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Correio Braziliense

ICMBio monitora as espécies ameaçadas de extinção em Goiás

Instituto Chico Mendes lista espécies sob risco de extinção e especialistas alertam sobre a importância animal na produção de medicamentos


postado em 30/09/2018 07:00

Lobo-Guará(foto: Martin Harvey/WWF)
Lobo-Guará (foto: Martin Harvey/WWF)

O Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) passou, recentemente, a monitorar espécies ameaçadas de extinção em Goiás. Quando a humanidade perde algum tipo de animal, é difícil dimensionar o tamanho do prejuízo da sociedade. Um setor que pode sofrer grande dano, por exemplo, é o farmacêutico, visto que alguns medicamentos importantes são de origem animal.

O empresário aposentado José Maria Uruena Sebastian, de 72 anos, já sofreu dois infartos do miocárdio. No segundo, em 2008, uma complicação fez com que o paciente precisasse de tirofiban, medicamento produzido com base nos venenos da cascavel-anã. “Foi bastante importante para mim. Há 10 anos vivo bem, tomando remédio apenas por precaução”, comenta o espanhol, morador de Brasília desde a fundação da cidade.

Macaco-prego(foto: M.Haslam/Divulgação )
Macaco-prego (foto: M.Haslam/Divulgação )

De acordo com o cardiologista Fausto Stauffer, a droga é importantíssima no tratamento de infartos mais agudos. “Ela ajuda a diminuir os coágulos formados nas artérias que irrigam o coração. O tirofiban diminui as chances de morte e complicações, é algo bem impactante”, sublinha o coordenador de cardiologia do Hospital Santa Lúcia Norte, diretor científico da Sociedade Brasileira de Cardiologia do Distrito Federal.

Entre os 11 animais agora protegidos oficialmente pelo ICMBio, é listado um tipo de serpente: a Philodryas lívida, presente em todo o Goiás. A União Internacional para Conservação da Natureza (UICN) classifica a espécie como vulnerável. Também existem casos de animais da relação em perigo (EP) e criticamente em perigo (CR).

Serpente Philodryas lívida(foto: Cristiano Nogueria /ICMBio)
Serpente Philodryas lívida (foto: Cristiano Nogueria /ICMBio)

Não são todas as espécies que contribuem com a fabricação de fármacos. Porém, quando a humanidade extingue uma espécie, também perde a chance de encontrar alguma função social para a categoria desaparecida. “Ainda entendemos muito pouco sobre os animais e as relações entre eles e o ambiente. Quando perdemos um sapo, por exemplo, deixamos para trás compostos químicos que poderiam ser utilizados para melhoria da saúde humana”, pondera Igor Morais, biólogo e assessor de conservação e pesquisa aplicada do Zoológico de Brasília.

O discurso do professor Raimundo Henriques, do Departamento de Biologia da Universidade de Brasília (UnB), segue a linha do ainda raso conhecimento humano sobre o benefício das variadas castas animais. “Várias espécies já nos ajudam, mas não sabemos o possível benefício de tantas outras. É preciso conservar até que uma mente talentosa descubra a utilização em prol da sociedade” argumenta.

Sapo Allobates(foto: Philippe Kok/WWF-UK - 2/12/12 )
Sapo Allobates (foto: Philippe Kok/WWF-UK - 2/12/12 )


Combate ao câncer

Inúmeros medicamentos são retirados de toxinas de alguns tipo de sapo. Em 2015, por exemplo, a Universidade de Adelaide, da Austrália, divulgou um estudo em que o veneno de uma espécie australiana é ativo no combate de 60 linhas celulares padrão de câncer, em especial em casos de próstata. Na lista de preservação goiana, o ICMBio tenta manter vivo o Allobates goianus, presente na Chapada dos Veadeiros e na Serra da Mesa, destinos conhecidos dos brasilienses.

Além do Allobates goianus, a Chapada abriga outras espécies ameaçadas, que contam com plano de ação de conservação elaborado sob a coordenação do ICMBio, como o lobo-guará, a raposinha-do-campo, o pato-mergulhão, entre outros. “É fundamental fortalecermos as ações previstas nesses planos, para que possamos reverter as ameaças sobre as espécies e os ambientes da região”, comenta Fernando Tatagiba, gestor do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, abrigo de uma fauna com mais de 1.470 espécies.

As ações do ICMBio são todas vinculadas ao Ministério do Meio Ambiente. Além da missão da preservação da vida dos animais, ele visa garantir a preservação dos habitats naturais, fundamentais para a biodiversidade.


Espécies ameaçadas de extinção em Goiás


Sapo Allobates goianus (EN)
Sapo Proceratophrys moratoi (EN)
Serpente Philodryas livida (VU)
Macaco-prego Sapajus cay (VU)
Peixe Ancistrus minutus (EN)
Peixe Baryancistrus niveatus (CR)
Peixe Brycon gouldingi (EN)
Peixe Creagrutus varii (VU)
Peixe Lamontichthys avacanoeiro (EN)
Peixe Mylesinus paucisquamatus (EN)
Peixe Rhynchodoras xingui (EN)

Lobo-guará, identidade do cerrado

Além das vantagens mais “visíveis” da manutenção da vida de um animal, a extinção de uma espécie pode ser considerada uma derrota para a raça humana. “Nós somos responsáveis por manter e cuidar do mundo para as próximas gerações”, alerta o biólogo Igor Morais.

O funcionário do Zoológico de Brasília também alerta para a perda da identidade do cerrado, por exemplo, caso o ameaçado lobo-guará suma do mapa. “É uma espécie icônica que influencia nossa mente e cultura. Caso desapareça, pode não sentir dano perceptível, mas o dano é enorme”, pondera. Até 2016, o lobo-guará era alvo de um plano nacional para evitar que o bicho entrasse em extinção. Ainda assim, é até hoje listado como vulnerável.

Três perguntas para Fernando Tatagiba, gestor do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros


O que representa para a Chapada, por exemplo, a extinção de uma espécie? 

A grande riqueza de espécies e ambientes, associada ao acelerado processo de devastação do cerrado, torna a Chapada dos Veadeiros uma região com prioridade de conservação extremamente alta. Extinção é um fenômeno definitivo. Não há volta. A extinção de uma espécie representa um passo rumo ao empobrecimento (ambiental e humano).

Quais as consequências disso a médio e longo prazos? 

O bem-estar humano, em vários aspectos, depende de ecossistemas bem conservados e seus serviços associados, que por sua vez dependem da biodiversidade. A perda da biodiversidade pode, por exemplo, desestabilizar ecossistemas, provocando surtos de doenças infecciosas ou pragas agrícolas. Importante destacar que a extinção das espécies está normalmente associada à destruição ou à fragmentação do seu habitat. Desta forma, as consequências podem ser ainda maiores.


Como a população é, na prática, afetada com tudo isso?

Como dito anteriormente, a população é afetada diretamente pela perda de espécies e ecossistemas, ficando mais vulnerável a doenças infecciosas ou tendo atividades importantes comprometidas, como polinização, regulação hídrica, entre outros. Além disso, a perda de espécies pode significar a perda de recursos utilizados pela população humana, como é o caso de espécies madeireiras e peixes, tendo a redução de seus estoques como consequências econômicas e sociais importantes.

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