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Correio Braziliense

Conheça histórias de fascínio por coleções compartilhadas por pais e filhos

Filhos acompanham hobby paterno e destacam a importância da relação de amizade e respeito que surge com essa parceria


postado em 10/08/2018 06:00 / atualizado em 10/08/2018 08:15

André Gonçalves e André Marchi: colecionadores de HQs e aventuras em feiras como a Comic-Con(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
André Gonçalves e André Marchi: colecionadores de HQs e aventuras em feiras como a Comic-Con (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Carros, cédulas, moedas, gibis, estátuas e bonecos... A lista não para. O colecionismo levado a sério exige investimento de tempo, dinheiro e dedicação. Cada conjunto de objetos, alvo dos aficionados conta histórias, guarda lembranças e ostenta uma aura de esmero e beleza artística. Muita história pra contar também. Esse universo fica ainda mais especial quando a relação entre pais e filhos entra na equação. Aí, o hobby fortalece laços de amor e amizade. Cria memórias inusitadas e inesquecíveis que contam até com viagens para buscar aquela peça mais rara, cédula mais antiga, edição histórica de uma revista ou livro, ou uma figurinha limitada em feira especializada.

Uma dessas histórias que misturam coleções e o amor entre gerações é a de Gilberto Bailão, 76 anos. Sócio-fundador da Associação Filatélica e Numismática de Brasília, ele coleciona moedas e cédulas antigas. Também reúne, com orgulho, mais de mil postais da capital. Perdeu a mulher quando os filhos, Marina Cavalini Bailão, 34, e Gilberto Cavalini Bailão, 33, tinham respectivamente, 7 e 6 anos, e os educou praticamente sozinho. O amor de mais de 60 anos pela história da moeda, porém, só passou para o filho mais novo recentemente. Há quatro anos, para ser mais preciso.

O filho explica como as coleções do pai passaram a fazer parte da história da família. “Ele comprava coleções para mim e para minha irmã, quando éramos crianças. Acabávamos guardando. Não entendíamos o valor sentimental e histórico daqueles objetos”, recorda Gilberto Cavalini.

“Sempre deixei os dois à vontade. Nunca forcei. Mas, meu filho começou a me ajudar com a loja e tomou gosto. Eu me sinto feliz”, afirma Gilberto Bailão. A dupla leva a sério o trabalho. As moedas e cédulas, eles ensinam, ajudam a contar a história do Brasil e do mundo, e falam tanto de economia quanto de política.

Algumas vezes, para buscar itens da coleção, o pai teve que ir longe. Esteve em Portugal e na Itália, por exemplo, para pesquisar, comprar e trocar cédulas. “(O colecionismo) é uma coisa que traz conhecimento para as pessoas. A gente fica satisfeito de ter alguém para acompanhar”, assume Bailão. O filho emenda: “Eu me orgulho de seguir os passos do meu pai. Isso faz com que o dia dos pais se torne uma data ainda mais importante”, declara o filho.

Formação de caráter

Outra coleção que conta histórias é a de carros antigos. A do servidor público José Maria de Andrade, 58, começou em 1990, com um Aerowillys de 1965. O número de veículos cresceu com o tempo e, hoje, soma 12 automóveis, 11 nacionais e um importado, com marcas clássicas entre os itens, como Karmanguia, Puma, Fusca e Bianco. “É uma coleção que remete a minha infância”, conta o engenheiro Lucas Mindêllo de Andrade, 33, filho de José Maria. “Saíamos, eu e minha irmã, Adriana. Íamos de carro com vários amigos para o Zoológico de Brasília, com meu pai dirigindo, e isso movimentava a infância, trazia uma sensação de pertencimento”, recorda.

“Meus filhos estão ligados à coleção desde muito novos. Quando minha filha fez 18, a presenteei com um Puma rosa, e, desde que meu filho tinha 15 anos, somos parceiros em ralis de carros antigos. Disputamos 12 provas e vencemos cinco. Ele é tão entusiasmado quanto eu. É uma relação espetacular e me traz muito orgulho. Queremos que os filhos sejam nosso espelho no que temos de melhor”, emociona-se José Maria. “Um carro antigo é um bem muito sensível, e precisamos respeitá-lo. Você olha e tem um parafusinho que tem 50 anos e nunca foi trocado. É preciso cuidado. É uma coisa que levo para tudo na vida, e que veio dessa relação do meu pai com os carros, cuidar dos outros e entender que possuímos limites que devem ser respeitados”, explica o filho.

Herói dos quadrinhos

Sagas clássicas das editoras Marvel e DC Comics e encadernados completos de heróis da era de ouro como Flash Gordon e Fantasma estão entre os títulos mais caros do colecionador de revistas em quadrinho, o pediatra André Gonçalves de Araújo, 48. Ele busca os itens mais raros em feiras, sites da internet e viaja com o filho, André Marchi Araújo, 11, para eventos especializados como a Comic-Con XP (CCXP), em São Paulo, por exemplo. Possuem cerca de 2,5 mil exemplares e, juntos, eles também começaram a colecionar action figures de personagens da cultura pop.

As viagens e feiras estão entre as atrações prediletas do garoto. Mas o que ele gosta mesmo é de revirar a coleção paterna e segreda: “Quando meu pai sai, eu dou uma de espião. Mexo nos objetos para aprender mais. É uma coleção bem organizada, sempre deixo do jeito que estava. Meu pai é inteligente, carinhoso e muito cuidadoso comigo. Compartilhamos muitas histórias por conta das revistinhas. As viagens ficam na memória e as feiras também”, revela o menino.

Graças ao hobby do pai, André vem se interessando cada vez mais por leitura. “Eu não coleciono muito, mas meu pai tem os quadrinhos e também sempre compra livros. O (livro) que mais gosto é O conde de Monte Cristo” (Alexandre Dumas), diz. O médico pediatra fala com satisfação da relação do filho com a coleção de quadrinhos. “Ele gosta de desenhar e fica impressionado com o impacto visual de algumas imagens. Viajamos para a CCXP no ano passado e ele também curtiu muito. Principalmente os pôsteres. É um momento muito nosso, em que ficamos juntos quase que o tempo todo”, orgulha-se.

Para saber mais

Bonecos ou peças de arte?

Heróis e outros personagens da cultura pop povoam o universo dos action figures (figuras de ação, em tradução livre). Podem ser figuras articuladas, ou estatuetas. Para os colecionadores, os exemplares são verdadeiras peças de arte, tratadas com esmero e com lugar especial na estante ou cristaleira. Existem edições limitadas e graus de detalhamento diferentes, por exemplo. Mas ainda há quem considere as peças como mero brinquedo.

Cédulas, moedas e selos

O termo “numismática” se refere tanto ao estudo histórico e artístico de cédulas e moedas quanto ao hábito de colecioná-los. Cada peça guarda em si informações valiosas sobre a época que foi lançada. Os comerciantes e colecionadores avaliam ainda o grau de conservação do objeto na hora da compra, venda ou troca. Já a filatelia está relacionada ao colecionismo de selos postais. Nesse caso, existem aficionados com coleções amplas ou com predileção por temas específicos.

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