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Correio Braziliense

Festival de Música em unidade de internação inspira adolescentes infratores

Projeto desenvolvido na Unidade de Internação de Santa Maria (UISM) foi premiado pelo Unicef


postado em 28/09/2018 06:00 / atualizado em 27/09/2018 22:15

Unidade de internação em Santa Maria: ação cultural ajuda a ressocializar os adolescentes(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Unidade de internação em Santa Maria: ação cultural ajuda a ressocializar os adolescentes (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Em meio aos vários desenhos e pinturas dos 151 adolescentes da Unidade de Internação de Santa Maria (UISM), um mural na parede chama a atenção: “A arte é o prazer do espírito”, frase do escultor francês Auguste Rodin. A arte vai além na UISM, ela ajuda a dar esperança e a confortar os internos. Por isso, o 3º Festival de Música da instituição é também uma chance dos jovens para apresentar composições autorais, dizerem o que pensam por meio da música e projetarem um futuro melhor.

Marcos*, 17 anos, nunca teve contato com a arte até ser sentenciado a cumprir medida socioeducativa na UISM. Há um ano, é presença certa nas oficinas de violão, oferecidas pela administração. “Por meio das minhas músicas, eu consigo expressar o que vivo, o que passo. Minha maior inspiração é a vontade de recomeçar longe daqui”, conta ele, criado em Samambaia.

O Festival de Música é o ápice de uma série de atividades, relacionadas à arte, realizadas ao longo do ano com os internos, em parceria com o projeto Ressocialização, Autonomia e Protagonismo (RAP). No evento, vários adolescentes em conflito com a lei apresentam seus versos em forma de rap, composto dentro da UISM. O palco é decorado com desenhos feitos por internos, tal como a arte da camisa oficial do evento.

Durante a performance dos companheiros, a plateia canta com o artista e aplaude muito ao fim das apresentações. As letras são abrangentes, e tratam, principalmente, de temas como futuro, sonhos, política, racismo e educação.

O produtor musical Heitor Valente, responsável por dar ritmo aos versos criados pelos jovens, acredita que o foco do projeto é deixar clara a importância de cada um dos internos no contexto social. “Esse tipo de evento faz com que ocorra uma emancipação mental desses adolescentes. Trabalho para que eles saiam daqui e não se tornem reincidentes”.

Em um levantamento da Secretaria de Segurança Pública e Paz Social do Distrito Federal, em 2016, a taxa de reincidência de jovens na prática de atos infracionais chegou a 85%.

Parentes

A arte fez diferença na vida de Marcos, autor de seis músicas, que variam entre funk, rap e sertanejo. Após cumprir a decisão judicial, o adolescente planeja seguir na carreira musical. “Eu nem sei o que seria de mim sem esse projeto, fundamental para a minha ressocialização”, comenta. Ele elege as oficinas de arte como a melhor atividade da UISM “atrás apenas do dia em que revê a família”. Marcos recebe visita dos parentes apenas aos fins de semana.

Como as obras da Unidade de Internação do Gama, destinado ao segmento feminino, não estão finalizadas, 21 meninas vivem em um espaço anexo aos prédios principais, onde os garotos moram. A rotina é semelhante, e, da mesma forma que Marcos, Jéssica*, 17 anos, enxerga o futuro no meio musical. “Descobri que tenho talento aqui dentro. Sempre fui fã de rap, mas agora vejo que posso criar minhas letras”, argumenta.

O sentimento de Jéssica é explicado pelo psicólogo Mauro Evangelista, especialista em assuntos na área de juventude, escola e violência. “Experiências de expressão e comunicação resolvem problemas de jovens violentos. Quando a pessoa canta, nomeia os conteúdos que pensa e sente. O espaço de simbolização é fundamental para a saúde psíquica do ser humano”, explica Evangelista, professor universitário e líder uma equipe de estagiários que atuam na área psicológica da UISM.

Em cima do palco, performando para a plateia formada por agentes, colegas e voluntários, Jéssica se sente em casa. Dona de letras sobre família e  realidade dos jovens internos, ela confessa que, quando canta, sai um pouco da realidade, e se lembra de que é capaz de fazer coisas boas. “Esqueço todos os meus problemas e me sinto mais livre. Eu me sinto poderosa. Tenho certeza de que tenho algo de bom para mostrar. Todo mundo tem, né?”, reflete a adolescente do Riacho Fundo II.

"Esqueço todos os meus problemas e me sinto mais livre. Eu me sinto poderosa. Tenho certeza de que tenho algo de bom para mostrar”
Jéssica, do Riacho Fundo II  
 

Em busca de reconhecimento 

Um dos mais queridos pelos internos é o professor Francisco Celso, funcionário do local há quatro anos. Mais que um fã de rap, ele tenta unir a disciplina ao estilo musical de maior sucesso entre os adolescentes da UISM. “São nessas letras que esses garotos se tornam protagonistas, não nos livros. Dessa forma, discutimos em sala de aula a matéria e a nossa realidade”, esclarece Francisco, apresentador do Festival Musical, que premia melhor intérprete, melhor letra e revelação.

Algumas composições também serão gravadas em um CD, da coletânea Entre o sonho e a saudade. Recentemente, alguns internos participaram de um videoclipe para a produtora Quebrada em Cena, mas o conteúdo só pode ser divulgado após eles deixaram o regime socioeducativo. “Quem quer sair desse caminho que entramos ouve muito ‘não’. Vê muitas portas se fechando. Quando aparece uma oportunidade, me dedico ao máximo. Quero gravar um vídeo, uma música, fazer sucesso…não tenho condição de fazer isso fora daqui, então aproveito”, explica Marcos.

O Festival de Música é fruto de uma parceria entre a Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude do DF (Secria), Secretaria de Estado de Educação (SEE-DF), Núcleo de Ensino da UISM, Projeto RAP, Coordenação Regional de Ensino de Santa Maria, Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) e a Associação Respeito e Atitude (Area).

O projeto foi selecionado pelo Prêmio Itaú-Unicef no Distrito Federal. A indicação já rendeu R$ 20 mil aos cofres da instituição, verba a ser aplicada em atividades pedagógicas. O Festival de Música também concorre, na mesma premiação, a nível nacional. Os valores recebidos, em caso de vitória, podem chegar aos R$ 200 mil.

* Os nomes dos adolescentes são fictícios

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