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Correio Braziliense

Ataques no último debate do GDF seguem tendência da disputa nacional

Especialistas avaliam que candidatos ao GDF se alinham à tendência de concorrentes à Presidência, com discursos passionais e confrontos pautados por trocas de acusações


postado em 04/10/2018 06:00 / atualizado em 04/10/2018 00:43

Para o cientista político Creomar de Souza, discussões agressivas são reflexos do cenário nacional:
Para o cientista político Creomar de Souza, discussões agressivas são reflexos do cenário nacional: "Isso é um marcador de um momento de tensão" (foto: Minervino Junior/Esp. CB/D.A Press)

O debate com os candidatos ao Governo do Distrito Federal (GDF) reproduziu a tônica do resto do país, de discursos passionais, ataques e confrontos. É o que avaliam especialistas consultados pelo Correio. A organização e o formato do debate contribuíram para que o eleitor tivesse acesso às ideias dos candidatos, avalia o cientista político Creomar de Souza, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB). No entanto, ele avalia que a opção pelos confrontos entre os concorrentes ao Palácio do Buriti pouco ajudou no processo de elucidação das propostas de governo.

“O debate sempre é positivo, pois ele é o momento em que o eleitor pode verificar como o candidato responde às perguntas feitas e, sobretudo, como lida com o pensamento diferente. Mas o debate do GDF não escapa da tendência de dificuldade que se coloca no atual panorama político. Em alguns momentos, se perde em uma lógica de ataques frequentes e discussões que não necessariamente honram o cidadão”, ponderou Creomar.

O confronto entre Ibaneis Rocha (MDB) e Eliana Pedrosa (Pros) provocou o momento mais acalorado do debate. O emedebista acusou a adversária de caminhar com o que tem de mais “podre” na política do DF. “A senhora promove fake news, pois está caindo nas pesquisas e tem ao seu lado o que há de pior”, disparou.

Ataques contra esses dois candidatos, líderes nas pesquisas de intenção de votos, dominaram boa parte do debate. Em processos eleitorais, avalia Creomar, é natural que isso ocorra, e os excessos são reflexos do ambiente atual. “Isso é um marcador de um momento de tensão. Ibaneis se descolou do restante dos candidatos e isso faz com que o ambiente político, que já era altamente polarizado, se torne ainda mais permeado por uma série de acusações acerca da capacidade ou até mesmo das boas intenções de determinada candidatura”, sustentou.

O período mais curto de campanha em relação à eleição anterior é um dificultador para os candidatos, que optaram por vincular mais mensagens de efeito midiático do que proposição de conteúdos, analisa o cientista político. “O efeito claro é que, quando chega o debate, é marcado por construção de polêmicas voltadas aos cliques de internet e viralização de parte da mensagem do que, de fato, de construção de proposições para os problemas da sociedade”, declarou.

Roberto Piscitelli viu avanços com relação ao debate anterior, mas critica promessas difíceis de cumprir(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press - 19/12/17)
Roberto Piscitelli viu avanços com relação ao debate anterior, mas critica promessas difíceis de cumprir (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press - 19/12/17)


Propostas

Apesar de os embates com trocas de acusações ainda terem ganhado espaço central, o especialista em finanças públicas e professor da Universidade de Brasília (UnB) Roberto Piscitelli avaliou que o debate foi mais propositivo do que o anterior, realizado pelo Correio em 28 de agosto. “Houve questões importantes que foram levantadas e que podem ser abordadas e comentadas. Inclusive de caráter econômico, como a institucionalização da região, mencionada por Júlio Miragaya (PT). Políticas setoriais no setor de transportes também foram debatidas, bem como a ênfase na saúde, ressaltada pela Fátima Sousa (PSol), que propôs revigorar o programa Saúde em Casa, e por outros candidatos ao Palácio do Buriti, como Rogério Rosso (PSD) e Eliana Pedrosa (Pros)”, resumiu.

Piscitelli ainda classificou o confronto de ontem como “mais civilizado”. “Exceto na intervenção do Ibaneis Rocha (MDB) com a Eliana Pedrosa (Pros). Acho que ele passou do limite”, afirmou. Para o especialista, o discurso de arrumação da casa do atual governador, Rodrigo Rollemberg (PSB), que busca a reeleição, já se desgastou. “A toda hora ele fala que arrumou a casa, da herança maldita deixada pelo antecessor. Passaram-se quatro anos e ele continua falando isso. Ele fica querendo sempre ilustrar com números que são jogados assim ao léu e que poucos têm condições de comprovar”, analisou.

Ainda na avaliação do professor da UnB, os candidatos precisam tomar cuidado com a viabilidade das propostas. Ele exemplificou a de aumento do teto do regime tributário, mencionado por Rollemberg e por Ibaneis. “A falta de transparência permite que os candidatos façam muitas vezes promessas que, talvez, sejam irrealizáveis”, observou. “Sobre o pagamento de salários atrasados do pessoal da polícia, como propuseram Rosso e Alberto Fraga (DEM), é prematuro dizer que se pode fazer isso em três ou seis meses.”

“O debate do GDF não escapa da tendência de dificuldade que se coloca no atual panorama político. Em alguns momentos, se perde em uma lógica de ataques frequentes e discussões que não necessariamente honram o cidadão”
Creomar de Souza, professor da Universidade Católica de Brasília (UCB)

“Houve questões importantes que foram levantadas e que podem ser abordadas e comentadas. Inclusive de caráter econômico (...) Exceto na intervenção do Ibaneis Rocha (MDB) com a Eliana Pedrosa (Pros). Acho que ele passou do limite”
Roberto Piscitelli, professor da Universidade de Brasília (UnB)

O que eles disseram


"Entendemos que são muito importantes esses debates, mas melhor ainda é ouvir o povo nas ruas. As pesquisas mostram que fica entre quatro candidatos, que todos estão empatados. Mas aí vem uma pesquisa Ibope e coloca um ponto fora da curva. Nas nossas pesquisas, feitas diariamente, não dá nunca essa diferença de 34%."

Alberto Fraga (DEM)


"Foi um bom debate. Alguns agiram com excesso, como o candidato Ibaneis, que faltou com o respeito e com a verdade. Ele preferiu partir para a agressão. Quem tem de analisar meu desempenho é a população."

Eliana Pedrosa (Pros)


"O debate é muito bom, porque auxilia a população a ver a diferença entre os candidatos, como no caso meu e da Eliana Pedrosa. Ajuda a aprofundar a democracia e a fazer com que as pessoas entendam quais são as melhores propostas para o futuro. Os embates são normais, mas é preciso colocar um limite, que é o do respeito às diferenças."

Fátima Sousa (PSol)


"São naturais (os ataques sofridos). Esse momento de crescimento faz com que todo mundo fique incomodado, mas eu recebo isso com tranquilidade. Sei que estamos chegando na reta final, os ânimos estão acirrados, mas espero que esses dias agora sejam de reflexão e não de ataques."

Ibaneis Rocha (MDB)


"Nossa preocupação foi apresentar propostas que o Partido dos Trabalhadores tem aqui para Brasília, colocar a questão nacional e fazer a defesa do presidente Lula, que está sendo mais uma vez acossado por acusações caluniosas. Tem sido nossa prática durante toda a campanha: apresentar o que temos de programa para a população."

Júlio Miragaya (PT)


"Foi mais uma oportunidade de apresentar ideias, pensamentos e permitir que o eleitor faça uma escolha mais segura. Agora é esperar o resultado das urnas, que é o resultado que a população quer. Foi uma oportunidade muito rica de a gente apresentar o que fizemos e o que vamos fazer pelos próximos quatro anos."

Rodrigo Rollemberg (PSB)


"A discussão foi equilibrada, com temas importantes. Infelizmente, alguns concorrentes preferiram partir para o embate pessoal. Tratou-se de um espaço importante, no qual, às vésperas das eleições, conseguimos mostrar mais uma vez à população nossa forma de governo e nossos projetos."

Rogério Rosso (PSD)



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