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Correio Braziliense

No meu coração cabem dois pais

Famílias mostram como é possível viver em harmonia quando entra em cena uma segunda figura paterna: o padrasto


postado em 12/08/2018 08:00 / atualizado em 12/08/2018 09:20

Lucas com os
Lucas com os "dois pais", João Marcelo e João Pereira: mais amor para compartilhar (foto: Mariana Machado/Esp CB/D.A.Press)

Ver os pais se afastando costuma ser uma experiência difícil que pode ser piorada quando aparecem novos relacionamentos e surgem as figuras da madrasta e do padrasto. Mas, quando a convivência é harmoniosa, psicólogos apontam que os filhos do casal separado só têm a ganhar: mais amor e pessoas para se relacionar.

Maria Aparecida Penso, professora do curso de mestrado e doutorado em psicologia da Universidade Católica de Brasília, está desenvolvendo uma pesquisa em guarda compartilhada e explica que os casais que se separam devem colocar as mágoas de lado para que os filhos não saiam prejudicados. “A relação conjugal acabou, mas o papel parental tem que ser preservado. Você deixa de ser marido, mas continua sendo pai. Deixa de ser esposa, mas continua mãe.”

Na avaliação dela, é preciso segurar os ciúmes e dialogar abertamente com os filhos, explicando que a chegada de um novo cônjuge não vai prejudicar o relacionamento de ninguém. “O amor não se divide, se multiplica: você pode amar todos. Os adultos saberem lidar com isso e permitirem que a criança goste da madrasta e do padrasto é fundamental”, afirma Maria Aparecida.

Para ela, é essencial que o padrasto não tente assumir o papel de pai. Foi justamente esse o raciocínio que seguiu o defensor público Francisco Coriolano, 77 anos, quando se casou com a advogada Railda Novais, 64, três anos após o divórcio. Em 1990, ela e o servidor público Benedito Macedo, 71, deram fim a um casamento de 19 anos. Na época, os três filhos do casal, Luciano, Cristiano e Michele, eram adolescentes e viram com receio um padrasto entrar na vida familiar.

Para o filho do meio, o bombeiro militar Cristiano Macedo, 44, o sentimento inicial foi de desconfiança. “Meu pai sempre foi muito educado, então eu me preocupava que minha mãe ficasse com uma pessoa grosseira. Mas a convivência mostrou que ele era uma pessoa de bem e admirável. Hoje, é como se fosse um outro pai para mim”, avalia Cristiano.
 
Francisco Coriolano (de verde) e Benedito Macedo com os filhos, Thiago, Cristiano, Michele e Carolina(foto: Bárbara Cabral/Esp CB/D.A.Press)
Francisco Coriolano (de verde) e Benedito Macedo com os filhos, Thiago, Cristiano, Michele e Carolina (foto: Bárbara Cabral/Esp CB/D.A.Press)
 
Francisco acredita que o fato de trabalhar na Vara de Família o ajudou a se aproximar com cuidado. “Todo filho deseja o bem dos pais e quer vê-los juntos. Quando outra pessoa entra na relação, há uma certa dificuldade para aceitar”. Aos poucos, os três irmãos se aproximaram do padrasto. “Hoje, eles me tratam com muito carinho e respeito. Falam que eu sou o segundo pai deles. Não quero tomar a paternidade, mas me sinto feliz em ter esse reconhecimento. Eu os trato como se fossem meu filhos", afirma Francisco. Do casamento dele e Railda, veio uma filha, Carolina Coriolano, 18. 

Em 1994, foi a vez de Benedito começar um novo casamento. No mesmo ano, nasceu Thiago, hoje com 24 anos e engenheiro civil. “Coriolano e Railda são como meus tios e, para mim, tudo isso sempre foi muito natural. Como a diferença de idade para os meus irmãos é muito grande, nunca teve ciúmes, sempre fui o queridinho”, disse.

Benedito conta que, apesar das dificuldades iniciais, hoje há amizade entre todos. “Se ele precisar de alguma coisa, eu não meço esforços para ajudar”, afirma. Hoje com sete netos e um bisneto a caminho, ele conta que tem avô para todo mundo. “Meus netos falam que eu sou o vovô de sangue e o Coriolano é vovô por amizade”, ri o servidor.


Tudo conversado


A advogada Renata Vilas-Bôas, professora de direito civil e da família no UniCeub, avalia que a chegada de um padrasto pode ser tanto boa quanto ruim. Para ela, no momento da separação, é recomendável que a família procure um psicólogo para que um acordo familiar possa ser feito sem que os filhos saiam prejudicados. “Tanto a fala da mãe quanto a do pai devem ser valorizadas. É o ponto de vista deles, mas é preciso chegar num consenso para o que é melhor para a criança”, explica.

Segundo ela, quando os pais não explicam para o filho o que está acontecendo, todo o processo de separação passa a ser mais complicado. “As crianças interpretam tudo na visão delas. Já vi casos em que meninos e meninas se culpavam pelo término do casamento dos pais”, relembra a advogada.

O bom relacionamento entre pai biológico e padrasto contribui para que o filho não se sinta perdido no meio de um divórcio. Quando os dentistas João Pereira, 45, e Luciana Orsi, 42, se divorciaram, o filho deles, Lucas Orsi, estava com 2 anos. Cerca de seis meses depois, entrou na vida do menino o também dentista João Marcelo Rodrigues, 44. Desde o início, João e Luciana mantiveram a cordialidade, pensando no melhor para Lucas.

Aos 19 anos, o hoje estudante de direito fala que tem o benefício de uma família dobrada. “O João Marcelo sempre foi meu pai também, sempre convivi com os dois”, afirma Lucas. Ele conta que, às vezes, para evitar explicar a desconhecidos a história da família, já apresenta o padrasto como pai. “As pessoas falam até que somos parecidos”, comenta o jovem.

João Marcelo conta que nunca quis tomar o lugar do pai e, desde que Lucas era pequeno, procurou deixar a situação clara. “Eu sou o padrasto que está presente para o que precisar.” Quando começou o relacionamento com Luciana, ele nunca tinha pensado em se casar e ter filhos. “A gente tem que se transformar. A partir dali, você tem de ser o exemplo para alguém.”

Já João Pereira conta que, desde o começo, foi preciso deixar de lado o orgulho e desenvolver uma amizade. “Houve sempre transparência e respeito mútuo. Claro que há uma preocupação, porque é uma pessoa convivendo com seu filho, mas a gente sentou para conversar, vi que era um cara gente boa e fiquei tranquilo”, relata o pai.

Ele também se casou e o relacionamento de Lucas com a madrasta se mantém igualmente amistoso. Com o crescimento da família, o menino se beneficiou de várias formas, com viagens com a família do padrasto e almoços com a família da madrasta. “É uma sensação de compartilhar amor.” Neste domingo, os dois dentistas vão ganhar de Lucas um abraço de feliz Dia dos Pais.

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