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Correio Braziliense

Programa Esporte à Meia-Noite tira jovens de situações de vulnerabilidade

Programa, premiado pela iniciativa de práticas esportivas à meia-noite, transforma vidas, mas ainda precisa de mais apoio governamental, como segurança e alimentação


postado em 02/10/2018 06:00 / atualizado em 01/10/2018 23:28

O projeto Esporte à Meia-Noite tem 20 anos e mantém o objetivo inicial: tirar pessoas da vulnerabilidade social (foto: Mariana Machado/Esp. CB/D.A Press )
O projeto Esporte à Meia-Noite tem 20 anos e mantém o objetivo inicial: tirar pessoas da vulnerabilidade social (foto: Mariana Machado/Esp. CB/D.A Press )


Com quase 20 anos de funcionamento, o Esporte à Meia-Noite treinou mais de 387 mil pessoas em situação de vulnerabilidade, e recebeu prêmios de reconhecimento pelo trabalho feito, incluindo o de destaque no apoio à infância e adolescência, do Instituto Ethos. São 10 pontos de atendimento, que recebem diariamente cerca de 20 alunos, mas o número pode chegar a 150 em dias de campeonatos. Neste ano, o programa virou lei (nº 6.111/2018). Um dos idealizadores, e atual coordenador no núcleo da Cidade Estrutural, professor Lino Ribeiro se emociona ao falar das conquistas que teve. “Há 9 anos, o êxodo escolar era muito grande e existia aquela história de não pertencer ao lugar. Ninguém queria dizer que era da Estrutural, todo mundo negava. Fomos trabalhando e hoje os alunos têm verdadeira admiração pela cidade”, avalia.

O núcleo da Estrutural funciona no Centro Educacional (CED) 01 e oferece aulas de vôlei, às segundas e quartas-feiras, basquete às terças e quintas-feiras, e futsal às sextas-feiras. Mas, o projeto vai além da prática esportiva. O incentivo aos estudos tem impulsionado muita gente a escolher rumos na vida.

É o caso do hoje advogado Lucas Furquim, 23. Há sete anos ele começou a jogar vôlei e conta que o convívio com os colegas foi um grande impulso para escolher o curso de direito. “Acham que na Estrutural só há bandido, mas aqui eu aprendi harmonia. As pessoas têm problemas, mas muito pode ser resolvido com o programa”, relata.

Segundo Lucas, a oportunidade de praticar atividades físicas tem tirado muita gente da criminalidade. “Quando o Esporte à Meia-Noite chegou, poucos sabiam a respeito, houve um crescimento. Todo ano lutamos para manter o projeto, porque sempre há algum político querendo acabar com tudo. É algo que ajudou e continua ajudando muita gente aqui, tirando das drogas e incentivando o esporte”, destaca.

Mais apoio

Além da Estrutural, há núcleos em Ceilândia, Samambaia, São Sebastião, Sobradinho 2, Gama, Santa Maria, Paranoá e Planaltina e as aulas são sempre das 22h às 2h. Foi o próprio Lino que sugeriu o horário. “Na época, achavam que eu era louco, mas depois viram que é na noite que ocorrem mais crimes, então era o ideal para tirar essas pessoas da rua e colocar em um esporte”, afirma o professor.

Mas, tanto instrutores quanto alunos reclamam da falta de apoio das forças de segurança. No início, havia efetivos do Corpo de Bombeiros e da Polícia Militar dedicados ao programa. Hoje, caso um aluno se machuque, os professores devem prestar socorro e acompanhar a pessoa ao hospital.

“Nós seguramos a barra quando alguém machuca. Vamos ao hospital e passamos a madrugada com ele. Saio de lá às 8h e ainda deixo esse menino em casa. Se houvesse um bombeiro como antigamente, o jovem era atendido prontamente com eficiência e rapidez”, reclama Lino.

Professor Lino:
Professor Lino: "Hoje os alunos têm verdadeira admiração pela cidade" (foto: Mariana Machado/Esp. CB/D.A Press )

 

Tratamento

Além disso, não há mais as equipes de policiais militares que ficavam voltados para a segurança dos frequentadores. A única exceção é em Ceilândia, onde ainda há policiamento, mas a professora Andreia Silva teme que em breve não haja mais. “É uma polícia com tratamento diferenciado, não repressiva. Eles fazem com que as pessoas queiram ir sem medo às quadras”.

A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou por meio de nota que o batalhão de cada área é acionado em caso de emergência. “Além disso, em março do ano passado os professores do Esporte à Meia-Noite passaram por um curso de formação em primeiros socorros promovido pela corporação, para que, desta forma, possam auxiliar de imediato os participantes do projeto, se necessário”, informa o texto.

Sobre a segurança, a SSP disse que a Polícia Militar faz rondas nos horários de início e término das aulas. “A coordenação do Esporte à Meia-Noite não tem conhecimento a respeito de casos de violência ocorridos dentro dos núcleos”, finaliza a nota.

Para Douglas Washington de Sousa, 23, morador da Estrutural, parece haver um descaso com os atletas. “Aqui na cidadem os policiais confundem as pessoas. Às vezes, a gente está saindo do esporte e toma baculejo. Antes mesmo de explicar quem somos, estão gritando conosco como se fôssemos animais. Não é só porque a gente mora na Estrutural que somos vagabundos”, reclama.

Douglas, que trabalha como fotógrafo, frequenta as aulas desde os 16 anos, quando descobriu por acaso. “Estava passando aqui e vi o pessoal jogando. Entrei e o professor me chamou para jogar”. A partir daí, nasceu uma paixão pelo vôlei, que cresceu a ponto de ultrapassar os muros da escola. Para reunir os amigos e praticar o esporte aos fins de semana, ele decidiu por conta própria iniciar o grupo “Vôlei no Fluxo”, em 2013.
 
Douglas:
Douglas: "Quem não joga, escuta música, torce pelos times" (foto: Mariana Machado/Esp.CB/D.A Press )
 

Música

Os amigos aderiram à ideia e chamaram mais gente para participar. Todos os domingos, quem quiser se junta à turma que joga em frente ao Centro de Referência e Assistência Social (Cras). “Inicialmente a gente queria reunir a galera da escola, mas a coisa foi crescendo. No domingo quem não tem o que fazer, vai para lá. Quem não joga, escuta música, torce pelos times”, explica Douglas.

E o “Vôlei no Fluxo” acabou atraindo mais gente para o Esporte à Meia-Noite. A estudante Iara da Conceição, 18, entrou no projeto noturno este ano. “Eu já conhecia, mas a minha mãe não me deixava participar, porque é perigoso sair assim tão tarde. Como todo mundo conhece e confia no Douglas, ele me busca em casa e a gente vem jogar”, conta.

Para participar, não é necessário se matricular. Basta comparecer a um dos locais onde ocorrem as aulas, que são gratuitas. Toda a comunidade é bem-vinda e há diversas opções de esporte em cada núcleo, como futsal, vôlei, basquete, ping pong e totó (ou pebolim).

Apesar de o fornecimento de alimentação para os frequentadores do Esporte à Meia-Noite estar previsto no decreto nº 33.329/2012, desde 2016 o governo não oferece o serviço. A Secretaria de Estado do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh) informa que um novo contrato está em elaboração, mas não deu prazo para quando isso será feito.

Enquanto isso, a falta de alimentação reflete em prejuízos para todos os núcleos. Em Ceilândia, os alunos que praticam atividades no Centro de Atendimento Integral à Criança e ao Adolescente (Caic), muitas vezes, saem mais cedo, porque sentem fome. A professora Andreia lamenta. “É fundamental a alimentação. Em quatro horas de esporte você precisa estar bem alimentado e nem sempre, pela própria situação social de cada um, há o que comer em casa”.

Na Estrutural, são os próprios professores que levam os lanches. Lino, que também é ator, compra, sempre que pode, sanduíches, frutas e sucos. “Acreditamos na mudança por meio do esporte. Eu ganho meu dinheirinho e ele vai para alimentar os meninos, coisa que ninguém vê”, diz o professor.
 
Lucas:
Lucas: "Sempre há algum político querendo acabar com o projeto" (foto: Mariana Machado/Esp. CB/D.A Press )
 

Risada

Gestos como esse fizeram com que os alunos criassem uma admiração e carinho grande por Lino, a quem chamam, entre outros apelidos, de Papai Noel Negro, pela risada marcante e barba branca do professor. Leonardo Alves, 21, vai às aulas quase todos os dias para jogar vôlei e futsal e ressalta que o principal aprendizado foi o respeito.

“Aqui sempre é ensinado o respeito aos companheiros e às diferenças de cada um. Na escola, um homossexual sofreria bullying, mas aqui, com o professor orientando, todo mundo está mudando a forma de se comportar”, diz Leonardo, que trabalha como menor aprendiz.

O respeito também está entre meninos e meninas. A vendedora Gabriella Godoi, 20, joga vôlei e diz que não há diferença no tratamento de gênero. “Não há brigas, o pessoal leva tudo na esportiva e o tratamento é igual”, diz ela, que frequenta o espaço há três anos.

Live com dicas do Enem hoje

A próxima live do Especial Enem será hoje, às 14h15, sobre a prova de linguagens, códigos e suas tecnologias. A apresentadora Ana Paula Lisboa bate papo com os professores Josino Nery e Rosimar Barbosa, ambos do Centro Educacional Sigma. Na ocasião, eles resolverão questões e responderão a perguntas do público. Para assistir, acesse as redes sociais do Eu Estudante, no Facebook (www.facebook.com/euestudante) e Instagram (@euestudantecb). Acesse também o site e confira as dicas da edição dessa semana, especial sobre linguagens: www.correiobraziliense.com.br/euestudante/enem-2018.

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