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Correio Braziliense

Jovens de 16 e 17 anos antecipam título por desejo de escolher candidato

Jovens entre 16 e 17 anos se antecipam para tirar o título de eleitor em nome do desejo democrático de escolher um candidato. Assim como idosos acima de 70 anos, que, mesmo dispensados da obrigatoriedade, querem um país melhor


postado em 30/09/2018 07:00

Para eles, o voto é facultativo. Só vão às urnas se quiserem, sem ter de justificar a ausência nem prestar contas para a Justiça Eleitoral. Funciona assim para adolescentes entre 16 e 17 anos e idosos a partir dos 70. Mas, entre esses eleitores, há quem faça questão de escolher seus representantes políticos. Por isso, no caso dos mais novos, alguns antecipam a emissão do título só para participar do pleito do próximo domingo. Em relação aos mais velhos, porém, há duas faces: aqueles que, descontentes, abandonaram o voto e os que, desde 1989, data da primeira votação depois da ditadura, não abrem mão de exercer a função de cidadania e de democracia.

O Distrito Federal tem, hoje, 2.084.356 de eleitores. Desses, 14.538 têm entre 16 e 17 anos (que decidiram obter o título de eleitor). Os idosos cujo voto é facultativo somam 113.297: 85.179 estão entre 70 a 79 anos e 28.118 têm a partir de 79. Significa que quase 128 mil votantes não são obrigados a comparecerem na seção eleitoral no dia da votação (Veja o que diz a lei).

Mas, para os adolescentes que escolheram ir às urnas, o voto é significativo. Estudante do 2º ano do ensino médio, Gabriela Branquinho completou 16 anos em janeiro e, no mesmo mês, obteve o título eleitoral. “Eu ficava fazendo as contas de quando poderia começar a votar. Sempre quis participar desse momento. Quando minha mãe ia, eu entrava com ela na seção. Em ano eleitoral, os meus pais debatem sobre política, e eu sempre gosto de ouvir e entender”, diz.

Preocupada com os rumos da economia do país, Gabriela decidiu pelos candidatos que, na visão dela, podem melhorar as contas públicas, assim como investir em educação e saúde. “A política influencia todo o sistema do país. Interfere na escola que você estuda, no hospital que frequenta. Por isso, temos que tentar votar na melhor opção. É uma responsabilidade que temos e, por isso, devemos tomar cuidado e manter muita calma nesse momento”, ressalta.


Ideologia

Também estudante, Rodrigo Villar Raposo, 16, tirou o título antes do meio do ano, assim como amigos que fazem questão de votar. Interessado em assuntos de política, ele quer fazer a diferença na escolha dos candidatos que vão assumir o poder pelos próximos quatro anos. “Cada voto importa, e eu não quero que ninguém decida o futuro do país por mim. Ninguém é perfeito, mas procurei aqueles que têm uma ideologia parecida com a minha e soluções para organizar o país”, afirma.

Além da ideologia, Rodrigo reforça que optou pelos candidatos que têm como base a ética e boa índole. “Desde muito novo tenho interesse pelo assunto. Gosto de ouvir, aprender, estudar. É um primeiro voto que faz a diferença e quem não pensa assim acaba desperdiçando a chance da escolha correta e consciente”, ressalta.

Professor emérito do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), David Fleischer observa a participação de jovens de forma crescente na política. “Eles estão convictos de que precisam mudar alguma coisa em razão da revolta do que tem acontecido nos últimos anos. E esse engajamento é saudável”, analisa.

Na visão do especialista, a insatisfação com o sistema leva ao desejo de participação do pleito eleitoral. “Quanto maior o envolvimento, mais ampla é a participação na política. No caso dos idosos, há uma revolta deles pelas coisas que não deram certo no passado”, comenta.


Voto entre idosos

Mesmo com idade para se ausentar das votações, Ronnie e Maria da Conceição Soares, 79 e 73, respectivamente, também fazem questão de escolher os candidatos. Os dois guardam os comprovantes dos votos há 29 anos, desde que exerceram a escolha de forma popular pela primeira vez. “Tive muita decepção. Confiei em candidatos que não deram certo, mas as eleições são um direito à liberdade e à esperança de algo melhor. A gente pode não acertar, mas o importante é insistir”, destaca o funcionário aposentado do Banco do Brasil.

Apesar de fazer questão de escolher os próprios candidatos, Ronnie não esconde o desânimo com a política do país e a conduta de representantes da sociedade. “Hoje, o sistema está sujo com a corrupção. Tenho a preocupação com o futuro dos meus netos”, avalia. Para a companheira, o voto é uma forma de colaboração com o futuro do país. “A política está em um nível muito baixo, mas o sentimento é de esperança, de mudança para que os candidatos de fato ajam conforme aquilo que estão pregando”, acrescenta.

Ainda assim, há quem esteja desmotivado para ir às urnas. É o caso de Maria Aparecida Bitencourt, 74. Até 2014, ela exerceu o direito ao voto, mas não votará neste ano. “Toda vez esperamos algo de diferente, só que as propostas desanimam. Até posso ter um ou outro candidato que coloco a mão no fogo, porém,  não sei se ele tem chance de ganhar. Os cabeças são os mesmos, que fazem uma política suja e trazem desânimo, descontentamento”, critica.

Maria Aparecida acredita que, se o voto não fosse obrigatório, menos da metade da população deixaria de escolher os candidatos. “O número de renovação a cada ano está menor. Sonho com uma eleição em que pudéssemos fazer um país novo. Temos uma fronteira imensa, produzimos riquezas, temos tudo para ser uma grande nação, mas não somos”, lamentou.

A posição dela é contrária à do pai, que morreu em 2008, aos 102 anos, e votou até 2006. “A política está baseada na mentira, no jogo sujo, com muita briga, o que deixa a gente desmotivada, desanimada. Papai que não deixava de ir votar. Para ele, era uma questão de cidadania”, acrescentou.

O que diz a lei

A Constituição prevê voto obrigatório para pessoas a partir de 18 até 69 anos, e deixa facultativo para adolescentes entre 16 e 17 anos e para os idosos acima de 70. Apesar de ser opcional nessas idades, esses eleitores precisam comparecer ao cartório eleitoral para manter o cadastro ativo. No caso dos idosos, é a única maneira de confirmar que pretendem continuar exercendo o direito ao voto. Se não, a Justiça cancela o título do eleitor que deixa de votar ou justificar por três eleições consecutivas. Para efeito dessa contagem, cada turno de um pleito é considerado uma eleição individual.

(foto: Marilia Lima/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Marilia Lima/Esp. CB/D.A Press)

“Eu ficava fazendo as contas de quando poderia começar a votar. Sempre quis participar desse momento”
Gabriela Branquinho, 16 anos


(foto: Marilia Lima/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Marilia Lima/Esp. CB/D.A Press)

“Cada voto importa e eu não quero que ninguém decida o futuro do país por mim”
Rodrigo Villar, 16 anos


(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)

“As eleições são um direito à liberdade e à esperança de algo melhor. A gente pode não acertar, mas o importante é insistir”
Ronnie Soares, 79 anos, ao lado da mulher, Maria da Conceição


(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)

“O número de renovação a cada ano está menor. Sonho com uma eleição em que pudéssemos fazer um país novo”
Maria Aparecida Bitencourt, 74 anos

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