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Correio Braziliense

Juíza cria grupo de ajuda para famílias que perderam parentes assassinados

Juíza de Luziânia recebe parentes de pessoas assassinadas para que eles possam conversar, e desabafar sobre os crimes violentos que destruíram suas famílias, além de tirarem dúvidas em relação ao andamento dos processos


postado em 09/09/2018 07:00 / atualizado em 10/09/2018 07:41

A magistrada Renata Gomes foi a criadora do projeto, batizado de Famílias Interrompidas, que ajuda parentes de vítimas de homicídio. (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
A magistrada Renata Gomes foi a criadora do projeto, batizado de Famílias Interrompidas, que ajuda parentes de vítimas de homicídio. (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Em 30 de dezembro de 2009, Diego Alves Rodrigues, 13 anos à época, saía de casa para ir a uma oficina mecânica no Parque Estrela Dalva 4, em Luziânia, e nunca mais foi visto. Três meses após o desaparecimento, mais seis famílias se juntaram ao drama dos parentes de Diego: outros seis adolescentes, com idades entre 13 e 19 anos, sumiram sem deixar rastros. Em 10 de abril de 2010, policiais civis encontraram os corpos dos jovens em uma fazenda da região e prenderam o suspeito pelos crimes, o pedreiro Ademar de Jesus Silva. Oito anos após as mortes, pais e mães das vítimas ainda convivem com o trauma de terem os filhos assassinados.
 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Pais, irmãos e mães dos sete jovens se reuniram no Fórum de Luziânia para uma roda de conversa. A iniciativa partiu do projeto idealizado pela juíza Renata Gomes de Barros Nacagami, da 1ª Vara Criminal da cidade. O projeto, batizado de Famílias Interrompidas, objetiva fazer com que parentes de vítimas de homicídio consumado e tentado possam se reunir e ter um ambiente onde conversem sobre os casos e tirem dúvidas em relação ao andamento dos processos.

Além da informação, o projeto busca fazer com que famílias destruídas por crimes violentos possam encontrar semelhantes com quem possam ter um espaço aberto e livre para o desabafo. “Durante as audiências, percebia que as pessoas queriam ser ouvidas e falar sobre os casos. Porém, na condução das audiências, o juiz não pode parar e ter esse tipo de conversa”, ressalta Renata. A juíza conta que a ação começou este ano e que ela está responsável por três casos. A expectativa é de expandir a iniciativa para outros órgãos de Goiás e acolher ainda mais a população.
 
Renata explica que as reuniões são diferentes de um atendimento psicológico, mas ressalta que é uma forma de acolher. “Não é uma terapia, é uma oportunidade de falar sobre os ocorridos. É possível perceber que esses tipos de crimes não afetam somente a família, mas a vizinhança e até mesmo a comunidade, que fica amedrontada”, diz. Para a juíza, muitos parentes buscam respostas além da sentença e tentam entender de fato o que aconteceu.
 
Lúcia Maria:
Lúcia Maria: "Minha mãe, Maria, sempre se fez de muito forte. Mas meu pai não aguentou. Ele começou a beber, entrou em depressão e morreu" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Roteiro

Todo encontro tem um roteiro diferente e conta com dinâmicas para quebrar o gelo e fazer com que os familiares se abram e conversem. A analista do Poder Judiciário Maria Lúcia de Castro trabalha no projeto e conduz a reunião junto a um psicólogo do fórum. “A gente procura ajudar e apoiar com a busca pela reparação do dano. Nosso objetivo é mostrar o lado humano da Justiça”, destaca. Ela explica que as reuniões são realizadas em círculo e cada um tem o espaço de fala. “Muitos chegam aqui e optam por não falar, apenas escutar. Mas, com o passar do tempo, as pessoas começam a se abrir. Alguns familiares não conseguem comentar o ocorrido dentro de casa e aqui nos dedicamos a isso”.
 
Benildes dos Santos:
Benildes dos Santos: "Eu nunca vou saber como foram as últimas horas do meu filho. Eu não sei pelo que ele passou. Eu só queria respostas" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
Maria Lúcia esclarece que, após as reuniões, as famílias passam a ser monitoradas por meio de visitas e ligações. Em seguida, os grupos podem optar por participar ou não de encontros futuros. “É um programa totalmente aberto e as pessoas que escolhem dar continuidade ou não. Caso alguém precise do atendimento, basta procurar o fórum”, comenta. Outro ponto destacado pela profissional é de que os juízes que participam das diligências dos casos não participam das sessões. “Sempre temos boas adesões e as pessoas desejam voltar. Mas tudo depende muito dos processos e da disponibilidade de cada um”, pondera.

Sirlene Gomes:
Sirlene Gomes: "Não tenho mais alegria para nada. Gosto muito de ajudar os outros, mas não gosto de me ajudar. Gosto de ficar isolada e sozinha" (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


As vítimas 


Em 16 de janeiro, quando saiu a primeira reportagem do Correio Braziliense falando sobre os desaparecimentos, a cidade havia registrado o sumiço de Diego Alves Rodrigues, 13 anos; Paulo Victor Vieira de Azevedo Lima, 16; George Rabelo dos Santos, 17; e Divino Luiz Lopes da Silva, 16. Dois dias depois, seria a vez da quinta vítima, Flávio Augusto dos Santos, 14 anos, deixar a casa da família para nunca mais voltar. Em 22 de janeiro, Márcio Luiz de Souza Lopes,19 anos, tornou-se o sexto jovem a desaparecer na cidade. Em 20 de março do mesmo, Éric dos Santos, 15, se juntou à lista dos adolescentes que sumiram.

Mortes em série


Em 10 de abril, a polícia prendeu o pedreiro Ademar de Jesus Silva, 40 anos, que confessou os crimes. No dia seguinte, o homem acompanhou os investigadores até a Fazenda Buracão, distante 1,8 km de Luziânia, e indicou o local onde havia enterrado os corpos. Os restos mortais recolhidos foram encaminhados para o IML, onde, por 30 dias, foram periciados. Em 18 de abril, oito dias depois de ser preso, Ademar de Jesus Silva suicidou-se em uma cela de 6m² do complexo da Polícia Civil em Goiânia. Os agentes encontraram o pedreiro morto com uma tira no pescoço feita com o pano que envolvia o colchonete.



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