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Correio Braziliense

Número de pedestres mortos este ano é maior do que o de 2017 inteiro

Levantamento do Detran aponta que número de pedestres mortos este ano é maior do que o de 2017 inteiro: a cada três dias, uma pessoa morre após ser atropelada no Distrito Federal . Imprudência, velocidade e álcool estão entre as causas


postado em 03/09/2018 06:00 / atualizado em 03/09/2018 08:46

BR-020 é uma das rodovias mais perigosas para pedestres no DF(foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
BR-020 é uma das rodovias mais perigosas para pedestres no DF (foto: Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press )
O número de pedestres mortos de janeiro a agosto de 2018 no Distrito Federal (DF) já superou o de 2017 inteiro. Segundo dados preliminares do Departamento de Trânsito do DF (Detran), até 19 de agosto, 80 pessoas morreram, contra 79 nos 12 meses do ano passado. E esse número já aumentou. Uma das últimas vítimas foi José Dias dos Santos, 63 anos, atropelado em 24 de agosto, quando tentava atravessar a BR-020, próximo à entrada de Sobradinho. Ele morreu na hora. Três dias antes, na QI 11 do Guará I, Cleuzio Luiz Evangelista, 59 anos, também perdeu a vida enquanto atravessava a pista em frente a uma lanchonete. Socorristas chegaram a levá-lo para o Hospital de Base, mas ele não resistiu.

O delegado-chefe da 13ª Delegacia de Polícia, Hudson Maldonado, explica que o inquérito a respeito da morte de José Dias está em apuração. O motorista, que prestou socorro, disse que a vítima entrou na rodovia cambaleante. O laudo da necrópsia e a perícia no local do atropelamento ajudarão a esclarecer as causas, incluindo a velocidade do veículo. O filho de José, o marceneiro Matheus Sousa, 21, lamentou a morte do pai. “Era uma pessoa querida, que ajudava os filhos e os amigos e se preocupava com os outros. Gostaria de pedir que os motoristas tenham mais cuidado. Eles estão protegidos pelo carro. Não o pedestre”, lamenta Matheus.
 
José Dias dos Santos morreu em atropelamento na BR-020 no fim de agosto (foto: CBMDF/Divulgação)
José Dias dos Santos morreu em atropelamento na BR-020 no fim de agosto (foto: CBMDF/Divulgação)
 

Levantamento

Segundo consta no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), os veículos maiores são responsáveis pelos menores e todos pelos ciclistas e pedestres. Ainda assim, de acordo com o diretor-geral do Detran, Silvain Fonseca, é importante compreender as circunstâncias dos atropelamentos para conseguir diminuí-los. Um levantamento do órgão mostra, por exemplo, que 24 dessas vítimas consumiram álcool antes do acidente. Em outros seis casos, a pessoa não tinha informações sobre como se comportar ao atravessar uma via. Quatro pedestres atravessaram na frente de um veículo parado e, pelo menos por três vezes, motoristas falharam em desviar de quem andava a pé.

De acordo com Silvain, o Detran, o Corpo de Bombeiros e a Secretaria de Mobilidade e a Secretaria de Saúde estão levantando os locais, dias e horários de mortes para atuar sobre o problema. A ação foi batizada de Brasília Segura. As rodovias federais são as que registraram mais mortes neste ano. As principais foram a BR-020, próximo a Planaltina, e a BR-060, próximo a Samambaia. Em seguida estão a Epia, a DF-003, a Avenida dos Alagados, em Santa Maria, e a Hélio Prates, em Taguatinga. Fonseca conta que, a partir desses dados, são reforçados policiamento e ações como revitalização de faixas, semáforos e passarelas nas vias.

A maioria dos atropelamentos seguidos de morte  ocorreu entre 18h e 23h, principalmente nas segundas, quintas e sextas-feiras. O monitoramento de acidentes de 2017, que está pronto, mostra a BR-070, em Ceilândia, a via S1, no centro de Brasília, a BR-020, nos trechos de Sobradinho e de Planaltina, e a BR-251, em São Sebastião, como as campeãs em mortes, concentrando 17 dos 79 atropelamentos. O gestor lembra ainda que 2017 foi o ano com menor número de mortes no trânsito no DF nos últimos 30 anos.

“Agora, estamos trabalhando a questão do álcool não só com o motorista, mas também com  passageiros, ciclistas e pedestres. Buscamos soluções para essas pessoas, tentando recuperá-las. Estamos também sensibilizando o poder legislativo federal na busca para alterar o Código de Trânsito, para colocar o alcoolismo como uma questão de saúde pública”, afirma Silvain. Além do alcoolismo, ele destaca que também são fatores de risco a imprudência do condutor, desatenção do motorista ou do pedestre e a desinformação sobre o local de atravessar. Outro ponto de alerta é o uso de celular ou fone de ouvido ao volante.

Hudson Maldonado, delegado-chefe da 13ª Delegacia de Polícia,investiga a morte de José Dias dos Santos(foto: Viola Júnior/Esp. CB/D.A Press )
Hudson Maldonado, delegado-chefe da 13ª Delegacia de Polícia,investiga a morte de José Dias dos Santos (foto: Viola Júnior/Esp. CB/D.A Press )


Segundo o diretor-geral do Detran, Silvain Fonseca, maioria das mortes foi registrada nas rodovias federais(foto: Andre Borges/Agencia Brasília )
Segundo o diretor-geral do Detran, Silvain Fonseca, maioria das mortes foi registrada nas rodovias federais (foto: Andre Borges/Agencia Brasília )


Punições mais severas

Ativistas e especialistas destacam que é importante alertar a população sobre o risco de caminhar próximo a rodovias sob efeito de drogas lícitas ou ilícitas, mas também lembram que motoristas são responsáveis por quem anda a pé. Professora de arquitetura e urbanismo do Centro Universitário de Brasília (Ceub) e doutora em transporte pela Universidade de Lisboa, Ana Paula Borba Gonçalves Brasso acredita que as punições a motoristas que atropelam precisam ser mais severas. “Claro que existem casos de pedestres alcoolizados, mas o motorista tem que trafegar em uma velocidade que seja possível parar ou desviar”, destaca.

Ela explica que a cidade precisa se adequar às pessoas, e não aos carros. “Na Europa, as vias urbanas não podem ultrapassar os 60km/h. Aqui, o Eixão corta a cidade ao meio a 80km/h. E a gente sabe que as pessoas andam mais rápido e só reduzem por conta do pardal. O desenho urbano estimula a velocidade. O foco do planejamento de qualquer cidade brasileira é o carro. Até o tempo do semáforo é pensado para o carro, em detrimento de crianças, idosos ou pessoas com dificuldades de locomoção, e que se movimentam mais devagar”, exemplifica.

Coordenador da Associação Andar à Pé, Cláudio Silva destaca a importância do envolvimento de toda a sociedade para reduzir o número de mortos no trânsito. “Nenhuma morte deveria ser tolerada, pois é, acima de tudo, questão de violência. Mas a situação não vai mudar de uma hora para a outra. É um problema da sociedade, até porque todo mundo é pedestre, os que dirigem, os que pedalam, os políticos, o setor acadêmico e as organizações sociais. É preciso nivelar a informação, para que as pessoas se sintam parte do problema. Temos que selar um compromisso para dar um basta”, diz.

Outras medidas

A Secretaria de Mobilidade inclui a Zona 30 como solução de mobilidade urbana para vias locais. A iniciativa visa acalmar o trânsito e estimular a convivência harmônica entre ciclistas, pedestres e automóveis. Cabe destacar que o Zona 30 não é implantado em vias de alta velocidade. O projeto foi implementado na Universidade de Brasília (UnB) e irá para Águas Claras, Setor Comercial Sul e Ceilândia. As vias receberão a nova velocidade no próximo mês e foram definidas com base em estudos por ter muito fluxo de pedestres e ciclistas. Além da velocidade de 30km/h, também serão implantadas ciclovias, ciclofaixas e calçadas compartilhadas.

(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

 
 

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