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Correio Braziliense

População de rua no DF cresce no período próximo ao Natal

A maioria vem de cidades vizinhas, na esperança de conseguir doações de quem mora ou passa pelo Plano Piloto


postado em 30/11/2018 07:00

Muitas famílias instaladas precariamente nas margens das vias do Distrito Federal pedem contribuições por meio de placas improvisadas(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Muitas famílias instaladas precariamente nas margens das vias do Distrito Federal pedem contribuições por meio de placas improvisadas (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Cristiane Silva, 37 anos, não mora em Brasília. Tampouco trabalha aqui. Mesmo assim, todo fim de ano ela troca a casa, em Planaltina de Goiás, pelo Distrito Federal na esperança de conseguir alguma doação para o Natal. Desempregada, ela se arrisca em um matagal próximo ao Parque Ecológico Burle Marx, na Asa Norte, com a filha e os dois netos. Sob sol e chuva, a mulher espera por doações de peças de roupa a, principalmente, dinheiro.

Assim como Cristiane, centenas de outros moradores do Entorno do DF e de localidades mais distantes engrossam a população de rua da capital federal nesta época do ano. Apostando na bondade alheia, elas e eles se submetem a todo tipo de situação para receber algum auxílio. “Sempre morei em invasão, então, ficar aqui não é problema algum para mim. Ou faço isso ou fico de mãos abanando no Natal. Realmente preciso”, afirmou a moradora de Planaltina de Goiás.

Há 3 mil pessoas em situação de rua espalhadas pelas regiões administrativas do DF, segundo o governo local. O número cresce 20% no fim do ano, com a migração em massa de Goiás, Minas Gerais e Bahia. Eles se concentram no Plano Piloto. “Eles se deslocam para o centro dos grandes centros pois ficam mais perto das pessoas com maior poder aquisitivo. Além disso, essas pessoas encontram mais oportunidades para fazer um bico, seja vigiando um carro, seja recolhendo materiais recicláveis”, explica a professora Camila Pereira, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília (UnB).

"Sempre passam aqui nos xingando e nos mandando trabalhar. Mas eles não sabem o que nós passamos. Falar de fora é muito fácil. O que eu mais queria era sair daqui", Antônia Meire Lima, catadora de materiais recicláveis (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
Outras datas comemorativas também atraem os migrantes. “Apesar de não serem de fato pessoas em situação de rua, são populações extremamente pobres e com necessidades. Elas têm dificuldade de gerar renda nas cidades onde vivem e veem nas épocas de festa uma possibilidade de conseguir ajuda em outro lugar. Mesmo enfrentando a vida mais difícil que existe, com sofrimentos físicos e psicológicos brutais, essa é a estratégia que eles encontram para sobreviver”, observa Camila Pereira.

Cristiane, por exemplo, vem à Brasília quase todos os meses. Na maioria das vezes, ela tem dinheiro só para a passagem. Além disso, enfrenta ônibus lotado e aproximadamente 70 quilômetros de viagem. Mas não reclama. “Quem vê de fora, não entende. Acha que eu sou drogada ou criminosa. Mas não faço isso porque acho bonito. A minha vida inteira foi assim. Não me orgulho, mas tenho que fazer a minha parte para ter alguma coisa. É duro ouvir seu neto pedir um presente e você não ter como dar. O mínimo que consigo, já ajuda”, ressalta a mulher.

Famílias do DF

As famílias de baixa renda que moram em Brasília também se tornam pedintes no fim do ano. Muitas recorrem aos semáforos e às margens de vias movimentadas, exibindo placas, como fez Ana Maria Paiva, 38 anos. “O que me derem, aceitarei de coração. Toda doação é bem-vinda. Um colchão, um cobertor, uma roupa, não importa. Qualquer coisa para a gente é importante”, afirma.

Há duas semanas, ela e o marido, Josimar da Silva, 32, montaram uma barraca às margens da L3 Norte. Mas são poucas as pessoas que param ali para ajudar. Com ao menos outras cinco famílias vivendo no local, é ainda mais difícil conseguir atenção. “Fazer o quê? É assim mesmo. Vamos levando a nossa vida enquanto Deus cuida da gente. Mas gostaria que as outras pessoas tivessem mais compaixão com quem passa necessidade”, frisa Josimar.

Em uma área próxima dali, fica o barraco de Antônia Meire Lima, 45 anos, que sobrevive recolhendo materiais recicláveis. Ela veio do Nordeste em busca de emprego e melhor vida. No entanto, esbarrou na falta de oportunidades e agora vive ao relento. O que mais a incomoda é o preconceito. “Sempre passam aqui nos xingando e nos mandando trabalhar. Mas eles não sabem o que nós passamos. Falar de fora é muito fácil. O que eu mais queria era sair daqui”, lamenta a mulher.

De acordo com a professora Camila Pereira, pessoas em situação de rua são vítimas sociais históricas. “Elas não praticam violência. Ao contrário, são os principais alvos. Além disso, essa população é a primeira a ser penalizada com o retrocesso de políticas sociais”, alerta a pesquisadora. Ela pontua que a solução desse problema passaria por uma nova postura política, econômica e social do país. Mesmo assim, cada cidadão pode ajudar de alguma forma. “Em primeiro lugar, temos que tomar cuidado com a forma de julgar os outros. É uma escolha de princípios e valores. Essas pessoas não são responsáveis pela situação de penúria que passam hoje”, destaca Camila.

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