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Correio Braziliense

Família de gêmeas siamesas arrecada doações para festa de 15 anos

Letícia e Lorena nasceram ligadas pela região umbilical em 2003 e passaram pela primeira cirurgia de separação desse tipo bem-sucedida no Distrito Federal


postado em 07/09/2018 07:00

(foto: Mariana Machado/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Mariana Machado/Esp. CB/D.A Press)

É em uma casa humilde de dois cômodos e um banheiro em Samambaia Norte que hoje vivem Letícia e Lorena da Silva, as primeiras gêmeas siamesas onfalópagas que sobreviveram a uma cirurgia de separação no Distrito Federal, ainda em 2003. O nome complicado quer dizer que as meninas nasceram grudadas pela região do abdômen e, até então, crianças que nasciam nas mesmas condições não resistiam ao procedimento. As duas, no entanto, estão bem, saudáveis e às vésperas de completar 15 anos.

Idade marcante na vida de uma adolescente, é cercada pelos sonhos de uma festa de debutante, com direito a vestido, bolo e valsa. Para Letícia e Lorena não é diferente. A mãe, a dona de casa Maria José da Silva, 36, conta que as duas gostam de procurar vestidos na internet e sonhar. “Infelizmente, não temos condições de pagar uma festa, ainda mais para duas. Se eu pudesse, dava o mundo a elas”, emociona-se a mãe.

Conversando com a família, Maria José contou do desejo das meninas. Foi aí que a prima, a empresária Naiane da Silva, 28, tomou uma atitude: no último domingo, postou mensagem em uma rede social pedindo ajuda para organizar o evento, e há resultados. “Elas vão fazer fotos no Gama, conseguimos doações de refrigerantes, docinhos e lembrancinhas, mas ainda não temos o local nem os vestidos”, disse a prima, que é dona de um salão de beleza, onde as garotas vão se arrumar.

As irmãs contam que já tinham desistido de ter uma festa, mas agora voltaram a sonhar. “Eu gostaria de usar um vestido azul, como o da Cinderela”, conta Lorena. Já Letícia se imagina usando rosa e ouvindo músicas eletrônicas. Na escola delas, apenas algumas colegas festejaram, mas a mãe está empolgada para fazer algo, ainda que simples.

Rotina

As meninas cursam o 9º ano do ensino fundamental e levam uma rotina tranquila, entre casa e escola. Letícia quer ser atriz ou montar um negócio próprio. Já Lorena pensa em ser modelo, veterinária ou arquiteta. Elas moram com a mãe e os dois irmãos, Miquéias, 16, e Oséias, 13. A mãe conta que, em geral, todos se dão bem. “Às vezes a Lorena quer bater na Letícia, mas eu corro para separar e fica tudo bem”, ri Maria José.

Segundo ela, o gênio forte da menina vem do pai, o porteiro Francisco das Chagas, 40. “A Letícia é mais tranquila e chorona, puxou a mim”, explica a dona de casa. A renda da família vem das faxinas ocasionais que Maria José consegue fazer. “Meu ex-marido faz uns bicos e consegue nos passar um dinheiro. Assim vamos levando, um mês de cada vez.” A verba, no entanto, não é suficiente para aumentar a pequena casa, em que todos dividem um único quarto.

O sonho dela é poder terminar de construir a casa em que moram há 10 anos. À época em que as meninas nasceram, a família dividia o lote da irmã de Francisco, Maria Alice da Silva. Só depois eles receberam, do governo, o terreno em que estão hoje. “A casa já era assim, e nós viemos do jeito que estava. Nunca tivemos o dinheiro para aumentar, mas quem sabe no futuro”, acredita a matriarca.

As dificuldades financeiras, no entanto, não tiram o sorriso de Maria José, que lembra com carinho da equipe médica que cuidou das gêmeas em 2003. “Quando me contaram pela primeira vez a situação, eu chorei e pedi a Deus que desse tudo certo”, relembra. E deu. Dois meses depois da cirurgia, elas estavam cicatrizadas, e os médicos disseram que não seria mais necessário o acompanhamento frequente.

Marco na carreira

As meninas nasceram em 17 de setembro, no Hospital Regional de Taguatinga. A mãe lembra que, antes de ficar desacordada pelo efeito da anestesia, ouviu alguém pedindo para tirar uma foto, porque estava surpreso. Maria José só foi entender o motivo horas mais tarde, quando soube que as bebês recém-nascidas estavam grudadas e precisariam ser transferidas para o Hospital de Base, onde passariam, alguns dias depois, pela cirurgia de separação.

Começava ali a preocupação de uma família que não sabia se tudo daria certo. Maria José ficou ainda dois dias internada em Taguatinga, enquanto Francisco se desdobrava para conseguir visitar a mulher e as filhas, sem conseguir vender os botijões de gás, meio de sustento deles naquele ano. Foi preciso o apoio de familiares, amigos e desconhecidos, que fizeram doações para garantir o mínimo enxoval.

Para quem fez parte da equipe que acompanhou as gêmeas, xodós do hospital à época, a experiência foi inesquecível. O cirurgião pediátrico responsável pela operação, Ubiratan Moreira Santos, disse que nunca apagou da memória os detalhes dos dias que conviveu com as duas. “Foi um grande trabalho em conjunto para que tudo corresse muito bem e sem falhas. Durante todo o meu tempo de formação em cirurgia pediátrica, não me lembro de ter tido um apoio tão grande, solidariedade e profissionalismo em prol das crianças”, emociona-se o médico.

Ele lembra que, há 15 anos, era difícil conseguir materiais para realizar qualquer procedimento cirúrgico. “Operações eram canceladas porque faltava roupa para entrar na sala de cirurgia. Mas naquele 1º de outubro, o Hospital de Base era um modelo. Na véspera, nós conseguimos até um bisturi especial para realizar a cirurgia, vindo de um fornecedor. Tudo colaborou para que fosse um sucesso”, avalia.

Para Ubiratan, as gêmeas foram um marco na carreira. “É muito gratificante saber que em alguma época fui importante para levar bem-estar a essas crianças e à família. É inesquecível”, disse o médico, que ainda hoje mantém contato com os pais das meninas, assim como o neuropediatra que acompanhou Letícia e Lorena no berçário, após a cirurgia, Márcio Morem.

Até então, ele só havia visto situações semelhantes em livros. “Era um caso raro, desses que aparecem uma ou duas vezes em 40 anos de profissão. Foi uma experiência interessante e que felizmente deu certo para elas”, afirma o médico.

Hoje, cada uma carrega no umbigo a cicatriz do corte que as separou. O sucesso da operação se deu porque elas estavam unidas apenas pelo fígado, órgão com grande capacidade de regeneração, e já nasceram com independência hepática, isto é, cada uma tinha a capacidade de filtrar o sangue.
 

(foto: Kleber Lima/CB/D.A Press)
(foto: Kleber Lima/CB/D.A Press)
Memória

Cirurgia de sucesso
Em 2003, o Correio fez uma série de reportagens acompanhando a saga das gêmeas. Os repórteres Ana Nogueira, Fabíola Góis, João Rafael Torres e Larissa Meira, além dos fotógrafos Kleber Lima e Wanderlei Pozzembom, mostraram desde o nascimento das meninas até o primeiro natal da família. Em uma entrevista, o doutor Ubiratan falou aos repórteres do alívio pelo bom resultado. “O sucesso da cirurgia só ocorreu por causa da vontade de muitas pessoas de sair vitoriosas. Mas acredito que as únicas vencedoras foram Letícia e Lorena. Não sou herói”, declarou.

Para ajudar
Quem quiser ajudar a realizar a festa das gêmeas pode entrar em contato com a prima delas, Naiane da Silva, pelo telefone 98169-4190.

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