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Correio Braziliense

Acusado de matar para roubar celular tem longo histórico criminal

Homem de 20 anos foi reconhecido por testemunhas como autor do latocínio de Osterno Guilherme Martins Linhares de Sousa, que morreu na esquina de casa


postado em 16/11/2018 06:00

Apontado como homicida, Jonathan Lopes é acusado de cinco roubos (foto: PCDF/Divulgação)
Apontado como homicida, Jonathan Lopes é acusado de cinco roubos (foto: PCDF/Divulgação)

Um homem suspeito de praticar roubos em série, que poderia estar atrás das grades, mas teve o pedido de prisão preventiva negado pela Justiça. Este é o acusado de matar Osterno Guilherme Martins Linhares de Sousa, 16 anos, terça-feira, no Setor O de Ceilândia. Policiais civis prenderam Jonathan Sousa Lopes, 20, em casa, no fim da na noite de quarta-feira, no mesmo bairro onde ocorreu o latrocínio (roubo com morte). Denúncias anônimas levaram os policiais até ele. Na delegacia, testemunhas o reconheceram como o autor do crime.

Agentes contaram que Jonathan era conhecido no universo bandido como Dente de Ouro. Ele ganhou a liberdade em fevereiro, após cumprir medidas socioeducativas por três anos. Em junho, policiais militares o flagraram em um assalto, também no Setor O, onde é apontado como autor de ao menos cinco roubos. O delegado Ricardo Viana, chefe da 24ª Delegacia de Polícia (Setor O), disse ter pedido a prisão preventiva de Jonathan em setembro, quando câmeras de segurança de uma loja de informática o flagraram levando equipamentos. Mas a Justiça negou a detenção do suspeito.

Ricardo Viana garantiu não haver dúvida sobre a culpa de Jonathan no assassinato de  Osterno Guilherme. “As nossas investigações levantaram nomes de todos que eram conhecidos por roubo na região e, por fim, chegamos ao Dente de Ouro. Testemunhas confirmaram ter sido ele o autor dos disparos”, relatou Ricardo Viana. Jonathan negou o crime. Afirmou ter consumido drogas e dormido por 17 horas seguidas, no dia em que o adolescente morreu a tiro, o que foi desmentido pela família do acusado, segundo os investigadores.

Celular simples

Os parentes de Jonathan contaram que ele saiu de casa momentos antes do crime e voltou pouco depois das 17h, portanto, logo após o assassinato. Na terça-feira, Guilherme, como era conhecida a vítma, foi liberado mais cedo da escola onde cursava o 2º ano do Ensino Médio, no Centro Educacional 15 (CED 15), a cerca de 100 metros da casa dele. Como era de praxe, quando saía, ia trabalhar na loja do pai, uma oficina de estofados no P Norte. Ele caminhou até a porta de casa, de onde ia usar o sinal de internet wi-fi para mandar uma mensagem ao pai, sargento do Corpo de Bombeiros, pedindo que o buscasse.

Como não havia ninguém em casa e ele não tinha a chave da porta, Guilherme mandou a mensagem da calçada e foi caminhando ao ponto onde pegaria a carona, mas só andou por aproximadamente 30m, pois foi abordado por Jonathan, que exigiu o celular do adolescente. Sem hesitar, Guilherme entregou o aparelho, mas, insatisfeito com o modelo simples, o criminoso atirou e fugiu em uma bicicleta. Guilherme cambaleou por alguns metros antes de cair, morto, na esquina de casa. O telefone havia custado R$ 50, como contou o tio da vítima, o fiscal de loja Clodoaldo Martins, 39 anos.

Mudança

Na manhã de ontem, os latidos e o choro do cachorro Barão eram os únicos sons que se ouviam na casa de esquina, na QNO 18 de Ceilândia, onde Guilherme cresceu e sempre morou. No feriado de Proclamação da República, dia seguinte ao sepultamento do garoto, a família buscava forças. Com lágrimas nos olhos, o tio lembrava com carinho do sobrinho que gostava de ouvir música sertaneja e brincar com bolas de gude. “Esse lugar morreu para mim. Criamos muitas boas lembranças aqui, mas agora eu olho e só vejo tristeza”, disse Clodoaldo, referindo-se à rua onde tudo aconteceu.

Entre as memórias do tio, noites em que o sobrinho se sentava na calçada com amigos e juntos passavam horas conversando. Em família, ele e Guilherme jogando bola com o caçula de Clodoaldo, Heitor, de 1 ano. “Era como um filho para mim. Estava crescendo tanto. Eu brincava que não sabia o que ele comia, porque já estava grande demais”, comentou Clodoaldo.

O menino morava com os pais, uma irmã caçula de 14 anos e um primo, de 13, filho de Clodoaldo. Nas duas casas ao lado, no mesmo lote, tios e primos eram os vizinhos. Agora, a família toda quer se mudar e deixar para trás o lugar onde aconteceu a tragédia. Inconsolados com a perda do filho, pai e mãe da vítima preferiram ficar na casa do avô paterno de Guilherme, no Jardim Ingá, em Luziânia (GO) desde o funeral.

Guilherme tinha quatro irmãos: dois homens e duas mulheres, frutos de dois casamentos do pai. Entre os meninos, Guilherme era o mais jovem. O estoquista Antônio Linhares, 21 anos, um dos irmãos, disse que a família está arrasada, mas aliviada por ver o assassino preso. “Vamos reaprender a viver. Ele sempre me procurava quando queria fazer alguma coisa, pedia conselhos. Eu era o braço forte dele”, lembrou Antônio.

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
Vítima queria estudar na UnB

 

A rotina de Osterno Guilherme Martins Linhares de Sousa se resumia à escola e ao trabalho na loja de estofados, onde fazia a limpeza e ajudava o pai como podia. Apesar de ter muitos amigos na escola, não namorava nem tinha o hábito de ir a festas. Nos fins de semana, a diversão era ir à chácara da família em Padre Bernardo (GO), no Entorno. Adorava brincar com os cachorros e andar a cavalo. Sonhava em se tornar veterinário.


Há cerca de duas semanas, Guilherme conseguiu isenção da inscrição para o Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB), porta de entrada para muitos estudantes do ensino médio que buscam uma vaga em faculdade pública. Querendo estudar, pediu ajuda ao irmão mais velho, o assistente financeiro Jordam Linhares, 30 anos. “Prometi que ia separar o material para ele estudar. Agora a gente não sabe como vai ser daqui para frente, mas eu agradeço toda a atenção que a Polícia Militar, a Polícia Civil, a imprensa e a sociedade têm tido com a gente. É revoltante que a nossa Justiça não ajuda”, lamentou.

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