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Correio Braziliense

Escola Meninos e Meninas do Parque atende jovens e adultos moradores de rua

Dentro do Parque da Cidade, um espaço destinado à educação de pessoas em situação de rua ganha relevância graças aos projetos desenvolvidos pelos alunos


postado em 24/09/2018 06:10

A Escola Meninos e Meninas do Parque reúne professores abnegados e alunos que lutam para um futuro melhor por meio do estudo(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A Escola Meninos e Meninas do Parque reúne professores abnegados e alunos que lutam para um futuro melhor por meio do estudo (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Com paredes coloridas, hortas em canos de PVC e trabalhos expostos em cada canto, a pequena escola no Parque da Cidade, próxima ao Estacionamento 6, pode ser confundida com qualquer outro centro de ensino. Mas o espaço é, desde 1995, a Escola Meninos e Meninas do Parque, única da cidade com foco em atender jovens e adultos em situação de rua.

O governo estima que, no Distrito Federal, três mil pessoas vivam nessas condições. Dessas, 182 estão matriculadas na escola, que funciona nos períodos matutino e vespertino. Os formados ali saem com o diploma de ensino fundamental e são encaminhados a outras unidades para cursar o ensino médio.

Um dos alunos é Marcus Alves Ferreira, 35, morador de rua há 23 anos. Ele conta que tinha 12 anos quando foi abandonado pela mãe e passou a morar com a avó em Vicente Pires. Não muito tempo depois, decidiu sair de casa e acabou se envolvendo com drogas. Na rua, fez amizades que frequentavam o colégio e o motivaram a voltar a estudar.

“Eu conheço a escola há cinco anos, mas só comecei a levar a sério há três. Aqui a gente tem uma chance de ser igual a todo mundo por meio do conhecimento e do respeito”, emocionou-se. Marcus está se preparando para receber o diploma no ano que vem e pretende, no futuro, trabalhar na área da educação física. “Antes, eu não conseguia ficar sem drogas — eram 24 horas cheirando cola e hoje não faço mais isso. A rua traz muita coisa errada e a escola vem nos educar”, garante.

Assim como Marcus, muitos alunos são esporádicos: faltam e demoram a se dedicar. Segundo a diretora Amélia Araripe, apenas 60 são assíduos. “Eles chegam fragilizados, achando que não dão conta e fazem de tudo para ser excluídos do processo. Às vezes, demoram para perceber que têm talento e são capazes”.

Amélia explica ainda que, ao chegarem, os estudantes recebem um kit com toalha, sabonete e camiseta do uniforme escolar para que possam tomar banho e se trocar na escola. Depois, podem lanchar e são acolhidos na turma de integração que, além de avaliar o conhecimento de cada um para determinar em qual nível serão colocados, também tem o objetivo de ensinar sobre coletividade e respeito às diferenças.

Quem tiver interesse pode ser matriculado a qualquer momento do ano, porque o ensino é individualizado, isto é, dentro de uma mesma turma pode haver alunos com níveis diferentes. “Procuramos respeitar o ritmo e o tempo de aprendizagem de todos. Esse aluno vai demorar um pouco mais, mas o aprendizado vai ser real. Ele sairá sabendo escrever e ler, não fingindo”, destaca a diretora.

Ao todo, são 16 professores que ministram as disciplinas do ensino regular (matemática, português, história, etc) e oficinas de corpo e artes. Nestas aulas são ensinados, entre outras coisas, cuidados com o corpo e higiene. “Uma pessoa com mal-estar físico não tem como produzir. A aprendizagem precisa ser confortável e prazerosa”, acrescenta Amélia.

Adolescentes


As principais faltas são dos adolescentes, tanto por dificuldades de locomoção quanto pela dependência do crack. Até 2013, uma Kombi doada pelo Unicef ajudava os funcionários a buscar esses jovens, mas, em 2015, segundo a diretora, a escola foi proibida de fazer esse serviço, que passou a ser função da Secretaria de Estado do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh).

No ano seguinte, foram autorizados novamente, mas uma árvore caiu sobre o veículo e, desde então, estão sem meios para fazer o transporte dos estudantes. Para a diretora, a perda da Kombi impactou diretamente na presença dos adolescentes. “O motorista ia cedinho com algum professor e, quando os meninos os viam, nem acreditavam. Eles vinham para a aula porque sentiam que aqui eram respeitados, seriam tratados com carinho”, relembra.

O Voar alto, idealizado pelo pequeno torcedor Arthur Castro: discute o preconceito usando como referência o Flamengo(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
O Voar alto, idealizado pelo pequeno torcedor Arthur Castro: discute o preconceito usando como referência o Flamengo (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


As doações são parte fundamental da escola. Apesar de o material didático coletivo ser enviado pela Secretaria de Educação, objetos individuais como cadernos, lápis e canetas vêm da ajuda de voluntários. “Quando as pessoas veem que esses adultos, pela educação, estão tendo oportunidades que antes não tinham, quando veem que o conhecimento pode resgatar a cidadania, começam a ajudar e fortalecem a escola”, declara a diretora.


Projetos vitoriosos


Os meninos e meninas da Escola do Parque se orgulham por terem vencido cinco vezes o Circuito de Ciências das Escolas da Rede Pública na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA) a nível nacional. Este ano foram os campeões da etapa regional e agora se preparam para a grande disputa.

Três projetos sobre conhecimentos foram desenvolvidos: Jardineiros da vida (que trata de poemas), feito pelos alunos em alfabetização; Entrando e saindo pelo cano, (produção de móveis e utensílios) realizado pelos alunos prestes a se formar, e Voar alto (que enfoca o preconceito, a partir do clube de futebol Flamengo, idealizado pelo pequeno torcedor Arthur Castro, 11, e executado em parceria com os colegas). Orgulhosos do trabalho, os alunos se empolgam para falar dos objetos feitos com canos, desde cadeiras até luminárias.

Membro da primeira turma vitoriosa no circuito, Jailson Borges, 39, formou-se em 2014 e hoje trabalha como agente social. Uma das missões dele é convencer pessoas a frequentar a escola no parque. “Foram 15 anos na rua e o que eu passei eu não desejo a ninguém”.

Há dois anos ele conseguiu alugar uma casa onde mora hoje. Os planos agora são concluir os estudos no ensino médio e ser aprovado para o curso de biologia marinha na Universidade Federal do Maranhão, estado onde nasceu.

Mais informações
Quem tiver interesse em fazer doações para a escola, pode entrar em contato pelo telefone 3901-7780

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