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Correio Braziliense

Conheça histórias de cabos eleitorais de candidatos ao Buriti

Responsáveis por promover e divulgar candidatos, os cabos eleitorais, muitas vezes, passam despercebidos, mas carregam histórias de necessidade e de sacrifícios. Comitês orientam posturas dos apoiadores nas ruas


postado em 18/09/2018 06:00

 

Por trás das bandeiras que balançam pelas ruas e esquinas, há nomes, rostos e histórias. A campanha política abriga gente de todo tipo, que se dispõe a enfrentar o sol a pino e a baixa umidade de Brasília nesta época do ano para promover candidatos. Alguns deles são motivados pela esperança de conseguir emprego após as eleições; outros dependem do dinheiro para sustentar filhos. Há até quem alegue trabalhar apenas pela paixão pelo político preferido e pela vontade de vê-lo eleito. Em comum, a rotina pesada e cheia de percalços, cumprida, quase sempre, com um sorriso no rosto. O Correio ouviu algumas das histórias desses personagens anônimos, responsáveis por movimentar a campanha eleitoral. Os nomes foram omitidos para preservar os entrevistados e evitar possíveis represálias.

Sob o sol do meio-dia na Cidade Estrutural, T.S.M., 23 anos, balança com entusiamo a bandeira de um candidato ao GDF. Ela chegou ao Distrito Federal em 2010. Veio de Santo Antônio do Descoberto (GO), onde morava em um orfanato. A mãe é usuária de drogas e não tinha condições de cuidar da menina e de um irmão. Depois de seis anos na instituição, foi tirada de lá pelo pai e agora vive na Estrutural. Teve dois filhos e cuida deles sozinha. Foi também pelas crianças que entrou na campanha. Os R$ 500 que vai receber por mês pelo trabalho ajudarão a cuidar dos pequenos. A jovem garante que não espera nada em troca depois do pleito. “Quero apenas que cumpra o que promete na campanha para ajudar a cidade, melhorar a saúde, a educação. Isso também motiva a gente”, explica.


A colega F.F., 33, tem a expectativa de conseguir um emprego. Desempregada, ela faz parte do grupo que recebe para trabalhar. “O melhor é ser voluntária, porque a gente sabe que, depois, os voluntários têm prioridade para receber ajuda, mas, mesmo assim, eu acredito que vou conseguir algo”, comenta. Mãe de duas filhas, ela conta que a rotina nem sempre é muito tranquila. Além do “sol muito quente”, em algumas ocasiões, a recepção dos eleitores é negativa. “Algumas pessoas gritam, xingam. A gente fica sem graça.” Mas é preciso paciência e simpatia, ela ensina. “A gente tem de ser educada. Às vezes, a pessoa até muda de ideia depois.”

J. B., 32, é voluntária na campanha de um dos concorrentes ao Palácio do Buriti. O que a motiva é, principalmente, a esperança de ver mudanças na cidade. Ela tem duas filhas e mora em Santa Maria. “Vamos para todos os lugares a que ele (candidato) vai”, conta, em uma agenda em Ceilândia. Para o transporte, uma van busca os militantes em casa. Ela diz que não espera nada de concreto em troca, mas que a vivência na campanha sempre traz benefícios. “Esses contatos que fazemos aqui acabam nos ajudando de alguma forma depois”, diz. Segundo uma das coordenadoras de equipe do postulante ao Executivo local, os apoiadores pagos recebem cerca de R$ 700 para cada 15 dias de trabalho.
 

Capital da esperança

São muitos os personagens anônimos da corrida eleitoral que vieram de longe na esperança de uma vida melhor e com mais oportunidades. Sem emprego, eles encontram no pleito uma chance de obter alguma renda para se sustentar e ajudar a família. É o caso de N.S., 23 anos. Saiu de Salvador há dois anos. Esperava encontrar um emprego melhor na capital federal. Desempregada e com um filho de 3 anos, foi convidada para trabalhar na campanha por uma amiga. Por 6h diárias de trabalho, recebe, por semana, R$ 350. Distribui santinhos em diversos pontos da cidade e acompanha o candidato em eventos. Em algumas situações, precisa levar o filho. Moradora de Valparaíso (GO), não conta com transporte pago pelo partido. Usa o transporte público para chegar aos locais de campanha. “Espero conseguir um emprego com ele (concorrente)”, afirma.

Pai de um menino de 3 anos, D.B., 33, veio para Brasília em 2004, quando deixou a cidade de Uruaçu, no interior de Goiás. Trabalhava como vigilante, mas ficou sem emprego e procurou serviço na campanha. Conseguiu um candidato que paga R$ 1,3 mil mensais pelas 8h diárias entregando panfletos na Rodoviária do Plano Piloto. Ainda não recebeu, mas conta com o salário para ajudar o filho. A indiferença e a rejeição fazem parte da rotina diária. “Só peço desculpas e digo muito obrigado”, revela.
 

Sem aparecer demais

Alguns comitês ministram cursos de orientação aos cabos eleitorais. Além de aulas sobre a vida dos candidatos, eles recebem dicas para “não aparecer demais”. O objetivo é não sujar a imagem dos concorrentes. Por isso, é proibido brigar ou discutir com eleitores ou militantes adversários. Em uma panfletagem em Samambaia, no começo do mês, E.J, 36, relembra que trabalhava desde as 7h. No começo da tarde, apoiadores de outra sigla apareceram no local. “Cheguei até eles e falei: ‘Ou vocês saem, ou nós saímos’. Conseguimos convencê-los a ir para outro lugar sem confusão”, conta. O cabo eleitoral explica que não dividir espaço é uma estratégia para evitar confrontos que possam ser filmados e expostos na internet.

Mas as provocações existem. Enquanto S.T, 22, conversava com o Correio no Núcleo Bandeirante, buzinas e vaias interrompiam a fala da mulher. “Topamos com bastante gente mal-educada. Muitos parecem querer descontar a raiva da política em nós, que não temos nada a ver”, lamenta. A cabo eleitoral estava desempregada havia oito meses quando recebeu a oferta de fazer parte da panfletagem de um postulante ao GDF. Moradora de Santa Maria, ela confessa não “estar por dentro da política”. “É a primeira vez que trabalho com isso, mas gosto bastante dele (o candidato que ela representa), é uma pessoa que fala com a gente e nos trata bem.”

A militante conta que recebe, quinzenalmente, mas não informa quanto. “Não vai sobrar muita coisa, vou usar para pagar dívidas que fiz nos últimos meses. Mas é um dinheiro suado”, garante. S.T. assinou contrato para os 45 dias de campanha, e trabalha seis vezes por semana. São duas tarefas: rodar o DF com o candidato, sempre chegando antes, para recepcioná-lo, além de entregar panfletos aos eleitores.
 

O que diz a lei

Os candidatos ao Governo do Distrito Federal podem contratar cerca de 4,7 mil cabos eleitorais durante a campanha, segundo o limite estabelecido pela Lei nº 12.891/13 — a chamada minirreforma eleitoral. A contratação excessiva de apoiadores configura abuso de poder econômico. Na prestação de contas, os concorrentes são obrigados “a discriminar nominalmente as pessoas contratadas, com indicação de seus respectivos números de inscrição no CPF”.

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