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Correio Braziliense

Canto das cigarras começa a anunciar a chegada do período de chuvas no DF

A primavera está começando a tomar força. Isso é visível no verde que voltou nos gramados da cidade graças às recentes chuvas, que anunciam também o canto típico dos insetos nesta época do ano


postado em 09/10/2018 06:00 / atualizado em 09/10/2018 09:52

(foto: CB/D.A Press)
(foto: CB/D.A Press)
Quando começam a cantar, o barulho vai longe. Quando se percebe, o som torna-se contínuo, em alguns momentos é possível ouvir mais de uma melodia ao mesmo tempo. Para algumas pessoas, elas incomodam, para outras, os barulhos que elas fazem são parte do ambiente, integram a memória afetiva. É dessa forma que as cigarras anunciam sua presença nos arvoredos do Distrito Federal. E quando não aparecem, há quem sinta a falta.

“Nesses dias tenho sentido falta do canto delas. Meu pai dizia que quando elas cantavam, estavam anunciando a chegada da chuva”, disse Maria das Graças, que trabalha na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, na 307 Sul. A senhora de 70 anos relata que ultimamente tem ouvido com mais frequência os cantos dos sabiás e que esse sim incomodam, mas as cantigas das cigarras não atrapalham nem um pouco.

Há quem acredite que os pequenos insetos estejam desaparecendo por causa das mudanças no clima, como destaca  Hélio Fonseca. “A gente precisa se adaptar à natureza, hoje não ouço mais como ouvia antigamente, mas nunca me incomodou não”. Ele, que há quase 40 anos mora numa quadra na Asa Sul, diz que quando chegou ao local não havia árvores, e que, assim como os moradores, as cigarras foram aparecendo aos poucos.
 
Leda de Sousa e Mônica Helena: admiradoras do canto das cigarras(foto: Thiago Melo/Esp. CB/D.A Press)
Leda de Sousa e Mônica Helena: admiradoras do canto das cigarras (foto: Thiago Melo/Esp. CB/D.A Press)
 

Especialista

 
Segundo o professor do Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Cezar Motta, ainda não foi confirmado pelos especialistas a relação entre as cigarras e a chuva. “Temos uma ideia que sim. Elas passaram por uma adaptação ecológica e evolutiva, que levou seu período de eclosão e reprodução a coincidir com o momento das chuvas. Mas não temos certeza. De qualquer forma, acredito que esse ano ainda não tivemos muita chuva para que as cigarras pudessem realmente aparecer. Mas estou ouvindo algumas delas da minha janela. Em meados de outubro, período em que as chuvas aumentam, provavelmente elas vão aparecer mais”, explica o professor.

Antigamente, a diversão da criançada era procurar o pequeno animalzinho. Tinha que ficar atento ao som para ver em que árvore ele estava. Era assim que os filhos de Mônica Helena Menezes se divertiam. Mas, segundo ela, os tempos mudaram e agora as cigarras não fazem mais parte das brincadeiras das crianças. “Quando meus filhos eram pequenos, eles se divertiam com as cigarras, iam atrás delas, hoje as crianças só brincam com celulares e computadores”.

As árvores misturam-se aos blocos residenciais, e entre barulho de carros e de pessoas, começa  a se ouvir um canto de cigarra aqui e outro canto acolá. Algumas árvores chegam a tocar as janelas dos prédios. Há quem reclame que as cigarras iniciam o canto muito cedo, “são quase um despertador”, disse um porteiro de bloco.

Reprodução

De acordo com o professor da UnB Paulo Cezar, o acasalamento aumenta nesta época da primavera, e esse é um dos motivos da cantoria. Os machos emitem o som forte e repetitivo para conquistar as fêmeas. Após a cópula, as fêmeas põem os ovos em galhos de árvores. Depois da reprodução, as cigarras têm mais um ou dois meses de vida.

Um outro motivo para a cantoria das cigarras é quando elas estão em perigo, com o objetivo de assustar os predadores. Diferentemente do que muitos pensam, há cigarras em outras estações, mas é nesta época que a maioria das espécies está preparada para o acasalamento.

Após a eclosão dos ovos, as cigarras jovens são chamadas de ninfas, elas se alimentam de seiva de plantas, são elas que fazem o ciclo recomeçar. As cigarras passam a maior parte da vida no subsolo: pesquisadores estimam que elas ficam embaixo da terra de 4 a 7 anos. Elas só saem de lá para os troncos das árvores quando seu desenvolvimento está completo.

“Já vi alguns moradores reclamarem do barulho, vi muitas cigarras mortas no piso do prédio”, disse Lêda de Sousa, 40 anos, que trabalha num bloco da Asa Sul. “Então a cigarra macho canta para chamar a atenção da fêmea? Imagina se os homens fossem assim”, brinca Lêda, ao comentar as histórias populares por trás dos cantos das cigarras.

Na famosa fábula “A Cigarra e a Formiga”, a cigarra não tem tempo para o trabalho e só quer se divertir, mas, no final da história, é convidada pela formiga para tocar e cantar para espantar a tristeza do inverno. Não se sabe ao certo se as cigarras realmente são preguiçosas, mas não há dúvida de que o talento vocal chama a atenção.

*Estagiários sob supervisão de José Carlos Vieira

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