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Correio Braziliense

Candidato que morreu em teste físico da PM ia se casar no ano que vem

Morte de candidato em prova de aptidão para a PM acende alerta. Segundo amigos e familiares, Leonardo da Silva Oliveira tinha uma "saúde de touro"


postado em 21/09/2018 06:00

Leonardo praticava esportes e não apresentava problemas de saúde(foto: Reproduçao/Facebook)
Leonardo praticava esportes e não apresentava problemas de saúde (foto: Reproduçao/Facebook)

Leonardo da Silva Oliveira pretendia se casar no ano que vem. O plano incluía a ingressão na Polícia Militar do Distrito Federal (PM) como soldado. O primeiro passo havia sido dado. Aprovado nos testes escritos, faltavam os exames físicos. Mas o homem de 31 anos passou mal na última prova, em que precisava correr 2,4 mil metros em 12 minutos, na pista de corrida do Sesi de Taguatinga, onde era realizada a avaliação, na tarde de quarta-feira. Ele sofreu um ataque cardíaco durante a corrida. Recebeu atendimento de emergência no local e foi levado às pressas para o Hospital Regional de Taguatinga (HRT), onde deu entrada às 17h43. Foi transferido para o Santa Marta, mas não resistiu e morreu às 2h40 de ontem. A Polícia Civil investiga o caso, sem prazo para conclusão do inquérito.

“Ele estava fazendo a corrida e já era a última volta, quando começou a cair. De repente, caiu no chão e a mãe dele começou a gritar. Então o socorrista chegou, levaram para perto da ambulância e fizeram massagem cardíaca durante uns 15 minutos”, contou Raimunda Nonata, 50 anos. Ela acompanhava o filho, que realizava o Teste de Aptidão Física (TAF) com Leonardo.

Formado em administração de empresas, Leonardo trabalhava no Ministério da Saúde, em cargo comissionado, e morava com os pais na QNN 1, em Ceilândia. Os amigos o consideravam uma pessoa com muito vigor. “Ele nunca havia reclamado de nenhum tipo de problema de saúde. Fazia academia, pulava de paraquedas, jogava bola, tinha uma saúde de touro”, comentou Paulo Alves Sá, amigo de Leonardo.

A estudante Lyne Ribeiro, 27 anos, com quem Leonardo pretendia se casar em 2019, também desconhece qualquer problema de saúde do namorado. “Ele era bem corretinho. Não sei se usou algum suplemento, mas até a alimentação era com base na dieta que a nutricionista passou para ele. Então não sei o que aconteceu, estou tentando buscar explicações, mas é complicado”, disse ao Correio. O candidato fazia treinos físicos com uma equipe desde julho. Ele e outros candidatos ao cargo de soldado faziam os treinos no Parque da Cidade, entre 18h30 e 19h30, três vezes por semana.

Lyne destacou a determinação e a alegria de Leonardo. “Ele quis se dedicar a um concurso e viu na Polícia Militar uma oportunidade. Também me incentivava muito a estudar, me ajudava muito. Íamos morar juntos ano que vem, estávamos preparando o casamento já. O Leo era apaixonado pela família, pela vida, nunca o vi acordar de mal. E todo dia ele rezava agradecendo pelo que tinha. O Leo é a melhor pessoa que eu conheci na vida.”

Para Paulo, a imagem que fica do amigo de infância é a de um homem que sempre quis bem a todos e correu atrás da sua felicidade e da felicidade de quem o cercava. “Ele era amoroso com a família, nunca abandonou as suas origens e os seus amigos. Era um menino de ouro. Gostava de viajar, de realizar metas com sua namorada, de viver o agora.”

Exames

O TAF é eliminatório e descarta candidatos que não atingem os resultados estipulados para cada etapa. Para estar apto, o concorrente deve passar por quatro exercícios, um teste em barra fixa, um teste de flexão abdominal, uma corrida de 12 minutos e uma prova de natação de 50 metros, a única que acontece em data diferente, dias depois dos outros três.

Por meio de nota, a PMDF garantiu que “toda a equipe médica disponível, que consiste em enfermeiros, socorristas e médico, prestou atendimento ao candidato”. A corporação informou que quem responde pela aplicação do exame é a banca examinadora do Instituto Americano de Desenvolvimento (Iades). O instituto, por sua vez, afirmou que se solidariza com a família do candidato e que aguarda exames que indiquem a causa da morte. O Iades ressaltou que “todos os candidatos são obrigados a apresentar atestado médico que comprovem a aptidão para a realização dos exercícios específicos para o concurso público”.

Predisposição

Cardiologista do Hospital Universitário de Brasília,  Fernanda Weiler explicou que há complicações cardíacas que não apresentam sintomas e podem desencadear mortes como a de Leonardo. Para ela, esses episódios ocorrem com pessoas com predisposição genética para problemas do coração. “Para entender essa morte súbita — em que os sintomas começaram a menos de uma hora do ocorrido — temos que fazer uma investigação completa, que apure não só as causas cardíacas, como causas pulmonares, por exemplo. Mas no campo do coração, geralmente são três as causas de parada cardíaca: a obstrução da artéria coronária, a arritmia maligna ou a alteração na musculatura do coração.”

A especialista detalha que esse órgão é como se fosse uma “casa”, com tubos e paredes. Nos casos de obstrução da artéria, ocorrem entupimentos nos tubos do coração, devido ao acúmulo de gordura. Já as situações de arritmia maligna são desencadeadas por “alterações elétricas”, ou seja, mudanças no organismo devido a muitos estímulos, como cafeína, energéticos e até mesmo o estresse de uma pressão psicológica muito forte. Por último, as alterações na “parede” do coração ocorrem devido a alterações genéticas, em que as pessoas já nascem com elas, ou em quem faz uso de anabolizantes.

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