Publicidade

Correio Braziliense

Curador do Met, em Nova York, busca em Brasília inspiração para exposição

Curador associado de arte decorativa e design no Departamento de Arte Contemporânea e Moderna do Metropolitan Museum of Art, o Met, esteve na capital federal à procura de inspiração para uma mostra que prepara sobre a América Latina


postado em 25/11/2018 08:00

Christian Larsen, curador do Met, e Francisco Galeno: contato pode levar obras do artista candango para museu nos Estados Unidos(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )
Christian Larsen, curador do Met, e Francisco Galeno: contato pode levar obras do artista candango para museu nos Estados Unidos (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )


Ícone da modernidade, Brasília conquista pessoas de todo o mundo. As curvas de Oscar Niemeyer e os traços de Lucio Costa preenchem a imaginação de quem nunca esteve na cidade e atrai a atenção de quem é familiar com os contornos brasilienses. À procura de inspirações para mostras sobre a América Latina, Christian Larsen, curador associado ao Metropolitan Museum of Art, o Met, de Nova York, decidiu conhecer a arquitetura e o design da capital brasileira, reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A intenção é criar uma exposição itinerante e levar trabalhos artísticos brasileiros para compor o acervo do museu, um dos mais visitados do mundo.

Filho de uma brasileira e de um norte-americano, Christian nasceu em Utah, no oeste dos Estados Unidos, há 40 anos, e pisou em Brasília pela primeira vez na semana passada. Ele visitou cartões-postais, como o Santuário Dom Bosco, o Brasília Palace Hotel e o Palácio Itamaraty, considerado por ele o mais encantador. “Eu havia visto muitas fotos desse prédio. Achava que conhecia cada linha, escada, sofá e jardim dele, mas, quando estive lá, no meio dos espaços, vi que ele não tem nada e tem tudo ao mesmo tempo. Fiquei emocionado. Acho até que tive um episódio da Síndrome de Stendhal”, brincou.

A passagem pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), no entanto, não gerou a mesma reação. Para ele, o espaço não foi bem utilizado e faltaram minúcias aos observadores. “Trata-se de uma obra muito tardia na carreira de Niemeyer. Não gostei muito. Ele se preocupou muito com o exterior. Tem uma forma icônica, mas os interiores são medíocres, pois não há detalhes. Não é um trabalho ruim, mas não gera um interesse particular. É um tanto comum”, comentou. Ele também opinou sobre a Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, outra obra de Niemeyer. “É uma graça! Foi a minha preferida”, elogiou o curador.

Filme

O interesse pela composição brasiliense de Christian vem da infância. Ele se lembra de ter visto os traços futuristas da capital brasileira no filme The Man From Rio, de 1964, que mostra uma Brasília recém-nascida. “A cidade sempre ficava na imaginação. Fiquei impressionado com a arquitetura. Naquele tempo, acho que as imagens que circulavam no mundo inteiro estavam associadas a uma concepção de futuro. Senti até um pouco de choque, pois não vejo coisas assim em outras partes do mundo”, relatou.

A comparação de Christian é baseada em Los Angeles, segunda cidade mais populosa dos Estados Unidos e onde o especialista em design, artes decorativas e cultura material cresceu. Ele afirma que a metrópole norte-americana tem aspectos parecidos com Brasília, mas há um outro olhar em torno dela. Quando criança, ele frequentou um teatro com decoração inspirada no Brasil e ouviu falar de uma “cidade que cresceu na mata”. A partir dali, surgiu o fascínio com as terras brasileiras.

“Nos EUA, temos uma visão de que, no Brasil, tudo é mata. Não pensei muito sobre isso quando era criança, mas, quando comecei a trabalhar no Museu de Arte Moderna de Nova York, no departamento de arquitetura e design, vi alguns desenhos de plantas e perspectivas feitos por Burle Marx e Le Corbusier. Ali, comecei a entender que o Brasil tem uma história muito importante com a arquitetura moderna”, observou.

Inspirações

Christian Larsen atua como curador associado de arte decorativa moderna e design no Departamento de Arte Contemporânea e Moderna do Met. Ele ingressou na equipe do museu em 2015, mas, antes disso, trabalhou, entre outros locais, no Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York. Ao longo da carreira, produziu exposições sobre a arquitetura e o design italianos, o trabalho do francês Jean Prouvé, além da mostra 50 Years of Helvetica, que celebra os 50 anos de uma das fontes tipográficas mais usadas no mundo.

Os 17 departamentos do Met conservam 343 obras de artistas brasileiros, de instrumentos musicais a pinturas e cadeiras. Com a recente mudança na diretoria do museu, Christian busca novas referências e inspirações para complementar o acervo do espaço. Ele também conta que pretende elaborar uma exposição sobre a arte da América Latina, mas ainda não tem data para lançá-la nem deu detalhes a respeito de como será esse trabalho.

O norte-americano chegou ao Brasil em 17 de novembro e voltará para os Estados Unidos em 1º de dezembro. Nesse período, ele passa pela Bahia, pelo Rio de Janeiro e por São Paulo. Segundo ele, o interesse pela cultura brasileira é acadêmico e, por meio de uma análise de prédios, desenhos e do cotidiano, a ideia dele é descobrir do que ela se trata. “Quando consumimos esses produtos, consumimos uma imagem do Brasil também. Quis fazer essa viagem por toda a minha vida, mas minha vontade é ficar aqui por dois ou três meses, para voltar falando português fluentemente e entender melhor o que é esta cidade”, disse, referindo-se a Brasília.

Em relação às mostras ao redor do mundo, ele critica a estrutura de algumas instituições. Para o curador, as artes europeias e estadunidenses costumam ser bem representadas, mas a quantidade de trabalhos de outras partes do mundo está aquém do esperado. “Estou estudando a coleção do Met para saber o que é bem representado lá e o que falta. Percebi, por exemplo, que há uma ausência de toda a América Latina. Há muitas peças lindas da Europa e dos Estados Unidos, mas é sempre assim nas instituições. Boa parte das pessoas acha a cultura desses dois locais superior, mas não é. É importante ensinar isso para que o mundo entenda melhor. A beleza é um valor muito alto da cultura, e não só é coisa de ricos.”

Encontro

Artista plástico radicado em Brasília, Francisco Galeno teve um encontro com Christian Larsen durante a breve visita do norte-americano à capital. Reconhecido internacionalmente pelas obras, Galeno também chamou a atenção do curador do Met. O brasileiro revelou a possibilidade de algumas obras dele serem expostas no Met junto às de outros artistas. “Isso me tocou muito e é algo sacramentar, pois dá importância ao meu trabalho. O fato de eu fazê-lo sempre ligado às minhas origens chamou atenção do Christian”, comenta o piauiense de 61 anos.

Galeno foi o único artista do DF convidado para conversar. “É algo muito bom para mim. Parnaíba é onde nasci, mas minha arte nasceu em Brasília. O que faço e produzo tem muito desse referencial de onde estou e de onde vim. E, como meu trabalho sempre foi voltado para algo mais periférico, a visibilidade ainda é bem precária.”

Sobredose de beleza

Batizada apenas em 1979, a Síndrome de Stendhal, ou síndrome da sobredose de beleza, trata-se de um distúrbio psicossomático marcado por sintomas como aceleração do ritmo cardíaco, tonturas, desmaios, confusão mental ou alucinações diante do contato com obras de arte. A sensação foi descrita pelo autor francês Stendhal, pseudônimo de Marie-Henri Beyle, em 1817, durante uma visita à Basílica de Santa Cruz, em Florença, na Itália. Na obra Nápoles e Florença: uma viagem de Milão a Reggio, ele relatou ter entrado em estado de êxtase ao contemplar a beleza dos afrescos na igreja franciscana.

Três perguntas para

Christian Larsen, curador associado ao Metropolitan Museum of Art

O que você observa de característico no design brasileiro?
A matéria-prima do Brasil é a madeira. E a madeira é uma matéria-prima do design. Os brasileiros são os mais experts em trabalhar com isso. Esse material aqui é bem duro, tropical, tem propriedades alucinantes e você pode fazer algumas estruturas impossíveis com ele, mas só os brasileiros sabem como trabalhá-lo. Na França, Escandinávia e Itália, há nomes e mestres reconhecidos no ramo do design, mas quase ninguém sabe o que se passou na América Latina. Há o carioca Sérgio Rodrigues, por exemplo, que tem um trabalho mais refinado, com sabedoria profunda sobre como manusear a madeira. Joaquim Tenreiro era um mestre e fez cadeiras quase impossíveis. Há algumas com estrutura tão fina como palitos de dentes, mas são coisas que só com madeira brasileira você consegue fazer.

E o que você planeja fazer com o que conseguiu por aqui?
Quero fazer uma mostra permanente, que dê um olhar sobre o design e sobre o que é moderno a partir do meio do século 20. A exposição de que falei apresentará uma comparação entre culturas do design no mundo. Estou procurando peças como móveis, joias, vidro, cerâmica, pratos, tecidos e coisas assim para fazer uma mostra internacional comparativa. Os prédios que estou olhando fazem parte de uma outra exposição para a qual estou pesquisando, mas ainda não tenho certeza se terei aprovação para fazê-la.

Há algo que você possa adiantar sobre essas mostras que está preparando?
Nada está confirmado. Tivemos mudanças na administração do Met, então devemos esperar um pouco. Mas, com certeza, farei algo. Só não tenho as datas ainda. A viagem foi para pesquisar o que são a arte e o design brasileiros. Com essa informação, farei as mostras e aquisições. Estou construindo uma coleção da América Latina. Não só do Brasil, mas do México, Peru, Chile, da Colômbia, Argentina, Venezuela, Cuba. Também procuro obras para ficar na parte da coleção permanente do Met. A outra exposição pode esperar. Estou colecionando ainda. Com esses materiais, farei exposições temporárias, que poderão até viajar, mas tudo ainda é segredo.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade