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Correio Braziliense

Projeto social atende jovens vítimas abusos sexuais sofridos dentro de casa

Projeto social no Gama atende jovens que sofreram os mais diversos tipos de abusos e coleciona histórias de superação e afeto


postado em 09/09/2018 07:00 / atualizado em 11/09/2018 10:07

Só nos primeiros seis meses de 2018, o canal de denúncias de violências, o disque 100, recebeu 780 ligações no DF(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
Só nos primeiros seis meses de 2018, o canal de denúncias de violências, o disque 100, recebeu 780 ligações no DF (foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
De dentro de um pequeno quarto de janelas trancadas, fica difícil ver luz. Ainda mais quando, dentro desse quarto, um homem entra e abusa sexualmente de uma criança. Para piorar, fora do quarto, as brigas, agressões e o movimento de drogas. O cenário que parece um pesadelo era a realidade de Gabriela*, que hoje tem 18 anos e sonha em ser professora, “para cuidar das crianças”.

Mas a triste situação da jovem não é tão peculiar assim. Muitas crianças sofrem diariamente esses tipos de abusos. Só nos primeiros seis meses de 2018, o canal de denúncias de violências, o disque 100, criado pelo Ministério dos Direitos Humanos, recebeu 780 ligações alertando para casos de agressões e vulnerabilidades de crianças e adolescentes no Distrito Federal.

Ou seja, é como se todo dia quatro casos como o de Gabriela fossem denunciados. E, como muitos crimes de violência contra menores não são descobertos, esse número poderia ser ainda maior. Um cenário delicado como esse não é fácil de ser mudado, mas um projeto no Gama, sem medo de desafios, tem conseguido transformar vidas e dar luz a muitos jovens que não enxergavam esperança.

Gabriela conheceu o Vira Vida no ano passado, mas já divide sua história em antes e depois do projeto. “Antes de chegar aqui, eu não queria estudar, não trabalhava, era envolvida com tráfico e prostituição e não tinha nenhuma expectativa de vida, visão de futuro. Hoje em dia eu sou uma pessoa completamente diferente do que eu era. Não vendo droga, estudo, tenho uma boa relação com minha mãe e vou fazer faculdade de pedagogia.”

Mudança

A transformação é a maior característica do projeto, que tem uma borboleta como símbolo. O Vira Vida foi implementado em Brasília no fim de 2009, pelo Conselho Nacional do Serviço Social da Indústria (Sesi), e atendeu mais de 500 jovens em situação de vulnerabilidade e violência. A maioria dos alunos que entram para o programa são adolescentes que sofreram abusos sexuais, agressões ou situações de extrema vulnerabilidade, mas não são raros os casos em que todas essas condições eram presentes no lar de onde vieram.

(foto: Moacir Evangelista/Sistema Fibra.)
(foto: Moacir Evangelista/Sistema Fibra.)
Como foi com Gabriela, abusada pelo tio: “Quando eu era mais nova, meu pai fabricava e vendia droga, enquanto eu e meus irmãos catávamos frutas podres em um supermercado e na feira, para comer. Aí quando meu pai chegava drogado, batia muito na gente e depois trancava eu e meus irmãos no quarto, que era todo fechado”, conta. Para ver luz, a menina arrancava um pedaço das telhas do teto e respirava o ar fresco enquanto o homem não voltava.

Mas quando a menina chegou na escola que sedia o projeto, a São João 23, no Gama, passou a enxergar muito mais do que via pelo buraco do teto.

Conversas

“Quando eu venho para cá e tenho algum problema, tenho um apoio para conversar, porque eles não me julgam, só me acolhem. A assistente social às vezes fala umas coisas que abrem minha mente. Se eu chego meio triste, eles sabem que eu tenho um problema e me chamam para conversar.” Um desses momentos de diálogo é a roda de conversa entre os alunos, em que todos compartilham suas vivências e acabam se descobrindo novas pessoas, como explicou a psicóloga do projeto, Thais Silva.

“Eles chegam aqui muitas vezes sem uma identidade, sem saber quem são, sem sonhos. No primeiro pilar, a gente trabalha a identidade, a necessidade de eles reconhecerem quem são, de acreditarem em si mesmos e nos propósitos que têm. A partir disso, vamos construindo uma visão positiva de futuro”, acrescentou Thais.

A jovem passou a infância convivendo com cenas de violência dentro de casa, principalmente quando o pai usava drogas e agredia a mãe: “Teve um dia em que eles dois brigaram e ele pegou um copo de vidro para tacar nela. Meu irmão entrou no meio para separar e o copo caiu no chão, aí o meu pai pegou um caco, se cortou inteiro e disse para ela: ‘Já que você quer meu sangue, bebe’. Ele jogou sangue na cara dela e a casa ficou toda ensanguentada”, lembrou.

A cena dificilmente será esquecida por Gabriela, mas o Vira Vida deu para a garota oportunidades de se afastar de tudo isso. Hoje, ela faz um curso sobre direito na Defensoria Pública e pensa em fazer uma graduação na área, depois de virar professora. A relação com a mãe mudou completamente, passando do rancor que ela tinha por culpá-la pelos abusos, para um amor que a permite projetar uma paz maior. “Quero meu apartamento para ficarmos juntas e tirá-la de onde a gente mora. Eu penso hoje que sou capaz disso, sei que vou conseguir.”

Dados da violência infantil


» 64% dos casos de estupro do ano passado foram contra crianças e adolescentes
» Familiares e pessoas próximas são os principais autores de violência sexual
» Só no DF, foram feitas 1.994 denúncias de violências contra menores pelo disque 100 em 2017

Fonte: Corregedoria-Geral do Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) e Ministério dos Direitos Humanos (MDH)


Programa Vira Vida


» Atende jovens de 14 a 21 anos.

» Inscrições abertas até 5 de novembro. Para se inscrever, é necessário procurar um dos serviços de apoio do projeto: Conselho Tutelar, Centro de Referência de Assistência Social (Cras), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Programa de Atendimento à Vítima (PAV), Vara da Infância e da Juventude ou Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).

» Telefone para contato: (61) 3484-2310



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