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Correio Braziliense

Vítimas sofriam ameaças constantes em ao menos 9 casos de feminicídio no DF

Ao menos nove das 19 brasilienses assassinadas este ano pelos companheiros em crimes de ódio a mulheres eram ameaçadas ou agredidas constantemente por eles. Seis vítimas haviam conquistado o direito à proteção


postado em 10/08/2018 06:00 / atualizado em 09/08/2018 22:00

Familiares e amigos no enterro de Adriana Castro Rosa Santos, em Taguatinga, ontem: relatos de agressões e ameaças por parte do ex-marido e assassino, que a impedia de sair e de trabalhar(foto: Alan Rios/Esp. CB/D.A Press)
Familiares e amigos no enterro de Adriana Castro Rosa Santos, em Taguatinga, ontem: relatos de agressões e ameaças por parte do ex-marido e assassino, que a impedia de sair e de trabalhar (foto: Alan Rios/Esp. CB/D.A Press)
Em ao menos nove dos 19 casos de feminicídio no Distrito Federal este ano, as vítimas sofriam ameaças ou agressões constantes dos companheiros. Em seis deles, as mulheres haviam conquistado medidas protetivas. A quantidade de registros de crimes de ódio contra moradoras de Brasília que resultaram em morte, até a primeira semana de agosto, é a mesma do número contabilizado nos 12 meses de 2017.

Os três casos mais recentes de feminicídio no DF, ocorridos em três dias seguidos (domingo, segunda e terça-feira), se enquadram nessa realidade. As vítimas haviam sido agredidas fisicamente pelos companheiros. Carla Graziele Zandoná, 37 anos, procurou a Justiça e conseguiu medidas contra o agressor, mas voltou a se relacionar com ele. Adriana Castro Rosa Santos, 40, e Marília Jane de Sousa Silva, 58, não procuraram proteção.

Carla caiu da janela do terceiro andar do bloco T da 415 Sul, na noite de segunda-feira. O marido, Jonas Zandoná, 44, é suspeito de tê-la jogado ou empurrado. Ele está preso por homicídio qualificado com agravante de feminicídio. A vítima havia denunciado Jonas duas vezes à polícia por agressões físicas. Em 2017, recebeu medida protetiva contra o marido. Ele deveria ficar a mais de 300 metros dela e era proibido de fazer contato por telefone ou internet, mas, em abril, o processo foi arquivado e ambos retomaram o relacionamento iniciado há 21 anos.

Menos de 12 horas depois, o policial militar Epaminondas Silva Santos, 51, assassinou Adriana com um tiro na cabeça. Ele se matou em seguida. O crime aconteceu na porta da casa da mãe de Adriana, no Riacho Fundo II, onde ela estava e decidiu morar após se separar do PM. O casal deixou dois filhos, de 11 e 8 anos. O homem impedia a mulher de sair, de trabalhar e a ameaçava.

“Pedestal”

“Começou com atitudes bem pequenas, de não deixá-la sair, ter muito ciúmes. Ele a queria em um pedestal só dele. No fim do relacionamento, a minha irmã já não podia nem mais trabalhar. Tinha que ficar sempre em casa e, mesmo assim, ele ainda era muito agressivo”, contou o irmão da vítima, o supervisor comercial Marcelo Adson de Castro, 35 anos.

Adriana só conseguiu deixar a casa onde morava com o ex-companheiro, em Samambaia, e ir procurar abrigo na casa da mãe, no Riacho Fundo II, com apoio de amigos e familiares. “No dia do assassinato, ele chegou de moto dizendo que entregaria os livros escolares do filho. Ela abriu o portão e ele atirou”, contou Marcelo.

Adriana nunca teve coragem de denunciar o marido. “Ela tinha um coração tão bom, que até com ele se importava. Um dia antes do assassinato, a Di (apelido da mulher) ligou para a irmã do Epaminondas preocupada com o estado dele, sem ela”, comentou Marcelo. Ele contou que o policial ficava mais violento quando bebia.

Epaminondas disse ao irmão de Adriana que mataria ela e os filhos, caso terminasse o relacionamento. “Como o autor também veio a óbito, a extinção de punibilidade é quase certa pelo judiciário”, observou o delegado Amarildo Fernandes, chefe da 29ª Delegacia de Polícia (Riacho Fundo).

Adriana foi enterrada no fim da manhã de ontem, no cemitério de Taguatinga. Os filhos do casal estavam no funeral e receberam o conforto de parentes e pessoas próximas. “Meu sonho é que minha mãe esteja em lugar melhor”, disse o menino, mais velho, à Solange Silva, 52, amiga da família. As crianças estão com a avó materna e também recebem cuidados dos tios.

Em silêncio

No Recanto das Emas, o taxista Edilson Januário de Souto, 61, matou a companheira Marília, no fim da tarde de domingo, na casa dos dois. Edilson fugiu logo e se apresentou à polícia dois dias depois. Moradora do Recanto das Emas, Marília comentou com pessoas próximas que não tinha coragem de denunciar o marido, de quem apanhava regularmente. “Testemunhas disseram que ela não acreditava que ele seria capaz de uma coisa dessas (matá-la)”, comentou a delegada  Simone Alencar, adjunta da 27ª Delegacia de Polícia (Recanto das Emas) e responsável pelo caso.

O casal não tinha filhos em comum. Marília foi enterrada na Paraíba, onde mora a maioria dos familiares dela. Na terça-feira, a delegada remeteu o inquérito ao Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios (MPDFT), que tem até cinco dias para oferecer a denúncia à Justiça. O homem está preso preventivamente. “Ele não confessou nem negou o crime. Disse que só se manifestaria em juízo”, explicou Simone.

Onde buscar ajuda

» Central de Atendimento à Mulher
Telefone: 180.

» Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam)
Telefone: 3207-6195
Endereço: 204/205 Sul

» Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas)
Dez Centros de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) acolhem denúncias e fazem os encaminhamentos necessários para a superação da situação de violência tanto da vítima quanto dos familiares.

» Superando a Violência (antigo Pró-Vítima)
Oferece atendimento e proteção às vítimas de violência e também aos familiares. Horário de funcionamento: das 8h às 18h. Existem núcleos no Paranoá, na 114 Sul, em Ceilândia, no Guará e na antiga Rodoferroviária.

» Centros Especializados de Atendimento às Mulheres (Ceam)
Há quatro espaços de acolhimento e atendimento psicológico, orientação e encaminhamento jurídico à mulher: na 102 Sul, em Ceilândia Centro, no Jardim Roriz, em Planaltina e na Casa Flor, em Taguatinga Sul. Funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h.

» Casa Abrigo
O acesso se dá por encaminhamento da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), demais delegacias, Casa da Mulher Brasileira ou por ordem judicial. O endereço da Casa Abrigo é mantido em sigilo. Recebe mulheres e filhos vítimas de violência para permanência por um determinado tempo com proteção e sigilo.

» Dispositivo Viva Flor
Atende até 100 mulheres sob medidas protetivas de urgência expedidas pela Justiça. Toda vez que se sentirem ameaçadas, elas acionam a ferramenta, que envia um chamado direto para o telefone 190 da Polícia Militar. 
A escolha das beneficiadas pelo dispositivo é feita pelas Varas de Violência Doméstica.

» Nafads
São 11 unidades do Núcleos de Atendimento à Família e aos Autores de Violência Doméstica (Nafavds). Eles oferecem acompanhamento psicossocial às pessoas envolvidas em situação de violência doméstica, tanto às vítimas quanto aos autores. Funcionam em Brazlândia, Gama, Núcleo Bandeirante, Paranoá, Planaltina, Samambaia, Santa Maria, Sobradinho 
e no Plano Piloto.


"A minha irmã já não podia nem mais trabalhar. Tinha que 
ficar sempre em casa e, mesmo assim, ele ainda era muito agressivo”

Marcelo de Castro, irmã de Adriana, morta por PM

"Se um homem é solto rapidamente, tudo que a penalidade 
causará é revolta. Ele vai voltar para casa e descontar na mulher”

Tânia Navarro, pós-doutora em História da Mulher
 
 

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