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Correio Braziliense

A tecnologia é uma inimiga ou aliada na educação das crianças?

Smartphones, tablets e televisão: até que ponto podem ser benéficos ou atrapalhar a educação infantil? Segundo pesquisa, 55% dos professores da rede pública utilizam dispositivos digitais em sala de aula


postado em 06/10/2018 07:00

Maria Alice Mundim Beltrão acessa celular apenas no tempo livre(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
Maria Alice Mundim Beltrão acessa celular apenas no tempo livre (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)

É notória a presença de uma diversidade de dispositivos eletrônicos em todos os lugares. Há uma infinidade de modelos, marcas e funcionalidades diferentes para cada um. Associado à praticidade, dinamismo e facilidade de obter informações, o uso da tecnologia invadiu o dia a dia da população. Mas, quando o uso destes aparelhos como tablets, videogames, smartphones e até mesmo a televisão virou uma realidade na vida das crianças, as opiniões sobre o contato com o digital divergem entre os pais.

Na escola, dados da pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisas DataFolha e pela consultoria Din4mo mostram que 55% dos professores da rede pública brasileira utilizam tecnologia digital regularmente em sala de aula, e que os aspectos limitadores mais frequentes para o uso de recursos tecnológicos são a falta de infraestrutura e de formação adequada. O estudo ouviu quatro mil professores dos Ensinos Fundamental e Médio e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da rede pública de todo o Brasil no primeiro semestre de 2017.

Há uma gama de professores que defendem o uso de dispositivos eletrônicos para auxiliar na educação. Além da praticidade do acesso, também é visto como um avanço inegável nas novas formas de aprendizado. “Os aplicativos criados para facilitar a criação de aulas interativas são uma forma mais fácil de acessar os conteúdos e entendimento como, por exemplo, entre o aluno e o professor.  A tecnologia está presente no nosso dia a dia, a gente não vive mais sem celular, sem computador e sem internet”, explica o matemático e pedagogo Valdivino Sousa.

Apesar de todos os benefícios que a tecnologia pode proporcionar na educação das crianças, o engenheiro eletricista Gabriel Moraes, pai de Sofia, de 6 anos, não vê com bons olhos essa invasão tecnológica na hora de educar sua filha.  “Quando Sofia nasceu, decidimos que ela passaria o menor tempo possível em contato com smartphones, tablets e TVs durante a primeira infância”, afirmou o pai.

Gabriel disse que a única coisa à qual Sofia tem acesso, hoje, é a TV. “Decidimos abrir mão de proibir o acesso à TV quando Sofia começou a reclamar em casa que na escola os colegas falavam coisas que ela não sabia, como qual era o desenho que passava na TV ou alguma propaganda”, conta.

Já o servidor público Warley Mundim permite, no tempo livre, o acesso ao celular para que sua filha Maria Alice, de 5 anos, possa jogar e ver vídeos no YouTube.“Nós deixamos que tenha acesso. Além de a própria criança pedir, é algo conveniente, porque é o momento que temos para resolver alguma coisa ou fazer outra atividade da casa”, explicou.  Mas, ainda que seja conveniente, Warley afirma que o uso do celular não é constante. “Nós estipulamos horários para se adequar à rotina e manter um mínimo de disciplina”, garante.

Mas Warley também se preocupa com a possibilidade de Maria Alice se tornar uma criança antissocial, isolada e sedentária por conta do uso excessivo de dispositivos tecnológicos. “Além de ter acesso, também, a conteúdos fúteis que estimulam de forma extremamente apelativa o consumo”, diz.


A tecnologia como aliada


De acordo com a diretora executiva do Grupo SEB (Sistema Educacional Brasileiro), Thamila Zaher, a transformação digital modificou a forma como as pessoas consomem e se relacionam, e isso não é diferente no ambiente educacional. “A aprendizagem autêntica já é uma necessidade e a fluência no mundo é mais do que apenas aprender como usar a tecnologia, e sim, saber como empregá-la no processo de ensino. E, para que haja o incentivo das novas tecnologias, é preciso compreender o uso das inovadoras formas de interação e aprendizagem para a construção de um ambiente de ensino criativo e responsável”, observa Thamila no artigo Já vivemos uma educação do futuro. Está preparado?.

Para ela, é preciso mudar o formato expositivo de sala de aula e migrar para um trabalho com projetos “para que os alunos possam ser desafiados a resolver problemas de forma contextualizada e interdisciplinar“.

Apesar da proibição por parte de Gabriel Moraes para que Sofia tenha um acesso limitado a tecnologias, ele reconhece que o uso de determinados dispositivos pode auxiliar na educação da filha. “Sem dúvida, não há como negar que existam benefícios. Por exemplo, acesso a conteúdos educativos como aplicativos e jogos que estimulam o desenvolvimento da criança, assim como uma facilidade de ampliação do conhecimento cultural global. As próprias escolas já fazem uso de aplicativos específicos”, afirma o engenheiro.

Yasmin, de 7 anos, é autorizada pelo pai, Valdinei Monteiro, a usar o celular, videogame e tablet nas horas vagas. Monteiro acredita que a capacidade de raciocínio é bem trabalhada por meio dos jogos interativos do celular. “Fora que o conteúdo educativo é muito amplo, as dúvidas referentes aos deveres de casa são sanadas de forma rápida na internet. Minha filha começou a ler antes dos 5 anos, graças, em grande parte, aos sites educativos e jogos que estimulam a leitura”, revela.

Para Gabriel Moraes, apesar dos benefícios que a tecnologia pode trazer à educação, jamais irá ser igual ao contato físico e humano nas relações sociais. “Acredito que esses dispositivos são importantes na complementação da educação, mas em hipótese alguma, poderão substituir a brincadeira de rua, os amiguinhos do parquinho, uma boa história antes de dormir e os lápis e canetinhas espalhados pelo chão da sala”, afirma.

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