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Correio Braziliense

Poucas propostas e excesso de ofensas em debate, avaliam especialistas

Ainda segundo os cientistas políticos, os dois não demonstraram como colocar em prática as intenções para a cidade


postado em 12/10/2018 06:00 / atualizado em 12/10/2018 15:50

"O caminho é mostrar para as pessoas, tanto em momentos assim, como no corpo a corpo, o que eles (candidatos) têm a oferecer como resposta aos problemas cotidianos das pessoas", Creomar de Souza, professor de ciência política e relações internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB)

Marcado por provocações, troca de acusações e dedos em riste, o primeiro debate do segundo turno das eleições entre os concorrentes ao Governo do Distrito Federal (GDF), Rodrigo Rollemberg (PSB) e Ibaneis Rocha (MDB), revirou o passado e a vida pessoal dos candidatos. Para cientistas políticos e historiadores que analisaram o desempenho dos adversários, os postulantes ao Palácio do Buriti se concentraram em fazer campanha negativa um contra o outro, em vez de apresentar propostas efetivas para a melhoria da vida da população do Distrito Federal.

Na visão dos analistas, mesmo quando os candidatos debateram proposições com temas definidos, no segundo bloco do debate promovido pelo Correio e pela TV Brasília, eles não demonstraram como colocar em prática as intenções. Especialista em políticas públicas pela Universidade de Brasília (UnB) e professor de ciência política, Emerson Masullo analisou pontos positivos, como a discussão da atuação da Agência de Fiscalização do DF (Agefis); o investimento em saúde pública; a infraestrutura no transporte público e a definição do futuro do Centro Administrativo (Centrad). 

Mas, segundo ele, faltou discutir soluções para a área de trabalho e emprego, segurança pública e desenvolvimento econômico. “É importante que as pessoas saibam a origem de cada candidato e a história deles, mas, ao mesmo tempo, em maio deste ano, a taxa de desemprego no DF atingiu 20% e estamos quase liderando os índices de feminicídio, com 23 casos de janeiro até agora. Nas escolas, mais da metade dos professores sofrem violência, e os candidatos enveredaram para discutir a vida pessoal um do outro”, reforçou. 

"Nas escolas, mais da metade dos professores sofrem violência, e os candidatos enveredaram para discutir a vida pessoal um do outro", Emerson Masullo, professor de ciência política (foto: YouTube/Reprodução)

Ataques

Professor de ciência política e relações internacionais da Universidade Católica de Brasília (UCB), Creomar de Souza observou que os ataques tornaram-se uma estratégia de sobrevivência para cada um. “Salvo alguns momentos, sobretudo na parte final, os candidatos focaram na campanha negativa um contra o outro. No entanto, o caminho é mostrar para as pessoas, tanto em momentos assim, como no corpo a corpo, o que eles (candidatos) têm a oferecer como resposta aos problemas cotidianos das pessoas”, ressaltou.

Na visão do professor, na medida em que os concorrentes focam o interesse nos atributos negativos da biografia do opositor, eles deixam de discutir o que é importante para a população. “O que se demonstra é uma estratégia no segundo turno de desconstrução do rival e não necessariamente ofertar soluções para a vida da população”, destacou.

Na visão do cientista político e diretor da Dominium Consultoria, Leandro Gabiati, nessa altura do campeonato, só um “grave erro” na campanha de Ibaneis faria com que o atual governador ganhasse as eleições. “Rollemberg tentará lutar com isso, mas o que favorece o Ibaneis é o clima de mudança. Isso favoreceu Bolsonaro e, na política local, o pessoal também quer uma figura supostamente nova”, argumentou.

Na avaliação do especialista, o debate não foi tão agressivo quanto poderia e, apesar das cutucadas, ambos os candidatos adotaram postura ponderada. “Propostas de fato foram poucas e o objetivo foi desconstruir ou revelar parte do passado dos candidatos”, disse em referência à fala de Rodrigo Rollemberg sobre o relacionamento de Ibaneis com Tadeu Filippelli, presidente do MDB regional e candidato a deputado federal no primeiro turno, e Júnior Brunelli, ex-deputado distrital que teve a imagem veiculada à famosa oração da propina na Operação Caixa de Pandora.

Cientista político, André Felipe Rosa avaliou que, a partir de agora, até a data das eleições de segundo turno, em 28 de outubro, os candidatos devem focar nos votos indecisos. “A sugestão é intensificar a ida às ruas, visitar universidades, sindicatos e grandes centros para investir nos eleitores que ainda não decidiram em quem votar, além de fazer uma campanha mais direcionada às redes sociais”, propôs.

Três perguntas para 

Frederico Tomé, Historiador e professor de antropologia do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB)

Qual a avaliação do desempenho dos candidatos?
Eles tiveram um desempenho equivalente, muito embora o candidato Ibaneis Rocha (MDB) tivesse tido tranquilidade em alguns momentos. Os dois começaram no mesmo tom, mas, no momento de embate direto, elevaram a voz, inclusive com dedos em riste, e uma ligeira vantagem de segurança ao falar para o candidato Ibaneis frente ao candidato Rodrigo Rollemberg (PSB).

As propostas ficaram claras ou os candidatos se preocuparam mais com os embates pessoais?
Faltou a discussão das propostas e da viabilidade delas. A acusação de ambos os lados ficaram evidentes, no caso do candidato Rodrigo Rollemberg apontando a vida pregressa e profissional do oponente, e o candidato Ibaneis Rocha com o foco na inoperância da gestão atual. Isso fez com que as propostas não viessem a ser discutidas para que a população pudesse, de fato, se informar. Os candidatos deveriam ter discutido mais os problemas do Distrito Federal e as soluções possíveis para eles.

Como eles devem se comportar de agora até 28 de outubro caso queiram a cadeira do Palácio do Buriti?
O candidato Ibaneis Rocha (MDB) leva uma vantagem por ser novato na política, mas, ao mesmo tempo, ter na sua estrutura partidária, por trás, políticos tradicionais que garantem a sua candidatura. Mas, além disso, ele compartilha um número significativo de advogados consigo. Já Rodrigo Rollemberg enfrentou dificuldades durante seu governo. Apesar disso, é um político de longa data, mas, comparando-se com as eleições presidenciais e, de maneira geral, há um rechaço desses políticos tradicionais em razão da visão da população brasileira de que eles não têm cumprido de maneira devida suas atribuições. Isso tem a ver com um desgaste político enfrentado desde 2013, o que faz com que Rodrigo Rollemberg tenha mais dificuldade para enfrentar o seu oponente.

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