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Correio Braziliense

Confira os benefícios da equoterapia em diversos tratamentos

Método contribui para melhora da qualidade de vida de pessoas com deficiência e até mesmo para aquelas com deficit de atenção


postado em 06/08/2018 12:00 / atualizado em 06/08/2018 12:29

Dário Silva participou por anos da equoterapia e, hoje, é voluntário no IFB(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Dário Silva participou por anos da equoterapia e, hoje, é voluntário no IFB (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Autistas, portadores de deficiência motora ou mental, pessoas que sofreram paralisia cerebral e outros transtornos não incapacitantes, como o deficit de atenção e hiperatividade, podem encontrar na equoterapia uma forma de melhorar a qualidade de vida.
 
O Instituto Federal de Brasília (IFB) oferece o tratamento há 10 anos, no câmpus de Planaltina. Hoje, uma equipe multiprofissional, que conta com professores, fisioterapeutas, psicólogos e equitadores, atende cerca de 100 alunos. Desses, 90% são encaminhados pelo sistema educacional público, 10% são alunos do instituto e o restante, da comunidade. O candidato deve ter idade mínima de 3 anos e ser portador de alguma deficiência comprovada por laudo médico.

Os professores, na maioria oriundos da Secretaria de Educação, passam por treinamento específico para lidarem com os animais e com os alunos do ensino especial. Kátia Barboza, 49 anos, é uma delas. Ela decidiu unir suas grandes paixões: lecionar para crianças com deficiência e estar perto da natureza, em especial dos animais. “Estou aqui no IFB há 7 anos. É muito gratificante ver a evolução rápida dos alunos atendidos. Eu gosto muito de animais.”

As crianças são encaminhadas pelas escolas e recepcionadas pelos profissionais do IFB, que promovem uma triagem para que as necessidades de cada estudante sejam compreendidas e um programa educativo montado de maneira personalizada.
 
“Desejamos proporcionar o desenvolvimento pleno físico e psicológico das crianças e elevar as potencialidades que elas já têm. Há alunos com problemas motores, de fala e outros, com distúrbios psiquiátricos. Para cada um deles, é feito um estudo de caso, assim, são melhores atendidos em suas necessidades”, explica Kátia.

A anamnese feita pelo instituto determina o objetivo de cada aluno, que pode ser o aumento da concentração, melhoria na fala e locomoção. Quando o atendido alcança a meta traçada pela equipe, ele é desligado do programa para dar lugar às crianças que estão na fila de espera. “A gente precisa encerrar o atendimento ao aluno que alcançou o objetivo, pois são poucas vagas, e a fila de espera é grande. De toda forma, eles permanecem aqui conosco por cerca de quatro a cinco anos”, conta a professora. Os estudantes são avaliados semestralmente pela escola que fez o encaminhamento terapêutico.

Há mais de 10 anos frequentando o centro de equoterapia do IFB, Dário Silva, 23 anos, começou as aulas especiais com diagnóstico de transtorno do deficit de atenção com hiperatividade (TDAH). Ele já foi desligado do programa educacional e, hoje, atua como voluntário ajudando os demais alunos que chegam ao centro.
 
“Eu comecei bem pequeno, e foi fundamental para o meu desenvolvimento. Eu tinha problemas sérios de fala e aprendi muitas coisas aqui. Hoje, eu venho para ser voluntário, sinto que estou ajudando o próximo. Posso afirmar, com toda a certeza, que a terapia com os cavalos mudou a minha vida para muito melhor”, relata.
 
O professor Rodrigo Paulino esclarece que os ganhos com a prática são inúmeros. Para as crianças com problemas de mobilidade, por exemplo, o movimento tridimensional estimula o desenvolvimento motor(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O professor Rodrigo Paulino esclarece que os ganhos com a prática são inúmeros. Para as crianças com problemas de mobilidade, por exemplo, o movimento tridimensional estimula o desenvolvimento motor (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

Preparação para lecionar 


Os professores que acompanham o atendimento passaram por capacitação para lidar com o cavalo e frequentaram curso de doma racional e equoterapia. Segundo o professor Rodrigo Paulino, 43 anos, todos têm condições de preparar o animal para ser usado na terapia. “Nós mesmos fazemos a doma toda pautada na conversa, não utilizamos métodos de castigo", afirma. "O terapeuta aqui é o cavalo, nós só o auxiliamos", completa.

Rodrigo esclarece que os ganhos com a prática são inúmeros. Para as crianças com problemas de mobilidade, por exemplo, o movimento tridimensional do cavalo estimula o desenvolvimento motor. “O cavalo quando anda se move em três direções: para cima e para baixo; de um lado ao outro; e para frente e para trás, o que imita os movimentos que são sentidos pela criança no útero da mãe", explica. 
 
Além da preparação, a escolha do animal é importante. Cada aluno terá uma necessidade que deverá ser suprida pelas características do equino, como explica Katharina Metzler, zootecnista e psicopedagoga da Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Quarto de Milha (ABQM).
 
“Há cavalos mais tranquilos, agitados, mais ou menos sensíveis, e todos podem participar da terapia, a depender do objetivo do praticante. Também deve ser analisada a anatomia do animal, se ele largo ou estreito, dá passos largos ou curtos, se a andadura é mais forte ou suave. Todos esses fatores são analisados para cada pessoa atendida em equoterapia.”
 
Veridiana Tranjan Real em disputa de prova dos três tambores: superação(foto: ABQM/Divulgação)
Veridiana Tranjan Real em disputa de prova dos três tambores: superação (foto: ABQM/Divulgação)
 

Paratleta supera desafios

Veridiana Tranjan Real, 23 anos, é embaixatriz da categoria paratleta de três tambores. Veri Real, como é conhecida, nasceu com paralisia cerebral que comprometeu o movimento das pernas e dos olhos. Hoje, ela enxerga apenas com um olho.
 
Veri começou, aos 18 meses, as sessões de equoterapia, essenciais para o desenvolvimento motor dos membros inferiores. Aos 3 anos, passou por uma cirurgia nos tendões e precisou ficar engessada durante 5 meses. Com o auxílio da fisioterapia e do cavalo, ela pôde andar aos 3 anos e meio.
 
Sempre ligada ao animal, a paratleta continuou cavalgando até os 15 anos, quando teve de fazer uma nova intervenção cirúrgica, dessa vez, uma operação complexa, que consiste na quebra dos ossos da perna e corte dos nervos, a fim de promover a correção dos membros atrofiados. A recuperação foi penosa e demorada, foram dois anos sobre a cama, sem conseguir ficar de pé.

A mãe de Veri, Andrea Tranjan Real, hipista e competidora no circuito dos três tambores, foi a inspiração para que a filha, em 2016, entrasse em contato com a ABQM para solicitar a criação da modalidade para pessoas com deficiência. Imediatamente, o conselho do grupo concedeu o pedido de Veridiana e, no mesmo ano, ela começou a competir nas pistas da associação e por rodeios no Brasil.
 
Coordenadora da categoria, a veterinária Natasha Marcondes explica que, para oficializar a participação de pessoas com deficiência nas provas competitivas, foi necessário criar um regulamento. “Assim que a gente recebeu o e-mail da Veri nós nos reunimos e criamos o comitê para regular a prática. Nós avaliamos os equipamentos de auxílio, por exemplo, a Veridiana utiliza velcro nas pernas para dar maior sustentabilidade ao corpo e o uso do capacete, que é indispensável a todos os paratletas”, detalha. Hoje, existem cinco competidores inscritos na categoria e Veri é pioneira do esporte.

A veterinária esclarece que, por se tratar de uma competição, não é permitido acompanhamento de guia. Entretanto, há cuidados especiais que devem ser levados em conta. “A prova só começa quando os dois guardiões montados estiverem em pista, eles são treinados para garantir a segurança do competidor e, se for necessário, acudir o atleta se ele cair ou se machucar.”
 
Natasha afirma que a divisão dos paratletas não é feita em decorrência do grau de limitação nem da deficiência. “Nós separamos as classes por velocidades, que são quatro: a primeira é o passo e trote; a segunda, o trote e galope; a terceira é o galopinho; e, por último, a quarta velocidade é a corrida. Nós não separamos os competidores por sua história de vida, ou seja, sua deficiência”, diz.

Veridiana tem grandes sonhos. Além de competir na modalidade de paratleta, deseja concorrer na categoria ampla feminina. “Para mim, o cavalo é vida, é felicidade e é superação. Os três tambores são a minha profissão, quero andar por todo o Brasil levando a competição aos rodeios", diz. “Eu quero mostrar que todos somos capazes, que quando você vir um obstáculo, você tem que pensar em ir pra cima e mostrar a sua coragem. O que eu sempre penso é em ir além”, completa, com entusiasmo.

Uma nova esperança


O neurocirurgião José Roberto Pereira, 47, enfrentou, há 12 anos, a luta contra um câncer metastático na tireoide. Dois anos após vencer a doença, sofreu um infarto motivado pelo excesso de peso. Ele era chefe da neurocirurgia em um hospital na sua cidade, São Luís. A cobrança era intensa e os hábitos não eram saudáveis. Dois anos após ter sofrido o problema cardíaco, enquanto realizava uma cirurgia, ele passou por um acidente vascular cerebral (AVC), que deixou metade do seu corpo paralisado.
 
Esta foi a gota d’água para que o médico decidisse mudar radicalmente de vida. Sem a movimentação de metade dos membros, ele encontrou na equoterapia uma esperança e uma motivação para fazer tudo diferente. “Eu tinha uma vida pouco saudável, não valorizava as coisas importantes, não cuidava de mim e nem da minha família. Buscava o sucesso profissional, mas não buscava a vida. Eu deixei meu cargo e me mudei para Tupã (cidade do interior paulista)”, conta.

Com a recuperação, o neurocirurgião evoluiu e passou a disputar a categoria amadora de três tambores. Ele perdeu 42 quilos, restabeleceu a saúde e passou a viajar com seu cavalo Astro, participando de competições no estado de São Paulo e, na última semana, participava do 41° Campeonato Nacional Quarto de Milha, da ABMQ, que ocorreu em Londrina (PR).
 
Ele ainda atua na área médica e afirma indicar a terapia a seus pacientes. “É imprescindível a equoterapia no tratamento de lesões cerebrais e na paralisia cerebral. O movimento tridimensional do cavalo se assemelha ao andar do humano e estimula a coordenação e o equilíbrio do paciente que perdeu os movimentos”, explica José.
 
As prioridades mudaram e o ritmo de vida também. "Mudei minha filosofia, dou valor ao que é realmente importante. Depois de tudo o que passei, estar em cima de um cavalo não tem preço, a melhor coisa é a sensação de estar vivo. Ser feliz é muito fácil, basta deixarmos o orgulho e a vaidade e passarmos a valorizar cada instante”, conclui, emocionado.
 
* Estagiária sob supervisão de Mariana Niederauer 
 
A repórter viajou a convite da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM)

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