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Correio Braziliense

Cada vez mais quadrilhas se especializam em roubo de celular

Aparelho celular é um dos mais visados por bandidos devido ao alto valor de smartphones. De janeiro a agosto deste ano, 33.818 roubos ou furtos foram registrados


postado em 23/09/2018 07:09

A cada hora, cinco pessoas são vítimas de furto de celular no DF(foto: PCDF/Divulgação)
A cada hora, cinco pessoas são vítimas de furto de celular no DF (foto: PCDF/Divulgação)


A cada hora, cinco brasilienses são vítimas de furto ou roubo de celular no Distrito Federal. Os dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) mostram que ocorreram 33.818 crimes dessa natureza entre janeiro e agosto deste ano. Isso significa que ao menos 140 aparelhos são subtraídos por dia na capital. Especialistas e as forças de segurança alertam que a prática deixou de ocorrer como “casos isolados”. Associações criminosas passaram a se especializar nesse tipo de delito, usando estratégias de ação refinadas. Para desova dos produtos roubados, centros comerciais e locais de grande circulação de pessoas se transformaram em ponto para a venda dos telefones surrupiados.

Em comparação aos primeiros oito meses do ano passado, os números registraram queda de 13,4%, quando foram registrados 39.073 casos em 2017. Entretanto, o índice ainda coloca em alerta os brasilienses. Nesse mesmo período de 2018, apenas 1.199 celulares foram recuperados pela polícia, ou seja, pouco mais de 3% do total.

Quando se avalia apenas os furtos, o índice aponta crescimento em comparação ao ano passado. De janeiro a maio deste ano, 5.277 pessoas foram vítimas desse tipo de crime, quando, em igual período de 2017, ocorreram 3.590 casos. No total, o número de ocorrências aumentou mais de 46%. Mesmo com o valor expressivo, de outubro a agosto de 2018, apenas 6.530 vítimas realizaram o bloqueio de aparelhos subtraídos pelo programa Fora da Rede da Polícia Civil.

O estudante de enfermagem Edson Freitas, 26 anos, é mais uma das vítimas do expressivo número de casos registrados no DF. Em fevereiro deste ano, dois criminosos o abordaram e levaram o celular dele. “Eu estava saindo de uma festa, no Setor Comercial Sul, e seguia para a Rodoviária do Plano Piloto. Um deles colocou a faca na minha barriga e outro levou o celular. Não tinha como reagir”, conta.
 
Quadrilha desarticulada. Polícia Civil apreendeu aparelhos celulares na casa de dono de loja na Feira dos Importados(foto: Thiago Melo/Esp. CB/D.A Press)
Quadrilha desarticulada. Polícia Civil apreendeu aparelhos celulares na casa de dono de loja na Feira dos Importados (foto: Thiago Melo/Esp. CB/D.A Press)
 
 
Edson afirma que realizou o bloqueio do aparelho, registrou boletim de ocorrência, mas não conseguiu reaver o celular, que tinha apenas quatro meses de uso. “Foi um prejuízo, mas melhor perder um telefone do que a vida”, pondera. De acordo com o estudante, que mora em Samambaia, os casos são comuns e é quase rotina escutar algum caso sobre alguém que teve o celular roubado ou furtado. “O ruim é que a gente trabalha para conseguir alguma coisa e vem alguém e leva”, diz.

Comércio ilegal 


No Distrito Federal, não é difícil encontrar pontos de venda de celulares sem qualquer tipo de fiscalização. Os “comerciantes” (interceptadores perante a lei) atuam em pontos de grande circulação de pessoas ou em polos comerciais. Na Feira dos Importados, localizada no Setor de Indústrias e Abastecimento (SIA), há diversas lojas que vendem aparelhos sem fornecer qualquer tipo de documentação ou nota fiscal, como foi o caso de uma quadrilha presa na última quinta-feira (confira Memória).

Os celulares ficam expostos em vitrine e são vendidos sem caixa ou acessórios. Em alguns estabelecimentos, é possível realizar o desbloqueio dos aparelhos, que, geralmente, são travados pelos donos ao perderem o item em alguma situação. “É superseguro. A gente consegue limpar tudo e ele fica novinho, como se tivesse saído da loja”, garante um vendedor, ao ser questionado sobre o serviço. O preço para fazer o procedimento varia de acordo com a marca do celular e pode chegar a R$ 200. Os comerciantes não se inibem em oferecer o serviço, alguns até anunciam a prática em placas.

De acordo com os comerciantes, há marcas de celulares, como os da Apple, em que nem sempre é possível realizar o desbloqueio. No entanto, os vendedores encontram outra saída para não perder o cliente. “Se você trouxer o aparelho aqui, posso dar uma olhada. Se não der para resetar ele, a gente compra as peças”, informa.

Nas lojas de manutenção, diversos celulares desmontados ficam expostos para a clientela. Um vendedor conta que as peças chegam das mais diversas formas. “Algumas, compramos pela internet, mas muita gente traz celular aqui, a gente compra, desmonta e usa em outros serviços. Eles chegam sem nota mesmo, pegamos só o aparelho”, diz.

No centro de Brasília, na Rodoviária do Plano Piloto, cerca de 700 mil pessoas circulam pelo local, de acordo com dados do Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTrans). Apesar de o lugar ser monitorado por equipes da Agência de Fiscalização (Agefis) e contar com constantes rondas da Polícia Militar, a venda irregular de celulares se tornou comum. A grande movimentação de público atrai os “comerciantes”, que querem fechar o negócio de forma rápida.

Abordagem


Os vendedores, geralmente, se instalam na plataforma superior da Rodoviária, próximo ao ponto de táxi. Eles ficam com os celulares na mão e abordam as pessoas que passam oferecendo o produto. “Tenho dois modelos aqui, um deles está R$ 250 e outro R$ 450. Vamos levar? Se você quiser, até troco em pulseira ou relógio”, oferece um “comerciante”, sem qualquer receio. Ele ainda informa que o celular vem fora da caixa e, caso o cliente exija, ele consegue “arrumar” um carregador. A poucos metros dele, havia quatro policiais militares, que não davam nenhuma atenção para a venda irregular.

O aparelho de valor inferior oferecido pelo ambulante é um Moto G, da marca Motorola. Nas lojas, ele é vendido por até R$ 800, ou seja, na Rodoviária, ele estava sendo comercializado cerca de 70% a menos do que o valor de mercado. O outro celular, um Samsung Galaxy G6, é encontrado nas lojas por cerca de R$ 1 mil, mais de 50% a menos do que a oferta do “comerciante”.

Em nota, a Agefis informa que tem equipe permanente na área central de Brasília, incluindo a Rodoviária. O órgão também ressalta que não fiscaliza nenhum produto específico e, por isso, não tem dados de apreensão somente de celulares. “Temos equipes de auditores combatendo atividades econômicas sem o devido licenciamento, que faz operações nos pontos mais congestionados, mais denunciados e em eventos”, destaca.
 

Esquema de crime organizado

 
O comércio ilegal de celulares furtados e roubados no Distrito Federal se tornou uma forma de negócio organizada e bem profissional. Primeiro ocorre a subtração do item, em seguida, ele é repassado para um revendedor e, por fim, chega às mãos do consumidor final. Todas as etapas do esquema são consideradas crime, mas se tornaram um comércio sólido na capital, que acaba impulsionando os índices criminais.

Este ano, a Polícia Civil realizou ao menos três operações para combater organizações criminosas especializadas em furto e roubo de celulares. Em uma delas, deflagrada em 5 de junho, os agentes prenderam 15 pessoas, acusadas de subtrair os aparelhos durante a Parada LGBT de São Paulo. Eles foram encontrados com 43 celulares na Rodoviária Interestadual de Brasília. Na última quinta-feira, os investigadores desarticularam grupo responsável por clonar cartões de créditos de São Paulo, comprar aparelhos no Rio de Janeiro e revendê-los na Feira dos Importados.

As investigações duraram 4 meses e conseguiram identificar que o grupo criminoso participava de diversos eventos em outros estados, furtavam os celulares e revendiam na capital do país. De acordo com a apuração policial, até mesmo o pagamento dos motoristas que realizavam o transporte do bando era realizado com os aparelhos. Como não foi possível configurar flagrante, os suspeitos não responderão por furto, mas por associação criminosa e receptação.

Esse tipo de ação demonstra como o celular se tornou um objeto de desejo, tanto para o consumidor, quanto para os criminosos. De acordo com o delegado Ronney Matsui, da Coordenação de Repressão aos Crimes Patrimoniais (Corpatri), os aparelhos são compactos e de alto valor no mercado, o que faz com que ele seja tão cobiçado pelos criminosos. “Existe um canal, um comércio irregular para receptar essas mercadorias e reincorporá-las no mercado”, explica o delegado. De acordo com ele, essa logística se consolidou justamente por causa dos consumidores. “O grande problema não é a subtração, mas sim as pessoas que compram esses produtos e fomentam o comércio”, constata.

Por causa das várias etapas do esquema, desde o roubo, ou furto, até a revenda, Matsui ressalta que o crime se tornou cada vez mais difícil de ser combatido. “São muitas pessoas envolvidas e não temos um efetivo tão grande na Polícia Civil para acompanhar todos os casos nem os pontos irregulares de venda”, lamenta. Matsui explica que, por ter pessoas com grande poder aquisitivo, o Distrito Federal se tornou um atrativo para os criminosos. “Apesar do trabalho de repressão da polícia, que acaba afastando esses bandidos, temos um público que porta celulares de alto valor, que são os preferidos dos assaltantes”, diz.

O investigador aponta que, além das vendas realizadas nas ruas ou em feiras comerciais, ainda há uma grande movimentação do mercado pela internet. “Os aparelhos são vendidos com um valor muito inferior ao comum. Quem pratica o roubo ou furto repassa por um preço baixo ao comerciante, que realiza um reajuste um pouco maior para o consumidor final”, destaca.

Para o delegado, a forma ideal de combater esse tipo de crime começa pelo consumidor. “Se as pessoas parassem de comprar os produtos, ação que é considerada crime, não haveria essa movimentação no mercado, o que desmotivaria os assaltantes”, comenta. Segundo Matsui, quem for comprar um aparelho deve exigir nota fiscal. O delegado relata que a Polícia Civil investiga receptadores no Distrito Federal, e que novas operações devem ser deflagradas ao longo do ano. “Estamos com investigações em curso para levar esses comerciantes ilegais para a prisão”, afirma.



É crime


Confira as penas para quem participa de alguma forma do esquema de comércio ilegal de celulares roubados ou furtados

Quem compra celulares de forma ilegal responde por receptação dolosa e pode cumprir pena de 1 a 4 anos de detenção.

Quem comercializa celulares advindos do crime responde por receptação qualificada e pode cumprir pena de 3 a 8 anos de prisão.

A legislação prevê pena de 1 a 10 anos de prisão para quem comete furto.

Para quem cometer o crime de roubo, a pena pode variar entre 4 e 10 anos.


Memória 



20 de setembro de 2018 
A Polícia Civil deflagrou a Operação Hermes, que resultou na prisão de duas pessoas responsáveis por clonar cartões de crédito em São Paulo, para realizar a compra de celulares no Rio de Janeiro e revendê-los na Feira dos Importados, em Brasília. Celulares, computadores, máquinas de cartão e dezenas de documentos foram apreendidos pelos agentes durante a operação.


13 de julho de 2018 
Policiais da 16ª Delegacia de Polícia (Planaltina) indiciaram 15 pessoas por receptação, por terem adquirido celulares advindos de crimes. A operação resultou na apreensão de 25 aparelhos que foram subtraídos durante crimes como roubos e furtos. Com o auxílio do depoimento das vítimas, os policiais conseguiram identificar os suspeitos, que estavam em cidades do DF e do Entorno.


8 de março de 2018 
Agentes da 17ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Norte) prenderam oito pessoas acusadas de participar de um esquema criminoso especializado em desbloqueio de celulares furtados e roubados. A investigação indicou que os suspeitos atuavam em Taguatinga, Ceilândia, na Feira dos Importados, em Águas Lindas de Goiás (GO) e em Goiânia. Dentro da associação criminosa, cada integrante cumpria um papel. Havia aqueles que atuavam na ponta, cometendo furtos e roubos, e pessoas que repassavam ao grupo os aparelhos já subtraídos das vítimas. Os reféns bloqueavam os dados do celular acreditando que ele ficaria inutilizado, mas, por meio de um programa, criminosos conseguiam desbloquear o código e utilizar normalmente o celular.

20 de junho de 2017  
Policiais civis desarticularam uma organização criminosa especializada em furto de aparelhos celulares em comércio. O grupo, que se organizava em Santo Antônio do Descoberto (GO), atuava em pelo menos nove unidades da federação, inclusive o DF. Eles planejavam cada etapa dos crimes de forma articulada. Três ou quatro integrantes entravam na loja pouco antes do fechamento e saíam pela manhã, quando o estabelecimento era reaberto, carregando os itens. Em seguida, os produtos eram revendidos de forma clandestina a receptadores. No total, 19 crimes foram cometidos na capital e o grupo teria faturado mais de 2 mil celulares avaliados em mais de R$ 2 milhões. Os policiais cumpriram 34 mandados de prisão.


10 de dezembro de 2017 
Investigadores da Delegacia de Repressão a Roubos e Furtos (DRF) prenderam um funcionário da empresa de aviação Latam Cargo por desviar smartphones que estavam em trânsito. O emprego foi preso com uma carga com 400 celulares, avaliada em R$ 250 mil. A suspeita é de que o homem repassa os aparelhos para uma banca da Feira dos Importados, que vende os celulares com preço abaixo do mercado. Ele também foi preso. A investigação apontou que os criminosos deram prejuízo de mais de R$ 1,5 milhão.
 
 
 
 
 

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