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Correio Braziliense

Com novo sistema, Hospital de Base pretende agilizar transplantes de rim

Com a renovação do credenciamento para fazer a retirada e o reimplante de rins, a maior unidade de saúde do DF planeja colocar em funcionamento um sistema para o paciente conseguir entrar na fila de cirurgia de forma mais rápida


postado em 04/08/2018 07:00 / atualizado em 04/08/2018 07:52

Sala de hemodiálise: há cerca de 2,2 mil pessoas em diálise no DF, mas só 280 estão na lista de transplante(foto: Emmanuel Pinheiro/EM/D.A Press - 24/7/03 )
Sala de hemodiálise: há cerca de 2,2 mil pessoas em diálise no DF, mas só 280 estão na lista de transplante (foto: Emmanuel Pinheiro/EM/D.A Press - 24/7/03 )
Silvânia Maria Florêncio, 36, ganhou um rim em 2010. O órgão deu uma nova vida à empregada doméstica. Ela voltou a fazer atividades simples do dia a dia, como beber água e viajar. Mas, até conseguir a cirurgia no Hospital de Base, a mulher travou uma batalha de cinco anos. Esperou seis meses para entrar na fila nacional de espera, até saber da compatibilidade de um doador. “Parecia que um milagre tinha acontecido”, ressalta. Com a renovação, nesta semana, do credenciamento que fornece autorização para a maior unidade de saúde do Distrito Federal fazer a retirada e transplante de rins, o hospital trabalha agora na criação de um sistema para o paciente conseguir entrar na fila de forma mais rápida.

Silvânia recebeu o diagnóstico da doença renal quando estava grávida da filha, hoje com 16 anos. A paciente passou dois anos em sessões de hemodiálise. “Tinha mais de 1 mil pessoas na minha frente e eu consegui um doador compatível. Isso mudou a minha vida. Há 45 dias, perdi um amigo que estava na fila do transplante, mas não deu tempo de receber o órgão. É um sofrimento muito grande”, observa.

Segundo a área de Nefrologia do Hospital de Base, o tempo médio de espera de um paciente renal crônico conseguir entrar na lista nacional de transplante é de seis meses. Para a pessoa ser aceita, é preciso estar clinicamente estável e, por isso, é necessária uma avaliação criteriosa, com uma série de exames. O objetivo da unidade de saúde é desenvolver um sistema e reduzir este tempo para dois meses.

A ideia da nefrologista Viviane Brandão, responsável técnica pelo transplante renal do Hospital de Base, é aproveitar o novo modelo de gestão da unidade de saúde para reservar vagas em exames aos pacientes. “Além das novas contratações, a direção está com o foco no trabalho integrado e isso ajuda muito a desenvolver um novo sistema que garanta ao paciente prioridade em exames essenciais para que ele entre na lista”, conta.

Há cerca de 2,2 mil pessoas em diálise no Distrito Federal, mas só 280 estão na lista de transplante. Por semana, os ambulatórios do Hospital de Base abrem 30 vagas para receber os pacientes que desejam iniciar o cadastro na lista nacional. 

“A recomendação é de que as pessoas com doença crônica renal procurem os centros para iniciar o procedimento para receber o rim. A sobrevida do paciente que transplanta é maior que a do que fica em diálise. Quanto mais rápido entrar em lista, mais oferta e maior é a chance de receber o órgão”, esclarece Viviane Brandão.

"Nunca passou pela minha cabeça precisar, um dia, de um rim. Hoje, ele é a esperança de eu viver mais 20 anos" José da Silva Lima, 48 anos, paciente (foto: Arquivo Pessoal)

Doação

A falta de doadores de órgãos é o principal fator que impede a celeridade das filas. “A resistência das famílias não é a doação em si, mas a aceitação da morte do ente querido. Trabalhamos para que os parentes confiem no diagnóstico de morte encefálica, o mais seguro da medicina, em que há três profissionais diferentes participando do mesmo procedimento, por meio de vários exames”, garante a diretora da Central Estadual de Transplante do DF, Daniela Salomão.

Por mês, uma média de 14 rins são recebidos em todo o DF, sendo que 64% vêm de doadores mortos e, por isso, precisam da autorização para serem cedidos. Segundo Daniela Salomão, 40% das famílias entrevistadas para autorizarem as doações se recusam a atender o pedido. “Se nenhuma família recusasse, praticamente dobraríamos o número de transplantes. Quando o parente consegue pensar com os olhos e coração de quem vai receber, se botando na posição do paciente, uma vida é salva”, afirma Daniela.

Presidente da Associação de Doentes Renais Crônicos, Transplantados e em Hemodiálise, Regina Coelho frisa que uma maior consciência de doação e ampliação de hospitais especializados em transplantes aumentam as chances de vida de doentes renais. “O transplante é uma das únicas coisas que ainda funciona. No Brasil, tem sido encabeçada por uma grande rede de apoio para que a família siga a vontade de quem se declara doador, porque, antes de morrer, a pessoa manifestava o interesse, mas os parentes não seguiam”, frisa.

Regina recebeu o diagnóstico de rins policísticos em 2000. Oito anos depois, teve perda total do órgão e começou o tratamento mais intenso com sessões de hemodiálise. Mas a doença acarretou em aneurisma cerebral e ela teve duas convulsões na máquina. Após quase um ano e meio, recebeu um novo rim. “O transplante é uma forma de tratamento melhor. Não cura a doença, mas dá mais dignidade ao paciente. Com outros lugares ampliando esse tratamento, as chances de as pessoas serem transplantadas aumenta”, ressalta.

José da Silva Lima, 48 anos, está cadastrado na fila nacional desde março. Morador de Rio Branco, no Acre, ele recebeu o diagnóstico de doença renal crônica em 2013. “Desde dezembro, estou ligado na máquina, quatro vezes por semana”, relata, ao contar sobre as sessões de hemodiálise. Segundo ele, há pacientes que aguardam na fila há 15 anos. Por isso, para José, a chance de vir para Brasília ser transplantado é uma oportunidade. “Nunca passou pela minha cabeça precisar, um dia, de um rim. Hoje, ele é a esperança de eu viver mais 20 anos. Representa a chance de uma nova vida. Significa eu estar vivo, mas, quanto mais demora, mais a esperança vai se acabando”, destaca.


Tratamentos

Há dois tipos de tratamento, a hemodiálise e a diálise peritoneal. No primeiro, o sangue é tratado pela máquina, mas não se consegue retirar o potássio. Por esse motivo, os pacientes são impedidos de beber líquidos e comer alimentos com potássio. O segundo pode ser feito em casa, mas é necessário preparar um ambiente, como um quarto. Nesse caso, a pessoa coloca um cateter, que serve para lavar o abdômen. Geralmente, o paciente prefere ser submetido a esse procedimento na hora de dormir.


Êxito desde 1982


O Hospital de Base foi o primeiro do DF a iniciar transplantes de rins, em 1982. Desde então, os cirurgiões da instituição realizaram mais de mil transplantes. Hoje, são 91 pacientes do hospital aguardando por um rim. Atualmente, o Hospital Universitário de Brasília (HUB) e o Instituto de Cardiologia também realizam o procedimento.

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