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Correio Braziliense

Debate leva ao eleitor a chance de escolha mais consciente na hora do voto

Ao apresentar os candidatos à corrida ao Buriti de maneira aberta, debate é uma boa oportunidade para conquistar apoios, segundo especialistas


postado em 29/08/2018 06:00 / atualizado em 29/08/2018 11:23

Calmon:
Calmon: "O desempenho em um debate pode mover entre 2 e 3 pontos percentuais. É ainda mais decisivo quando se tem uma disputa acirrada" (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Em uma campanha eleitoral com tempo e dinheiro reduzidos, a confrontação direta dos candidatos pode ser determinante para escolha do voto, sobretudo quando a disputa é acirrada como a corrida pelo Buriti. O debate realizado pelo Correio e pela TV Brasília apresentou os postulantes ao governo do Distrito Federal de forma aberta para permitir as críticas às propostas. Dos sete participantes — o atual governador Rodrigo Rollemberg (PSB), Eliana Pedrosa (Pros), Rogério Rosso (PSD), Alberto Fraga (DEM), Júlio Miragaya (PT), Fátima Sousa (PSol) e Ibaneis Rocha (MDB) —, os quatro primeiros estão tecnicamente empatados, conforme pesquisa do Instituto Opinião Pública encomendada pelo Correio.

Para Paulo Calmon, diretor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), os debates têm grande impacto nas preferências da população. “O desempenho em um debate pode mover entre 2 e 3 pontos percentuais. Portanto, é mais decisivo quando se tem uma disputa eleitoral muito acirrada. Esses pontos podem fazer toda a diferença ao darem determinada vantagem ou desvantagem que podem gerar um processo favorável ou desfavorável para um ou outro candidato”, avaliou.

Piscitelli:
Piscitelli: "De uma forma geral, candidatos foram pouco propositivos" (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Calmon ressaltou a importância do momento do debate realizado ontem. “O eleitorado está começando a conhecer os candidatos e isso pode causar uma primeira impressão positiva ou negativa”, disse. O especialista também assinalou a importância da multiplicidade de fontes de informação, como a veiculação nas mídias digitais. “Os eleitores têm estratégias diferentes conforme a faixa de idade e vão buscar se informar em diferentes plataformas”, avaliou.

Desempenho
Conforme Roberto Piscitelli, professor de finanças públicas da UnB, faltou objetividade aos candidatos, que perderam muito tempo com acusações pessoais. “O observador percebeu que houve uma espécie de complô entre os três favoritos contra o Rollemberg. Deixaram isolados os candidatos de esquerda Júlio e Fátima”, pontuou.

“De uma forma geral, foram pouco propositivos. Todo mundo parecia muito preocupado em agradar servidor público e ocupante de áreas irregulares, prometendo pagamento e regularização fundiária”, avaliou. Para ele, os candidatos não aproveitaram a oportunidade de apresentar propostas concretas. “Houve muita declaração de intenções do que pretendem fazer. Mas parece não haver conexão entre os planos de governo e os recursos disponíveis”, criticou.

Piscitelli ressaltou que Rosso e Fraga disseram que vão pagar a terceira parcela do acordo que foi feito com os servidores no passado, enquanto Rollemberg argumentou que isso quebraria o DF e os demais alegaram que terão dificuldades financeiras. “Apesar de dizer que vai deixar uma situação melhor do que a que encontrou, o governador não falou nada sobre a não utilização dos recursos disponíveis, os tais R$ 330 milhões, a maior parte do governo federal”, destacou.

Ver galeria . 15 Fotos Sete dos 11 candidatos ao Buriti participaram do debate promovido pelo Correio BrazilienseMinervino Junior/CB/DA Press
Sete dos 11 candidatos ao Buriti participaram do debate promovido pelo Correio Braziliense (foto: Minervino Junior/CB/DA Press )
No entender do professor, o debate revelou que “continua faltando transparência dos números do governo, sobretudo na hora da transição”. Piscitelli disse que a proposta de Fraga e Rosso, sobre equiparação salarial das polícias, tem implicações políticas e a questão da segurança é nacional. “Nem sempre, as promessas podem ser cumpridas”, afirmou.

Sobre a proposta de extinção da Agência de Fiscalização do DF (Agefis), prometida por alguns candidatos, o professor afirmou que o órgão pode até ser criticado por excessos, abusos e arbitrariedade, mas o governo não pode se omitir de fiscalizar. “Há procedimentos discutíveis, a Agefis deve atuar mais preventivamente. Agora, não dá para simplesmente tirá-la do caminho sem criar um mecanismo de controle”, destacou.

O especialista considerou rasas algumas discussões sobre temas importantes. “Muitos projetos não são factíveis. Não se definiu modelo para os transportes, por exemplo. Se há condições técnicas e financeiras para ampliar metrô, VLT ou BRT. Não se define a matriz nem a articulação dos diversos modais. Ficou tudo em aberto. Só houve críticas sobre os R$ 600 milhões de subsídios às empresas de transporte urbano. Mas ninguém tem coragem de abrir essa caixa-preta”, disse.

Outro tema importante, na opinião de Piscitelli, foi saúde. “A discussão se concentrou na deterioração do Hospital de Base e em programas que foram paralisados por Rollemberg e que, de alguma forma, descentralizavam o atendimento”, disse. O professor lamentou, ainda, que nenhum dos candidatos tenha falado sobre construção civil, que é uma atividade empregadora. “Também comentaram em aumentar a eficiência da arrecadação sem elevar a carga tributária, mas ninguém disse como. Tampouco explicaram como será a indicação para as administrações regionais”, criticou.

Para Ricardo Caldas, professor de Ciência Política da UnB, a corrida eleitoral do Distrito Federal está muito disputada e indefinida. “Claramente há vários candidatos em condições de chegar ao Buriti. Vai ser assim até o último dia. Não dá para prever quem chegará ao segundo turno”, destacou.
 

 

ARTIGO

Um debate sobre terra arrasada

Creomar de Souza*

A opinião de que a representação política como ideia está posta em xeque é o principal produto da crise política, que se iniciou no Brasil em meados de 2013. No Distrito Federal, especificamente, a corrida pelo Palácio do Buriti é um retrato desta situação.

E neste sentido, a ideia de um debate entre os candidatos ao governo local tem uma função primordialmente importante, pois coloca lado a lado aqueles que pelos mais variados motivos têm o interesse de comandar as políticas públicas locais pelos próximos quatro anos. Entretanto, se a sociedade acerta ao convidar os candidatos ao debate, os sete postulantes pareceram não estar à altura do convite. Durante todo evento em questão, observou-se uma série de troca de ofensas, insultos e proposições vagas sobre o futuro do Distrito Federal.

Em termos concretos, se de um lado, Rollemberg buscou defender seu legado político-administrativo. De outro, seus principais opositores, Eliana Pedrosa, Rogério Rosso e Alberto Fraga, tentaram assumir uma posição de que as falhas do governo atual eram resultantes de falta de vontade política ou de preparo governador. Acessoriamente, candidatos como Júlio Miragaya, Ibaneis e Fátima Sousa, se esforçaram no intento de não serem vistos como parte do cenário político atual, ao buscarem trazer questões nacionais ou as próprias biografias para o debate local.

O produto do embate visto é que há uma lacuna entre aquilo que os candidatos oferecem e as expectativas de parte considerável dos cidadãos do Distrito Federal. Ressalvadas propostas específicas que atendem a setores tradicionais do serviço público, as históricas promessas de ajustes salariais, a maior parte do tempo do eleitor foi gasta com a troca de insultos entre os candidatos.

E, nesse aspecto, não há claramente um vencedor da disputa retórica entre os postulantes ao Buriti. Pode-se considerar que o eleitor é o grande derrotado ao sentir-se órfão de proposições que, de fato, possam melhorar sua vida cotidiana.

* É professor da Universidade Católica de Brasília, doutorando em Relações Internacionais na UnB e consultor político

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