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Correio Braziliense

Conheça histórias de quem ajuda o próximo sem pedir nada em troca

Sem pedir nada em troca, a recompensa para os voluntários é ser cada vez mais humanista


postado em 28/08/2018 06:00 / atualizado em 27/08/2018 23:02

Os voluntários da Casa Santo André, que recebe pessoas em situação de rua: Sissiê, Jucilene, José e Ivone(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Os voluntários da Casa Santo André, que recebe pessoas em situação de rua: Sissiê, Jucilene, José e Ivone (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Carinho, amor, empatia e prazer em ajudar o outro são alguns dos pré-requisitos para ser um voluntário. Em diversas entidades do Distrito Federal, essas pessoas que sentiram no coração a vontade de fazer o bem auxiliam a transformar a vida de moradores de rua, idosos, crianças e animais ajudando a manter espaços de acolhimento funcionando. Apesar de não ter data para se fazer o bem, hoje é comemorado o Dia do Voluntariado e a atuação destes “anjos da guarda” ganha mais evidenciada.

Como no Lar da Terceira Idade Samaritanos de Águas Lindas, que está convocando mais voluntários para construir um espaço multiuso, com uma nova cozinha e área para eventos no local em que abriga 40 idosos. Infelizmente, a obra está parada justamente por causa da falta de voluntários para ajudar na obra e na captação de materiais de construção.

“Voluntários formam uma corrente do bem. Passamos por muitas necessidades e essas pessoas são sempre bem-vindas. Não apenas para ajudar com doação material ou financeira, mas também para tirar algumas horas do seu dia e ajudar a confortar os idosos, que são carentes —  conversar é também uma terapia para eles. Essa é a maior doação que existe, doação humanista”, aponta Marcos Terra, vice-diretor da entidade.

Anália Maria Marques Franco, 47 anos, conheceu o lar há quase quatro, em uma visita com uma caravana que vai ao abrigo mensalmente levando mantimentos e agasalhos. Desde então a professora de ioga não parou mais. Ela conta que o voluntariado mudou sua vida. Hoje, olha para o próximo com mais amor. “O mais legal no contato com os idosos é a troca de experiência e de afeto. Eles são muito carentes, a maioria não tem mais relação com os parentes e nos veem como a família deles. A gente leva um pouco do que tem e para eles é tão grande. É uma experiência linda!”.

O bem faz bem

“Ele pegava pessoas na rua e levava para dentro de casa para dar banho e comida.” Fabiana Moraes cresceu vendo o pai ajudar ao próximo. Hoje, ela própria é responsável pelo abrigo fundado por ele, a Casa Santo André, que acolhe pessoas em situação de rua, oferecendo abrigo, alimento, além de serviços de saúde e cursos de capacitação, como o de padaria. “A mão de obra voluntária é diferente. Eles estão aqui porque querem, não por obrigação ou pelo salário. Eles se comprometem porque acreditam na causa. Precisamos de pessoas que façam desde um corte de cabelo até trazer um violão para tocar com os abrigados”, ressalta.

O diretor de teatro José Ricardo Pereira do Santos, 47, trabalha na Casa Santo André ministrando palestras motivacionais e oficinas de teatro com os abrigados. Nos estudos, ele trabalha com temas como mudança e perdão, que provocam algum tipo de motivação para que as pessoas possam despertar a vontade de um dia sair do abrigo, trabalhar e retomar a vida. “Eu tento fazer com que eles queiram mais do que têm aqui. E funciona! Encontrei com pessoas na rua que depois conseguiram empregos e reconstruíram a vida. Isso me motiva”, afirmou.

Por coincidência, Jucilene Rodrigues dos Santos, 25, passou em frente ao abrigo e perguntou se precisavam de voluntários. Desde então, ela ajuda diariamente no bazar. “Eu só tenho a agradecer. Às vezes, as pessoas me julgam, dizem que estou trabalhando de graça. Mas eu não ligo. Amo o que estou fazendo aqui.”

A pedagoga Sissiê Silva, 47, começou a ser voluntária há quatro anos, foi convidada para fazer o curso na padaria e, hoje, ensina os abrigados a fazer pão. Ela frequenta o local duas vezes na semana. “Temos casos de pessoas que saíram daqui e hoje trabalham em padarias. A maior recompensa é saber que você está fazendo a diferença na vida das pessoas”, aponta.

Mais informações


Lar da Terceira Idade Samaritanos
  • O lar que abriga idosos precisa tanto de ajuda financeira quanto braçal para construir um espaço multiuso, com uma nova cozinha e área para eventos. Os interessados podem procurar o vice-diretor do abrigo, Marcos Terra, pelo telefone: (61) 99665-0909

Associação Casa Santo André
  • A associação atende a pessoas em situação de rua oferecendo apoio em diversas áreas. A entidade possui uma padaria industrial e precisa de voluntários para dar curso de especialização em padaria de forma gratuita. A casa Santo André recebe pessoas dispostas a ajudar em qualquer área. Interessados devem entrar em contato pelo: (61) 3327-9390.

Associação Santos Inocentes Associação Protetora dos Animais Abrigo Flora e Fauna
  • A entidade que acolhe animais em situação de abandono é mantida apenas por doações de recursos e trabalhos voluntários. Interessados em ajudar podem entrar em contato por e-mail: abrigofloraefauna@gmail.com.

Carinho com os animais

Abrir mão do próprio tempo e disposição pode parecer um sacrifício para muitos, mas existem trabalhos que recompensam isso com algo que engrandece. Neles, sai o salário do começo do mês e entram recompensas diárias que fazem tudo valer a pena, como diz Orcilene Arruda de Carvalho, 53: “Eu sempre estive envolvida com a ajuda voluntária aos animais; por isso, criei o abrigo Flora e Fauna, um lugar onde ninguém é remunerado, mas todos trabalham com muito carinho”.

A instituição foi fundada em 2005, ano em que a vida de Orcilene mudou bastante. Lá, diariamente aparecem novos animais que estavam em situação de abandono.

“Ao todo, são 15 voluntários que trabalham em diversas áreas. Eles ficam nas redes sociais, cuidam da nossa comunicação, dos recursos que ganhamos, compram as rações, levam os cachorros ao veterinário, ajudam com doações e tudo mais. Até na limpeza temos gente ajudando, que vêm no último domingo de cada mês e cuidam para que o ambiente fique limpo e agradável.”

O projeto vive 100% de doações de recursos e trabalhos espontâneos, um desafio para enfrentar o problema do abandono e maus-tratos a animais. Vários cães e gatos chegam ao Flora e Fauna depois de sofrer violências ou doenças, e acabam precisando de atendimento veterinário, rações especiais e uma família que queira adotar. Mas o que Orcilene destaca é que, em todo esse processo, não são só os bichinhos que ganham.

“Sabemos que tudo que é feito aqui não é só em benefício dos animais, é em benefício das pessoas também. Nós temos vários relatos de pessoas muito felizes com esse trabalho, gente que vem aqui porque sabe que é algo terapêutico.” Esse é o sentimento de Ana Cláudia Correa, 47, voluntária do abrigo há mais de sete anos.

Mudança de vida

Ela conheceu o projeto quando viu Menina, uma cadelinha sem raça definida, ter filhotes na frente da sua casa. A professora de biologia nunca tinha conhecido um abrigo, então cuidou dos animais enquanto pesquisava um lugar para eles. “Na minha cabeça esses locais tinham alguém para buscar e resgatar, uma equipe completa para cuidar, mas vi que não era assim, que eles trabalhavam com poucas pessoas e poucos recursos.”

Ana levou Menina e os filhotes para o Flora e Fauna e se sentiu responsável por eles, indo todo dia ao abrigo cuidar dos pequenos: “Chegar a um abrigo e ver a situação de lá — com muito trabalho a fazer e sem quase ninguém — foi desesperador. Eu nunca tinha enxergado isso e, quando vi de verdade, não deu para voltar atrás”, contou.

De pouco em pouco, ela foi cuidando de mais um animal, de mais outro, da limpeza do lugar, da estrutura do abrigo… Quando percebeu, a professora estava completamente envolvida, fazendo do trabalho voluntário uma missão de vida. “Eu tinha uma procura de algo que eu nunca sabia o que era, estava sempre com um vazio. Mas a gente sempre acha alguma coisa que nos completa. Comigo, é o trabalho voluntário. Eu brinco dizendo que os cachorros me salvaram.”

*Estagiária sob supervisão de José Carlos Vieira

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