do DEP, iam visitar suas mansões, e entravam, cerrado adentro, vendo apenas os piquetes que determinavam os limites de seu terreno. Eles achavam que o presidente havia dado “um golpe”, mas na posição em que se encontravam não podiam reclamar. Ficava feio demonstrar que haviam sonhado demais.
Com Ronaldo Junqueira e Alberto Dines(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
Com Ronaldo Junqueira e Alberto Dines (foto: Arquivo/CB/D.A Press)

Enquanto isso uma equipe, como nunca se reuniu na história da humanidade, lutava contra o tempo e trabalhava dia e noite para entregar uma cidade pronta em três anos.

Na imprensa

Nos Diários Associados, como na imprensa de todo o Brasil, o apoio à obra era dado com entusiasmo, mas as restrições não deixavam de existir. Toda vez que o dr. Juscelino encontrava o dr. Assis Chateaubriand ou João Calmon, cobrava a instalação de um jornal em Brasília, que era sempre adiada. Os planos não poderiam incluir a construção de um jornal e de uma televisão numa cidade que não tinha comércio, a não ser o de madeira, da Cidade Livre.

Os levantamentos feitos não davam conta de rentabilidade para o capital empregado. Enfim, na ponta do lápis, com o papel na mão, ninguém poderia montar um jornal em Brasília.
No parque gráfico do jornal(foto: Arquivo/CB/D.A Press)
No parque gráfico do jornal (foto: Arquivo/CB/D.A Press)

Mas o dr. Edílson Varela, então superintendente em Goiânia, anteviu o que seria Brasília, e começou a desenvolver esforços para que a capital federal tivesse um jornal impresso em seu próprio território no dia da inauguração. Foi o pai da ideia e o grande entusiasta. De Goiânia, sempre vinha a Brasília e, ao atingir a colina próxima ao Riacho Fundo, quando vislumbrava o grande canteiro de obras antecedido pela poeira da Cidade Livre, sua exclamação era sempre a mesma: “Não é possível! São uns doidos”. Mas como ele vivia aquela doidice! Como ele entendia o que estava se passando no Brasil!

Dos entendimentos surgiu a ideia de reeditar o Correio Braziliense, que Hipólito José da Costa editara em Londres, em 1808. Hipólito era defensor da interiorização da capital do Brasil, e sua ideia, de 150 anos atrás, estava sendo concretizada. Foi assim escolhido o nome que o jornal levaria.

Mas a essa altura, já estávamos em 1959, e a cidade crescia a olhos vistos. Brasília era toda um canteiro de obras, e as nossas estavam atrasadas.

Em julho de 1959, o superintendente dos Diários Associados em Goiânia era o dr. Edílson Cid Varela, hoje nosso superintendente em Brasília. Nessa época, o dr. Edílson teve a incumbência de coordenar a instalação de um jornal e uma televisão no futuro Distrito Federal.

Começou então a revoada de técnicos a Goiânia e Brasília para estudar o local, as condições, orçar as despesas, convocar a equipe. A todo esse trabalho, Edilson Varela e Nereu Bastos controlavam pessoalmente o seu desenvolvimento e orientavam a equipe associada que já se formava para construir os dois prédios que abrigariam o jornal e a televisão.

O departamento de engenharia dos Diários Associados de Belo Horizonte foi encarregado da obra civil e, enquanto os meses se passavam, o dr. João Calmon via as dificuldades que seria a construção de dois prédios em tão pouco tempo. E sua missão era a mais difícil. Carrear dinheiro para Brasília, a todo pano, porque as despesas eram grandes demais.

Embora Nereu Bastos tentasse reduzi-las com seus empenhos de gerente, nada conseguia, e tanto ele como Edilson Varela se transformavam nos transportadores semanais do dinheiro que o dr. Calmon, à custa de muito suor, conseguia reservar para Brasília. Reservar, não. Fazer.

“Aumentem o número de candangos. Queremos a obra pronta. Reduzam as despesas. Esta obra vai custar um conto de réis de uísque por metro quadrado. Cale a boca, que quem bebeu tudo isso foi você e seus convidados”. Tudo isso eram indagações, afirmações e respostas.

Pedra fundamental

Em meio a tudo isso, a 12 de setembro de 1959, aniversário do dr. Juscelino Kubitschek, todos os diretores associados do Brasil chegavam a Brasília para, no dia seguinte, lançarem a pedra fundamental do que hoje é o Correio Braziliense.

Já de manhã, a planta não estava pronta, e o Chico Martins apertava o Oscar Niemeyer para desenhar qualquer coisa de um esboço para o jornal. Foi feito às pressas, e depois completado. Mas a solenidade seria às 16h, e já eram 10h, e ninguém sabia onde era o terreno. Fomos até lá num caminhão de areia. Era impossível lançar a pedra fundamental dentro do cerrado. Foi quando veio a solução. Faz aqui mesmo, gente! Pertinho do asfalto e dá ideia de que o prédio ficará na beira da estrada. Se for lá dentro o homem se apavora!

E foi lançada a pedra fundamental, ao lado do Eixo Monumental, numa solenidade que contou com a presença do presidente da República e do presidente da Novacap.
Quase seis horas da tarde, a solenidade havia terminado, o presidente já tomara seu helicóptero com o dr. Israel, quando chega o jipe da Novacap, com três pessoas dentro. Cadê a urna! Tira logo, que vai haver outra pedra fundamental no Centro de Recuperação! E lá levaram a urna.

TV Brasília

A esta altura, o lote da TV Brasília ainda era mata cerrada, e ninguém conseguira localizar, porque o DEP ainda não havia feito a demarcação da área. Nem a Novacap acreditava no que estava vendo. Em pouco tempo, a mata era derrubada, o canteiro era plantado, e a obra se iniciava. Enquanto isso, uma equipe, das mais destemidas, providenciava a ligação de micro-ondas entre Rio e Brasília, para transmitir pela tevê o espetáculo da inauguração. Isso não foi conseguido, mas pouco tempo depois, transmitíamos diretamente do Alvorada e do Palace Hotel para Rio e São Paulo, constituindo um espetáculo dos mais ousados da história da televisão no Brasil.

Assim começou a história dos dois prédios e das duas empresas. A 13 de setembro de 1959 era lançada a sua pedra fundamental e, voltando ao Rio, o dr. João Calmon não escondia sua preocupação em “instalar um jornal dentro do mato”. Era, de fato, difícil o acesso ao local onde está hoje o Correio Braziliense. Os jornais, em todas as cidades, sempre ficavam no centro urbano, à altura da mão dos seus leitores, anunciantes e das pessoas que normalmente fazem suas reclamações.

Mas, dizia-se na época, nós devemos estar mal-acostumados. Se foi feito o planejamento por quem entende, fecharemos os olhos à vizinhança e planejaremos o jornal dentro do mato.

Naquela época, seriemas e antas ainda rondavam pelo nosso terreno e veados eram vistos comumente pelas imediações do prédio. O acordar cedo era ao canto das seriemas, que já se acostumavam ao barulho das betoneiras, dos vibradores.

A 2 de janeiro de 1960 foi iniciada a obra do Correio Braziliense. As chuvas nesse ano foram terríveis, e ninguém poderia prever o fim da obra em tempo hábil. Eram dificuldades de toda ordem. Chuva e lama eram uma constante, e não havia um dia em que não chovesse. E como era água!
Os candangos da Geotécnica armavam uma barraca de lona amarela ao lado do tripé do bate-estaca e aqui e ali interrompiam a operação. Às vezes, quando o bate-estaca atingia a maior profundidade, uma nuvem de lama cobria todos, mas o trabalho não cessava. Das 6 da manhã às 23h, todos trabalhavam, todos davam o máximo de si pensando na obra.

As visitas

Aos sábados, havia um avião da Real que chegava às 9h e outro que saía às 17h. Era o avião dos que vinham reclamar, achar a obra atrasada, ruim o serviço, pedir para reduzir a despesa. Mas, ao mesmo tempo, era o avião dos que traziam o dinheiro, dos que justificavam depois onde ele estava sendo empregado. Era, enfim, um avião esperado com gosto.

Ademais, vinham as visitas, os convidados, e a gente, por alguns instantes, se transformava em guia turístico, deixava de almoçar na cantina dos candangos, na obra do Correio, e ia almoçar feijoada no Palace Hotel, onde fervilhava de visitantes. Era preciso proteção com o Erwin, maitre, ou com o Maurício Fernandes, gerente, para conseguir uma mesa que abrigasse 15 pessoas.

Era o dia de higiene mental. Às cinco horas da tarde, depois de falar em superquadra, Eixo Rodoviário, Eixo Monumental, Plataforma, Unidade Vizinhança e tudo o mais, vinham as despedidas. Vez por outra, no meio da semana, o dr. Edilson, que geria ainda O Jornal, dava um pulinho a Brasília para ver o que necessitávamos. E assim a obra andava.

O dr. Assis Chateaubriand não conhece o Correio Braziliense. No dia da chegada do presidente Eisenhower, ele esteve em Brasília, vindo no “Viscount” do dr. Juscelino, em companhia de dona Sarah e do embaixador Sette Câmara. Nós estávamos fazendo cobertura da chegada do presidente americano, e não havia ninguém para recepcioná-lo, que fosse integrante da equipe associada.

O Hindemburgo Pereira Diniz, entretanto, que a esta época já era cogitado para diretor-secretário da S.A. Correio Braziliense, foi o cicerone do nosso chefe. Saiu do aeroporto antigo, rodou por toda a parte e não conseguiu achar a obra do Correio Braziliense. De fato, àquela época, para vir do aeroporto até aqui, havia tantos atalhos e dificuldades que só uma pessoa habituada poderia acertar. Depois de rodar durante muito tempo procurando a obra, Hindemburgo rumou para a obra da TV Brasília, onde, por felicidade nossa, já estávamos e recebemos o chefe. Havia muita lama, manhã chuvosa. Ele desceu do carro, foi até o local onde está a torre, entrou pelo corredor, balançou a cabeça, e resmungou: “Os Diários Associado também estão cheios de Kubitscheks”.

Com efeito, dias depois escrevia seu último artigo antes de ser atingido pela doença, e o título era: “Uma tarde nos céus de Brasília”. Neste artigo, há um trecho onde se lê: “Como tudo aqui obedece ao ritmo titânico do presidente, estes dois Kubitschekzinhos queridos, Calmon e Varela, dentro de mais dois meses entregarão aos seus companheiros associados dois edifícios, um para uma estação de televisão e outro para um matutino”.


*Vídeo produzido em comemoração aos 40 anos da coluna "Lido, Visto e Ouvido", de Ari Cunha no Correio Braziliense

Enfim, o jornal

Mas o importante era entregar tudo pronto no dia 21 de abril. E assim aconteceu. Na TV Brasília, um mundo de técnicos remexia os complicados equipamentos, e as experiências em circuito fechado davam ótimo resultado. No jornal, anda ainda se podia fazer, porque não havia energia elétrica. A Novacap não acreditara, e o dr. Afrânio Barbosa tinha mil coisas para ver.

Faltava, para nós, um transformador, porque a corrente de alta-tensão já passava perto do terreno. Não temos, era a resposta. Não temos tempo para fazer em São Paulo, era a réplica.

Entre as baforadas do seu charuto, e as nossas aflições, o dr. Afrânio anunciava vagamente que “lá pelo dia 19 nós receberemos uns de Belo Horizonte, e darei um para vocês”.
— Mas dr. Afrânio, está em cima!

— Tenham calma, o mundo foi feito em sete dias; a cidade, em três anos; tem tempo demais.
Faltavam a rigor quatro dias. Finalmente, às vésperas da inauguração, chegou o transformador, instalado às pressas, para testar as máquinas. Na oficina, uma gravura era retirada na embalagem original. Cinco linotipos traziam, ainda nos caixotes, a marca Mergenthale; e a rotoplana, dividida em caixotes de pinho suíço, marcava a sua estreia também para o dia da inauguração da cidade.

A equipe vinda do Rio, sob o comando de Paulo Vial Correa, sentia o choque da diferença de quem faz um jornal no Rio de Janeiro — mas deu também o exemplo de como uma grande obra empolga e como se superam as dificuldades quando o trabalho é agradável e alegre. Havia em todos o espírito e a responsabilidade de uma equipe. Nos últimos momentos, não havia Edílson Varela, João Calmon, ninguém. Havia uma equipe pensando a mesma coisa. Cumprir com a palavra.

Assim nasceu o Correio Braziliense, assim nasceu a TV Brasília. Assim nasceu a imprensa no Distrito Federal.
 
Nota para o leitor: O primeiro jornalista associado a residir em Brasília foi Ari Cunha, colunista neste jornal. Sua vinda para o Distrito Federal muito cedo fez com que ele acompanhasse toda a vida do Correio Braziliense e da TV Brasília, desde antes de sua construção. Em 1959, reformava a Folha de Goiaz, também associada, quando recebeu do dr. Edílson Varela, superintendente em Goiás e coordenador das empresas em Brasília, a incumbência de representar, no futuro Distrito Federal, O Jornal e o Diário da Noite, do Rio de Janeiro. Foi acompanhando todos os passos do Correio Braziliense que o colunista Ari Cunha viveu os instantes áureos da construção de Brasília, e agora dá seu testemunho, anos depois, escrevendo a história do jornal. 

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